Capítulo 4 Visita
Acordo sobressaltada, com o calor me sufocando e os cabelos colados ao rosto de uma maneira desconfortável. Sem falar da inebriante sensação de que olhos muito verdes me seguem onde quer que eu vá.
Retiro alguns fios de cabelo que ainda permanecem grudados em meu rosto e me levanto da cama. Tomo um copo de água e passo um pouco dela em meu rosto. Enxugo-o com uma pequena toalha branca e volto a me deitar.
Olho para o velho relógio que tenho guardado e vejo que são exatamente 12h30.
Suspiro alto e levanto um dos braços, colocando-o sobre os olhos.
Ainda posso ouvir o som da orquestra tocando a valsa na qual eu estava dançando com o misterioso cavalheiro vestido de preto, com incríveis olhos verdes por trás da máscara.
— Meu Deus! Não acredito que vou perder o sono por causa de um sonho! — digo em voz alta.
Tento dormir, mas não consigo.
Olho no relógio mais uma vez e já passa da 1h15 da manhã. Fico fitando o teto por muito tempo, até conseguir pegar no sono novamente.
Agora, sem sonhos.
Quando acordo, ainda não são cinco horas da manhã, pois tenho bastante trabalho a fazer. Meu corpo protesta quando me levanto da cama, que hoje parece mais convidativa do que nunca.
Faço um grande esforço e consigo arrastar meu corpo sonolento para fora do quarto. Arrumo-me, visto o vestido preto e o avental branco e saio em direção à cozinha, onde Molly já se encontra de pé, preparando suas especialidades para o café da manhã.
— Bom dia, Molly! — digo a ela.
— Bom dia para você também, Elizabeth! — responde Molly, virando-se para me olhar.
— Sabe... estive pensando quanto ao seu nome. Elizabeth não é um nome comum entre os pobres. Tem alguma coisa por trás de tudo isso, posso sentir. — Molly estreita os olhos. — Sua avó deixou você na dúvida. Você ainda continua sendo um mistério que o destino se encarregará de desvendar. Tenho quase certeza de que você não pertence ao lugar onde se encontra agora.
— Isso, para mim, não é mais novidade. Já cansei de sonhar com coisas impossíveis faz tempo — digo a Molly.
Ela sorri e solta uma pequena risada.
— Parou de sonhar? Pois, aos meus olhos, continua sonhando! Vi como você ficou ao ver Vossa Graça com aquela tal Lady Walker. Sua cara não era de quem não se importa.
— Eu apenas os vi por acaso enquanto estava carregando água! — respondo.
Molly me olha desconfiada, colocando as mãos sujas de trigo na cintura.
— Se você não voltar à sua massa agora, os pães não ficarão prontos para o café da manhã.
Dizendo isso, ela volta sua atenção para a massa sobre a mesa, desviando assim seu olhar desconfiado de mim.
— A propósito, de onde ela é?
— Ela quem?
— A tal Lady Walker!
— Ainda diz que não se importa! Mas, matando sua curiosidade, ela é daqui mesmo. Dizem que seu marido era o antigo duque de Wessex, um homem idoso e de idade já avançada, que faleceu há um ano. Como ela não conseguiu dar filhos ao velho duque, um sobrinho dele assumiu o título, o que não a deixou nem um pouco feliz. Mesmo assim, ela recebeu uma boa herança e é uma mulher muito rica.
— Você está muito bem informada! Não me diga que andou ouvindo atrás das portas!
— Foi o que ouvi enquanto Vossa Graça conversava com seu primo, Sir Eduardo — diz Molly.
Trabalhamos juntas. Molly prepara seus famosos pãezinhos enquanto termino de dar os últimos retoques na minha torta de maçã.
Olho para a janela que dá para o jardim e vejo que o dia amanheceu lindo. Passarinhos cantam nas árvores lá fora, enquanto o sol já brilha alto no céu, trazendo consigo uma brisa suave.
A vontade que sinto é de correr lá fora com os pés descalços e sentir o sol no rosto enquanto a grama molhada alivia meus pés doloridos pelos sapatos pequenos demais.
— Elizabeth! Elizabeth! Você está me ouvindo?
— Ah!... O quê?
— Eu disse que está na hora de servir a mesa! O duque já deve ter acordado!
— Desculpe-me. Eu estava distraída! — digo, já equilibrando nas mãos uma cesta com os pães e, na outra, a torta de maçã.
Vou andando apressada, já arrumando tudo na grande mesa.
Dou um suspiro aliviado ao não ver Vossa Graça de pé.
Volto para a cozinha o mais rápido possível e quase tropeço em Lucy. A pobre criada quase tomba, deixando cair as bandejas que traz, já cheias de coisas para a mesa.
Vou rapidamente até a cozinha e apanho os docinhos e o bule com o chá, aproveitando para levar junto duas xícaras, pois fui informada de que o café da manhã será servido para duas pessoas.
O que significa que teremos visitas.
Vou praticamente correndo de volta à mesa. No caminho, dou uma olhada no relógio de parede e vejo que já são oito horas em ponto, a hora exata em que o café deve ser servido.
Vossa Graça não gosta de atrasos. Tudo precisa estar perfeitamente organizado e preparado com antecedência, ainda mais quando temos visitas.
Apresso o passo e saio em disparada, sem olhar por onde estou pisando. Meus pés doem dentro dos malditos sapatos apertados, que esmagam meus pobres dedos.
Saio apressada pelo corredor e vejo que ele já está em seu lugar, na cabeceira da mesa, juntamente com uma mulher de cabelos negros presos em um coque elegante e usando o vestido verde-musgo da noite passada.
Ela deve ser Lady Walker, a mulher que vi junto dele na noite anterior.
Ela se inclina a cada palavra em sua direção para poder cochichar algo perto de seu ouvido. Ele parece concordar com o que a mulher diz.
Diminuo o passo e me aproximo dos dois.
Sem perceber, tropeço na ponta do tapete.
A última coisa que vejo é uma bandeja com docinhos voando pelos ares, juntamente com o bule de chá e as xícaras de porcelana.
Tudo vai diretamente na direção de Lady Walker e Alexandre Griffiths.
Então vem o impacto.
Caio no chão.
— Sua... sua insolente! — diz Lady Walker, esquecendo-se completamente dos modos.
Levanto-me do chão e vejo os confeitos dos bolinhos manchando seu vestido, sem falar nos cabelos escorrendo, pingando chá.
Alexandre Griffiths também se levanta. Há chá e manchas de confeitos em sua camisa branca e na calça escura.
Ele me olha, surpreso.
Enquanto isso, Lady Walker faz o maior escândalo na casa, chamando a atenção de alguns criados, que vêm até nós e me levam embora.
Ainda consigo ouvi-la dizer:
— Alexandre Griffiths, quero essa ratazana de esgoto fora daqui! Olhe só meu cabelo e meu vestido!
Ela enxuga os cabelos, finge chorar e aproveita para se jogar nos braços dele.
Passo um bom tempo sentada em uma das cadeiras da cozinha, esperando a sentença.
Ou melhor...
Minha demissão.
Até que a governanta chega à cozinha e diz:
— Você não será demitida, se é isso que está pensando. Agradeça a Vossa Graça, que é um homem generoso e não quis mandá-la embora por pena, e à sua amiga Molly, que implorou para você ficar. Mas com uma condição! Você está proibida de servir à mesa, seja em qualquer ocasião. Seu serviço agora será somente na área da cozinha. Fui clara?
Dizendo isso, ela vai embora, com os saltos dos sapatos estalando pelo piso, deixando-me sozinha.
Só eu e meus pensamentos.
Na manhã seguinte, acordo cedo para ir à feira comprar algumas coisas para a cozinha. E só se fala sobre o baile de máscaras de Lady Adams, que acontecerá no sábado seguinte.
Todos fofocam entusiasmados, como se fossem ao tão comentado baile.
Compro o que preciso e volto para casa para mais um dia de trabalho.
Entre os criados da mansão, o assunto é o mesmo durante todo o dia.
À noite, tomo um banho e visto minha velha camisola.
Meus poucos pertences estão bagunçados, então resolvo arrumá-los em seus devidos lugares. Vou até a velha cômoda e ajeito meu único frasco de perfume barato.
Então tiro de dentro da gaveta o vestido de minha mãe e resolvo experimentá-lo.
Deixo minha camisola de lado e visto o bonito vestido.
Olho-me no espelho.
Ficou muito bonito, tenho que admitir.
Minha avó diria que sou a imagem viva de minha mãe.
O desejo de ser livre para sair para onde quiser invade meu peito mais uma vez.
E, nesse exato momento, lembro-me do baile de Lady Adams.
— Como eu gostaria de ir! — suspiro. — Nem que fosse só por uma noite.
Digo isso em voz alta.
Nesse momento, uma ideia maluca passa pela minha cabeça.
E se fosse possível ir a esse baile de sábado?
Só desta vez!
Assim eu poderia saber como é dançar e conhecer pessoas novas.
Molly poderia me ajudar.
E, ainda mais importante, o baile é de máscaras, o que significa que ninguém me reconhecerá.
Dou um sorriso feliz.
O baile será amanhã.
E eu irei.
Nem que este seja o último baile da minha vida.
