Capítulo 6 6

Ana Júlia

Então, impulsionada por uma força que desconheço, levanto-me do banco e o sigo em silêncio. Entramos em sua sala, que tem uma decoração moderna, alguns livros em uma estante e alguns quadros com fotos de sua família desportos sobre a sua mesa. Sinto os meus passos cada vez mais pesados, minhas pernas parecem pesar uma tonelada. Sento-me na cadeira em frente para sua mesa, para enfim ouvir o que ele tem para me dizer.

— Ana, as notícias não são nada boas. A sua mãe teve outra parada cardiorrespiratória. Ela está muito fraca e temo que se ela tiver outra parada dessas, acredito que não vá resistir — diz o seu prognóstico e me lança um olhar piedoso. — Querida, eu aconselho que fique preparada, porque ela pode ir a qualquer momento. Imagino que não será nada fácil, menina, mas temos que ser realistas.

Escuto o médico falar e falar, mas não presto muita atenção em suas palavras. Meu cérebro está girando e girando sem parar e minha mente está muito distante daqui. Estou pensando no amanhã e no meu futuro sem ela.

Minutos depois, saio do seu consultório arrasada, acabada, sem forças, sem esperanças e sem chão. Meu mundo está desabando mais uma vez sobre a minha cabeça.

— O que será de mim agora? — pergunto para mim mesma. — Eu me sinto tão sozinha sem você aqui comigo, mãe. Por favor, não me deixe!  — peço, encostando-me em uma parede, sentindo minhas pernas fraquejarem, até que caio de joelhos no chão, entregando-me mais uma vez à dor e às lágrimas que já não controlo mais. Sinto braços carinhosos me abraçarem. Mônica está ao meu lado como havia me prometido e chora junto comigo. Não havia necessidade de dizer-lhe mais nada, ela já entendera o que estava acontecendo.

— O que eu farei agora, amiga? — perguntei soluçando em seus braços. — Eu não sei o que fazer com essa dor aqui dentro do meu peito. Se ela me deixar, eu não saberei viver.

— Querida, eu sinto muito, mas você precisa ser forte agora. Por você e por ela também. Ana, a sua mãe precisa descansar, ela já não aguenta mais. Lutou o que tinha para lutar, mas tenha uma certeza na vida, ela não irá em paz se você ficar assim. — Suas palavras penetraram com suavidade em meus ouvidos. Ela tem razão, mas meu coração é egoísta demais para deixá-la ir.

— Deus, me ajude, por favor! Deus, me ajude, por favor! Deus, me ajude, por favor! — Repito a prece que fiz minutos atrás.  —Mãe me ajude a suportar essa dor que é a sua partida — sussurrei um último pedido de socorro para a minha mãe, na esperança de que ela realizasse esse último desejo. — Eu te amo tanto! — digo soluçando. Mônica afaga as minhas costas, ainda abraçada a mim no chão e eu me deixo levar pelas boas lembranças.

— Mamãe, mamãe, cheguei! Cadê você, mamãe?

— Aqui na cozinha, querida! — Escuto a voz de mamãe e corro direto para o cômodo, mas surpreendida por uma mesa linda, toda colorida, com bolo, doces e muitos salgadinhos, e na parede tem um arco de balões coloridos. Assusto-me ao ouvir um grito coletivo de SURPRESAAAAA! e abro um enorme sorriso ao ver que todos lembraram do meu aniversário de sete anos. Todos estavam lá: Mônica, seus pais, sua irmã e minha mãe linda!

— Vocês lembraram! — falo dando pulinhos animados e batendo palminhas arrancando algumas risadas dos nossos amigos. Recebo o abraço e os parabéns de todos em seguida e dou muitos beijos na minha mãe. Pois, eu sei que foi ela quem preparou tudo isso para mim.

— Obrigada, mamãe! Eu te amo muito, sabia disso?

— Também te amo muito, muito, muito e muito, meu amor!

Sorrio com a lembrança e penso que terei muitas assim para sempre lembrar dela.

— Obrigada por tudo, mãe! — sussurro para mim mesma. Decido que ficarei perto dela até o último instante e farei o que ela mais gosta: lerei, cantar e contar as boas lembranças que tenho dela, até que chegue o momento de sua partida. Algumas horas depois ela já estava estabilizada e eu pude voltar para o quarto. Minha mãe dormia serena em seu leito, até parecia um anjo. Chego perto da cama com cuidado e seguro sua mão. Sinto o seu toque gélido e quase sem vida. Ao lado da cama, um aparelho a ajuda a respirar e um outro, monitora os seus batimentos cardíacos. Acomodo-me na cadeira ao lado da cama, sem soltar a sua mão.

— Oi, mãe! Se lembra quando…

Começo a contar algumas das nossas lembranças felizes. Rose não esboça nenhuma reação, mas mesmo assim eu continuo. A noite passa e o dia chega de uma forma que eu nem percebo. Não consegui dormir. Fiquei quietinha, velando o seu sono e curtindo a sua presença enquanto eu podia. O dia se arrastou sofregamente, mamãe acordou algumas vezes, mas logo ela voltava a dormir. A noite seguinte seguiu tranquila e para a minha felicidade, Rose dormiu sem nenhum problema.  Em algum momento da madrugada ela acordou e me pediu um pouco de água. Com cuidado a ajudei a tomar alguns goles e logo ela dormiu outra vez. Nessa mesma noite cantei a sua música preferida e nem percebi quando adormeci sentada com a cabeça apoiada no colchão, perto da sua mão.

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