Capítulo 2 Capítulo 2
Ethan
Eu corria incansavelmente, sentindo a temperatura meio alta aquecendo as minhas patas. Não via nada em frente, só conseguia ouvir as vozes dos meus pais em minha mente.
— Você tem um dever a cumprir! Precisa se concentrar no que é importante. Você é um Alfa! — minha mãe rugiu.
— Não, eu não sou um Alfa. Ainda não. E posso muito bem negar esse título, caso vocês não me deem escolha! — rebati, irritado, sentindo meu lobo cada vez mais na superfície.
— Jamais repita uma atrocidade dessas, Ethan! Você não é um Alfa, mas será o futuro Alfa dessa matilha, então aja como tal. Chega de brincar! — meu pai rugiu, tão irritado quanto eu.
— E o que vocês querem que eu faça? Querem que eu abandone meus sonhos por causa de algo que vocês desejam para mim?
— Não, Ethan, apenas não podemos permitir que continue com essa brincadeira de criança, estando nesse namorico apenas para ir contra nós e tudo o que te ensinamos para ser. Você sempre soube qual seria o seu destino. — meu pai falou.
— Sim, eu sabia, mas vocês me disseram que isso apenas aconteceria caso eu não encontrasse a minha companheira destinada. Do contrário, eu poderia escolher com quem ficar e escolhi a Eliza! — retruquei.
— Não se trata disso, Ethan. Você já é um adulto, aja como tal! A Eliza não vem de uma boa família, não podemos permitir que se case com ela. — minha mãe falou.
— Quando vocês vão parar de discutir sobre isso? Não podem obrigá-lo a fazer o que não quer. — surgindo de repente na sala de estar, Sienna tentou intervir, me defendendo.
— Fica fora disso, Sienna. — a repreendi, não porque não apreciasse o seu gesto, mas por não querer que a situação fosse para o lado dela. Meu pai poderia se irritar ainda mais e as coisas ficariam piores.
— Cale a boca, Sienna! — exatamente como eu havia previsto, meu pai se alterou. — Seu irmão tem deveres a cumprir. Acabamos de fechar uma sociedade e esse nosso sócio quer alguém de boa família para se casar com a filha dele. Como seu irmão não encontrou a companheira até hoje, não há motivos para não aceitar. — ele concluiu.
— Isso não é justo, pai! — Sienna disse, chateada. — Eu não suporto a Eliza, acho ela insuportável, mas até eu acho essa ideia antiquada. Isso é coisa do passado, não vê?
— Não importa! O que eu disse está dito, não voltarei atrás em minha palavra! — meu pai disse.
Irritado, eu os deixei lá, discutindo sobre minha vida e futuro e segui para fora o mais rápido que pude, sentindo a febre em meu corpo. Meu lobo estava rugindo em minha mente.
Do lado de fora, senti o poder da transformação, as roupas se rasgando e logo estava correndo pela floresta próxima a nossa casa em forma de lobo, sentindo meus sentidos aguçados.
Não era fácil ter o peso de uma responsabilidade quando ela vinha seguida de outras.
Eu sempre quis ser o Alfa, herdar o lugar do meu pai, mas não imaginava que as coisas tomariam um rumo completamente diferente do que planejei para mim mesmo.
Parei de correr somente quando me senti cansado demais para continuar, então retornei para perto de nossa casa, mais calmo e vi minha irmã encostada na lataria do meu carro, segurando algo nas mãos, que certamente eram roupas para mim, e voltei à minha forma humana.
Peguei as roupas em suas mãos e me vesti rapidamente, entrando no carro onde Sienna já estava. Então, girei a chave na ignição e dirigi calado a toda velocidade.
Velocidade era algo que me instigava sempre que eu estava irritado. E, por sorte, minha irmã não se importava. Até gostava.
No caminho para a escola, ela colocou um rock no rádio para tocar e soltou um grito de êxtase, me fazendo dar um meio sorriso de canto sem mostrar os dentes.
Era Bad Liar, do Imagine Dragons.
Ela cantava em alto e bom tom.
— Vamos, seu chato, solta essa voz! — ela me chacoalhou e reclamou, me fazendo rir pela primeira vez nesse dia.
Balancei a cabeça para os lados, não querendo ceder.
— I'm a bad liar, bad liar. — me olhou de canto, até que comecei a cantar baixinho: — Now you know, you're free to go.
Sienna me deu um tapinha nas costas.
— Uhuuul! É isso aí! — gritou com os braços para o ar e eu continuei a dirigir.
Eu poderia reclamar sobre muitas coisas nessa vida, mas não sobre tê-la. Ela era incrível.
(...)
Finalmente chegamos ao nosso destino e eu estacionei.
— Olha, se não é o astro dos Lions! — David, um dos meus colegas do time de basquete, proferiu ao me ver chegar.
Ele segurava uma bola e estava com o restante dos caras.
Eu estava no último ano do colegial e já era para ter me formado, mas devido a algumas questões, como excesso de faltas e bebedeira, tinha sido reprovado e precisei repetir essa porcaria.
Esse ano não podia arriscar que isso acontecesse de novo, ou perderia também a chance de, quem sabe, ganhar uma bolsa no time de basquete na faculdade que eu tanto almejava.
— E aí, cara! — saí do carro, me aproximei dele e demos um toque de mãos, seguido daquele famoso abraço de homens.
— E aí, gata! — David falou, olhando para minha irmã, cheio de malícia.
— Se liga, oh, idiota! — lhe dei um pescotapa. — Ela é minha irmã e é muita areia para o seu caminhãozinho.
— Tá tranquilo. Por ela, eu faço dez viagens se for preciso. — não somente eu, mas até a Sienna riu.
Ela já estava acostumada com as piadinhas do David e levava na esportiva.
— Nos vemos depois. — ela disse e deu um beijo em meu rosto, antes de sair rebolando.
Eu sempre me irritava com isso, com as roupas que ela usava e o jeito que andava. Não por querer mandar nela ou algo do tipo, mas por ter ciúmes da minha irmãzinha. No entanto, ela estava pouco se lixando para o que eu pensava.
Continuamos ali, conversando, falando a respeito de algumas festas que fomos nas férias e sobre os jogos, até que percebi que o horário já estava avançado e eu precisava ir para a sala. Não queria que esse ano fosse igual ao último.
Subi a escada e segui pelo corredor, me direcionando à sala. Estava meio desligado, lembrando da conversa que tive com meus pais mais cedo. Era meio inevitável que isso acontecesse.
Estava tão absorto em meus próprios pensamentos, que só me dei conta de que havia chegado na porta da sala quando senti alguém se bater comigo.
Antes que eu olhasse para a pessoa, seu cheiro de flores do campo invadiu minhas narinas de forma avassaladora. Por um instante, me perdi totalmente.
Sua pele era como porcelana, de tão macia, quando a segurei para que não caísse. Ela ainda não tinha percebido quem era, e quando olhou para mim, que nossos olhares se encontraram, eu senti não só o meu coração acelerar, como meu lobo rugir em minha mente, gritando: "minha".
Depois de tanto tempo procurando e já tendo desistido de encontrá-la, eu finalmente a encontrei. Essa garota que eu não fazia a menor ideia de quem era, era minha companheira destinada. E era linda, perfeita para dizer o mínimo.
Sua pele branca, seus olhos acinzentados, os traços perfeitos. Os lábios carnudos e avermelhados, que eu precisei me esforçar muito para não beijar.
Eu precisava lembrar que, apesar de tê-la encontrado, não podia reivindicá-la como minha, ainda que meu lobo estivesse sedento por fazê-lo. Eu tinha a Eliza, estávamos juntos há muito tempo, seria muita falta de respeito e consideração terminar com ela assim do nada.
Afinal, o que eu diria? “Oh, Eliza, sinto muito, mas encontrei minha companheira e não podemos mais ficar juntos.”
Seria cruel e eu sabia disso.
A soltei, mesmo querendo continuar sentindo-a em meus braços e caminhei para o meu assento. Enquanto andava, sentia seu olhar em minhas costas e sorri involuntariamente. Senti também meu lobo reclamando comigo por não reivindicá-la e precisei afastá-lo para o fundo da minha mente, ou não teria paz.
Olhei para trás e a flagrei me encarando, o que foi bom para o meu ego.
Durante toda a aula, eu não conseguia evitar olhá-la, era muito maior e mais forte do que eu. Por vezes, respirava fundo somente para sentir seu cheiro, que me inebriava. Eu queria mais, muito mais. Queria tocá-la, beijá-la, marcá-la e fazê-la minha, mas não podia, ainda não, e precisava me controlar.
