Capítulo 5 Capítulo 5

Serena

Não era fim de semana, mas o movimento na lanchonete estava relativamente grande. Enquanto eu limpava a mesa de alguns clientes que haviam terminado sua refeição e ido embora, ouvi o som da sineta tocando — algo que acontecia sempre que a porta era aberta — o que me fez erguer a cabeça e olhar na direção da entrada.

Era um grupo de rapazes que aparentavam ter aproximadamente a minha idade. E tinha a impressão de conhecê-los, mas não lembrava de onde.

Eles sentaram numa das mesas e eu continuei a fazer o que estava fazendo, os ignorando, porque tinham outras meninas para os atender.

— Ei, Serena — Diéne, uma das minhas colegas de trabalho chamou minha atenção, me fazendo erguer a cabeça. Imediatamente, parei o que estava fazendo e a olhei atrás do balcão. — Preciso ir ao banheiro, quebra essa pra mim?

Desviei meu olhar do dela, encarando o relógio de parede, percebendo que o horário já estava avançado e eu não demoraria a ir embora, mas o fato de ter que atender mais clientes não colaboraria com isso.

Respirei fundo, afinal, eu não podia reclamar. Foi escolha minha trabalhar aqui, levando em consideração que eu não precisava, mas era orgulhosa demais para ficar pedindo dinheiro aos meus pais toda vez que queria algo.

— Tudo bem — meneei a cabeça, concordando com seu pedido e ela piscou para mim, saindo às pressas em direção ao banheiro.

Terminei de limpar a mesa e, equilibrando a bandeja com os copos e pratos sujos, fui até o balcão para deixá-los lá, então retornei pé ante pé, indo à mesa onde estavam os rapazes.

— Boa noite — os cumprimentei e peguei meu caderninho e caneta para anotar seus pedidos. — O que vão querer?

— Que tal um copo cheinho de você, gatinha? — um deles sugeriu e eu ergui o olhar do meu caderninho para encará-lo com as sobrancelhas arqueadas.

— Perdão? — perguntei, querendo ter certeza de que não estava maluca e tinha escutado certo.

— Ah, vai bancar a difícil? — ele continuou.

— Não estou bancando nada. Estou em meu horário de trabalho, tentando ser cordial com vocês, ainda que a minha vontade seja chutar a sua bunda — sorri debochadamente.

— Uou! — seus outros colegas falaram em coro e um deles pôs a mão nos cabelos dele, os bagunçando. — Ela é tinhosa, cara. Se deu mal! — ele ria e o engraçadinho ficou sem graça, o que me fez querer rir também, porém, tinha que ser profissional.

Serena 1, Carinha Arrogante 0.

— Então, o que vão querer? — perguntei novamente.

— Desculpa a demora, galera. Tive que levar a Eliza em casa — eu reconheceria essa voz em qualquer lugar que estivesse e nem mesmo precisava olhá-lo para saber que era ele, porque, involuntariamente, meu coração palpitou.

Continuei com o olhar baixo, evitando ao máximo encará-lo, não poderia fazer isso.

— Serena?

Droga! Ele me reconheceu!

— Hum? — me fazendo de desentendida, olhei em sua direção, notando seu olhar enigmático.

— Serena, não é?

— É… — estava tão sem jeito em sua frente, que não conseguia nem falar direito.

Todo meu corpo estava estranho, como se fosse entrar em erupção a qualquer momento e eu não entendia.

“Ava, você está aí?”, tentando me safar dessa situação extremamente constrangedora e sem entender o que estava acontecendo comigo desde que vi o Ethan na escola, chamei a atenção da minha loba, mas ela não respondeu.

Na verdade, já tinha uns dias que eu não conseguia me comunicar com ela.

“Ava?”, chamei de novo e nada.

— Serena, está tudo bem? — me trazendo de volta à realidade, Ethan me chamou.

— Oi, desculpe — corei, totalmente sem graça. — Você está com eles? O que vão querer? — me atropelei nas palavras e nem sabia a razão para isso.

O vi dar um leve sorriso, que me fez corar ainda mais e suas covinhas apareceram. A maneira como me olhava fazia meu estômago revirar. Não tinha somente borboletas, tinha todo tipo de inseto voando e me deixando em êxtase.

— Estou, sim. Não lembra deles? São meus colegas do time de basquete da escola.

Merda! É claro! Como eu sou lerda!

Juro que queria enfiar minha cabeça em algum buraco de tamanha vergonha. Mas para justificar eu não lembrar deles, quando fomos apresentados hoje mais cedo, não consegui prestar atenção em nenhum deles, estava muito interessada em um certo rapaz que roubou todo o meu ar e quase me tirou do chão.

— Desculpe a minha falta de atenção, tive um pequeno probleminha mais cedo, estava meio que com a cabeça na lua. Me desculpem, meninos — falei com eles, ignorando a gracinha que um deles fez mais cedo.

Então, lembrei que o garoto que havia feito a piadinha para mim, era justamente aquele que a Sienna me apresentou no refeitório da escola e disse que eu poderia ignorar. Certamente era só o jeito dele e ele fazia isso com todas as garotas, até porque os outros não agiram do mesmo jeito.

— Tá tudo bem, mas sempre viemos aqui e nunca te vi — Ethan falou e se juntou a eles, tomando um dos assentos.

— Ah, é que eu comecei há pouco tempo e provavelmente vocês vieram no turno que eu não estava, ou algo parecido — dei de ombros, poupando explicações.

Anotei os pedidos de todos, porções e mais porções de hambúrgueres e batatas fritas, refrigerantes e outras guloseimas, algo que eu pensei que atletas jamais consumiriam para ter o corpo que tinham, mas quem era eu para julgar?

Levei os pedidos para serem feitos e não demorei a trazer até a mesa deles. Estávamos perto de fechar, mas nosso chefe sempre nos obrigava a fazer hora extra quando chegavam mais clientes. Para ele, o importante era fazer dinheiro, ainda que já tivéssemos lhe dado a ideia de, minutos antes do fechamento da lanchonete, virar a placa para o lado onde tinha escrito fechado, assim evitaria que mais pessoas chegassem. No entanto, ele estava pouco se lixando para isso.

Enquanto eles comiam, sentada atrás do balcão, eu sentia por vezes o olhar do Ethan sobre mim, praticamente me tirando o fôlego.

Depois de um tempo, eles pagaram a conta e se levantaram para ir embora. Na saída, senti seu olhar sobre mim uma última vez e, sem perceber, prendi o ar.

Eu realmente não conseguia entender o que estava acontecendo comigo e não conseguir me comunicar com minha loba estava ferrando com tudo. Tornando tudo muito mais difícil.

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