Capítulo 2 Desejo

Com cuidado, meus pés voltam ao chão, e sou obrigada a fazer um grande esforço para me erguer sobre as pernas trêmulas. Seus olhos verdes se voltam para o meu rosto novamente, e ele me pergunta mais uma vez:

— A senhorita está bem?

Pela terceira vez.

Apenas assinto com a cabeça, pois minha voz desapareceu e não consigo encontrá-la.

Nesse momento, Molly surge pelo corredor lateral, chamando por mim. Quando o vê, faz uma desajeitada reverência e me leva praticamente arrastada até a cozinha, com a desculpa de que precisa da minha ajuda. Não resisto e olho por cima do ombro para vê-lo mais uma vez, mas ele está de costas para mim, dando ordens a alguns criados. Nem sequer tive a chance de respondê-lo.

— Você ficou louca? Meu Deus, menina, o que foi dessa vez? — pergunta Molly, com o rosto vermelho, parecendo um tomate.

— Apenas um acidente! Nada mais. Eu caí enquanto colocava a última cortina perto da porta.

— Tome mais cuidado da próxima vez. Nem sempre terá alguém para apanhá-la nos braços.

Não digo nada. Apenas continuo cortando as cebolas, que já começam a me fazer chorar.

Um bom tempo depois, quando o almoço já está pronto e sendo servido, vou examinar se a cortina que causou o acidente ainda está no chão, esperando para ser colocada. Para minha surpresa, Matthew já a colocou em seu devido lugar.

Enquanto caminho de volta aos meus afazeres, meus pensamentos me levam novamente aos acontecimentos da minha vida.

Levo uma vida não totalmente solitária, pois tenho alguns amigos. Ainda assim, gostaria de ter mais momentos felizes para poder guardar na memória. As únicas coisas das quais me lembro são de não ter o que comer junto com minha avó. Morávamos em uma pequena palhoça caindo aos pedaços. A pior época era o inverno, pois a chuva e o frio intenso eram um grande problema, além da fome.

Mesmo assim, aqueles dias foram felizes.

Conheci muito pouco minha mãe e me lembro de poucas coisas de quando era pequena. Minha avó sempre dizia que ela era linda, com seus cabelos loiros e grandes olhos azuis.

— Mas o destino a levou, deixando somente você de presente para mim! — dizia vovó.

Era a noite do meu décimo oitavo aniversário quando minha avó abriu o velho baú que pertencera à minha mãe e me presenteou com um lindo vestido de seda vermelha. Era uma peça muito fina e ainda estava bem conservada.

Amei-o ainda mais por saber que havia pertencido à minha mãe.

— Seu pai deu este vestido de presente à sua mãe! Não é lindo? — minha avó falou, com a voz embargada pela emoção das lembranças.

Por mais que eu insistisse em saber quem era meu pai, nunca recebia uma resposta concreta de minha avó. A única coisa que ela sempre me dizia era:

— Seu pai... é um bom homem. Apesar das adversidades da vida, amou muito a sua mãe.

— Por que não o conheci?

— O destino é quem dá as cartas. Sua mãe quis que fosse assim. Você o conhecerá quando chegar a hora. Não fique aflita. Somente o que posso dizer é que ele era um nobre. O restante, o tempo se encarregará de revelar.

Essa velha explicação nunca foi suficiente para mim, mas uma novidade havia surgido: eu era filha de um nobre.

A pergunta que nunca saiu da minha cabeça era: o que havia acontecido com ele e com minha mãe?

O vestido que ganhei estava com alguns botões faltando, então resolvi caminhar até a loja do outro lado da cidade para comprá-los com meus últimos centavos, antes que anoitecesse.

Coloco o vestido em uma velha sacola de pano e saio de casa.

Para quem já está acostumada a andar longas distâncias, não é difícil ir a pé. O sol ainda ilumina o céu quando saio, mas já consigo sentir o frio da noite tocando minha pele.

Quando chego à distante loja de botões, as portas ainda estão abertas. Apresso o passo e entro. Mostro ao atendente o tipo de botão de que preciso.

É pequeno, dourado e tem o formato de uma rosa.

O homem o avalia cuidadosamente e diz que aquele tipo de botão é feito de ouro e parece ter sido encomendado exclusivamente, pois nunca havia visto botões como aqueles.

Ele dispõe de uma seleção de botões baratos, mas nenhum se compara aos que restaram no lindo vestido.

É claro que teriam de ser baratos. Afinal, uma criada jamais teria condições de comprar botões de ouro, nem que trabalhasse a vida inteira.

Passo um bom tempo escolhendo e tentando encontrar pelo menos um que seja parecido. Quando percebo, o sol já começa a desaparecer lá fora.

Acabo escolhendo um pequeno botão em formato de flor que, apesar de barato, só consigo comprar dois.

É o suficiente para o conserto.

Saio da loja e vejo que está começando a chover.

Corro em meio à fina chuva. Meus pulmões queimam pelo esforço de percorrer aquela longa distância sem parar. Quando estou atravessando a rua que me levará até minha humilde casa, algo acontece rápido demais.

A última coisa que consigo ver vindo em minha direção é uma carruagem em alta velocidade.

O impacto.

A escuridão.

E mais nada.

Não sei como consigo me levantar. Tenho arranhões por todo o corpo, e o sangue escorre lentamente de um corte feio em minha cabeça. Além disso, uma dor insuportável toma conta das minhas costelas.

Tento andar assim mesmo.

Não lembro quem sou, de onde vim ou, muito menos, o que aconteceu.

Apanho a sacola ensopada e suja que está caída perto de mim e começo a me arrastar sem direção. A dor insuportável no abdômen está me matando. Devo ter quebrado alguma costela.

Estou com fome.

Estou com frio.

Sigo andando em qualquer direção, até que a vejo.

Uma imponente mansão surge diante dos meus olhos.

Sei que não é o melhor lugar para pedir ajuda, mas o cheiro de comida boa que paira no ar me conduz até lá.

Atravesso o jardim em um tempo que parece uma eternidade, tendo a sorte como minha única aliada, pois os grandes portões estão abertos.

A casa parece ter pouco movimento, mas é grande demais para estar completamente vazia. Isso me leva a acreditar que certamente existem pessoas lá dentro.

Escolho a direção reservada aos criados e bato em uma porta de madeira que parece pertencer à ala de serviço.

Bato uma, duas, três vezes.

Já não tenho forças sequer para continuar de pé.

A porta se abre com um rangido e, diante de mim, surge uma mulher ruiva e rechonchuda, segurando uma colher de pau na mão.

Ela me olha com seus olhos gentis e amorosos quando peço ajuda e um pouco de comida.

Ela me leva para dentro e me faz sentar em uma cadeira. Solto um gemido quando ela toca em minhas costelas quebradas.

— Oh, meu Deus! Você está muito machucada! — diz ela.

Não tenho mais forças para nada.

Até minha fome desapareceu.

A última coisa que vejo é um garoto alto, ruivo como a mulher gentil que segura a colher de pau. Ele me ergue nos braços antes que eu apague e tudo o que reste seja escuridão.

E é assim que tudo começa.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo