Capítulo 4 JJ NARRANDO

Caramba... essa garota estava conseguindo mexer comigo de um jeito que eu não esperava.

Mas, antes de falar sobre isso, deixa eu me apresentar.

Meu nome é Júlio, mas quase ninguém me chama assim. Para a maioria, sou o JJ, dono do Morro do Alemão.

Sou um homem respeitado, temido e, para alguns, até odiado. Aprendi cedo que, nesse mundo, demonstrar fraqueza pode custar caro. Por isso, construí ao meu redor uma imagem de homem frio, alguém que ninguém ousa desafiar.

Mas existe uma parte de mim que quase ninguém conhece.

Dentro de casa, eu nunca fui apenas o JJ.

Eu fui marido.

Fui pai.

E, acima de tudo, fui apenas o Júlio.

Tenho um filho de vinte anos, Matheus. Ele está na Itália há alguns anos, sendo preparado pelo meu sogro, pela minha sogra e pelo irmão da minha falecida esposa. A família dela sempre esteve ligada à máfia, e, quando Matheus completou quinze anos, decidimos que ele precisava conhecer aquele mundo e aprender tudo o que fosse necessário para se proteger.

Mas meu filho já deixou muito claro que não quer assumir nada relacionado à família da mãe.

Ele quer voltar para o Brasil e, um dia, assumir o meu lugar no morro.

E eu respeito isso.

Conversamos todos os dias.

Mesmo assim, sinto falta dele.

Muito mais do que admito para qualquer pessoa.

Talvez porque, desde pequeno, Matheus tenha sido tudo o que restou de uma história de amor que terminou cedo demais.

A mãe dele.

Minha Cinthia.

Ela era linda.

Loira, olhos verdes, sorriso delicado e uma personalidade que conseguia iluminar qualquer ambiente.

Nós nos conhecemos quando tínhamos apenas quinze anos.

Ela veio ao morro acompanhando o pai, que era amigo dos meus pais há muitos anos. Quando coloquei os olhos nela pela primeira vez, senti meu coração acelerar.

Aos poucos, começamos a conversar.

Depois vieram as amizades.

Os encontros.

O namoro.

E, quando percebemos, já não conseguíamos imaginar nossas vidas separadas.

O pai dela, apesar de todo o poder que tinha, sempre fez questão de que Cinthia tivesse liberdade. Ela estudou, construiu seus próprios sonhos e nunca aceitou viver apenas à sombra da família.

Ela também tinha um coração enorme.

Foi por isso que, depois que nos casamos e tivemos Matheus, ela começou a desenvolver vários projetos sociais no morro.

Criou uma ONG.

Ajudou famílias.

Organizou campanhas.

Levou comida, roupas e oportunidades para quem precisava.

Até hoje, a ONG continua funcionando.

E vai continuar.

Porque esse foi um dos meus maiores compromissos com ela.

Cinthia morreu há dez anos.

Foi vítima de um câncer descoberto quando já estava avançado.

Ela lutou.

Lutou muito.

Mas chegou um momento em que nós dois sabíamos que não havia mais tempo.

E foi naquele dia que ela me pediu uma última coisa.

Lembranças

— Amor...

A voz dela estava fraca.

Eu estava sentado ao lado da cama, segurando sua mão.

— Estou aqui.

Ela respirou fundo e sorriu.

— Quando eu me for, quero que você continue sendo esse pai maravilhoso que é. Quero que continue cuidando do nosso filho e ajudando as pessoas daqui. E também quero que você seja feliz.

Apertei sua mão.

— Eu vou cuidar do nosso filho. Vou continuar ajudando o nosso povo. Mas ser feliz... acho que não vou conseguir sem você.

Ela balançou a cabeça lentamente.

— Não fala assim. Eu não quero que você passe o resto da sua vida preso à minha lembrança. Você pode me amar e, mesmo assim, continuar vivendo.

Baixei os olhos, tentando segurar as lágrimas.

— Como eu vou conseguir?

— Um dia você vai conseguir.

Ela respirou com dificuldade antes de continuar.

— E, quando aparecer alguém que faça seu coração bater diferente, não tenha medo. Não importa se for daqui a três meses, um ano, cinco anos... Quando esse dia chegar, abrace essa pessoa e não deixe o medo impedir você de viver.

Olhei para ela.

— Eu prometo tentar.

Ela sorriu.

— E eu quero que você saiba que sempre vai ser o amor da minha vida.

— Você também sempre será o amor da minha vida.

— E você foi o melhor marido que eu poderia ter tido. Você e nosso filho foram as melhores coisas que aconteceram comigo.

Me aproximei e beijei sua testa.

Depois, com todo cuidado, encostei meus lábios nos dela.

Foi nosso último beijo.

Quando nos afastamos, Cinthia estava chorando.

— Eu te amo, meu amor.

Minha garganta fechou.

— Eu também te amo.

— Cuida do nosso filho. Ensina ele a ser um homem bom. E diz para ele viver. Quando encontrar alguém que ame de verdade, quero que ele tenha coragem de viver esse amor.

Segurei sua mão com mais força.

— Eu prometo. Você pode descansar. Eu vou cuidar dele. Vou cuidar de tudo.

Ela sorriu.

Um sorriso pequeno, mas lindo.

— Eu sei.

E então seus olhos foram se fechando lentamente.

Foi naquele instante que meu mundo parou.

Fim das lembranças

Eu me lembro de ter chorado como nunca havia chorado antes.

Ali, dentro daquele quarto, eu não era o JJ.

Não era o dono do morro.

Era apenas um homem perdendo a mulher que amava.

Mas eu sabia que, quando saísse daquela porta, precisaria ser forte.

Não por mim.

Por Matheus.

Ele tinha apenas dez anos.

Enquanto eu estava perdendo minha esposa, meu filho estava perdendo a mãe.

Depois de algum tempo, liguei para o médico que acompanhava Cinthia.

Expliquei o que havia acontecido e ele tomou as providências necessárias para que a funerária pudesse buscar o corpo.

Quando desliguei, fiquei alguns segundos parado.

Então fui até o quarto do meu filho.

Abri a porta.

Matheus estava sentado à mesa, mas não estava mais fazendo a lição.

Seus olhos estavam presos em algum ponto da parede.

— Filho...

Ele levantou o rosto.

Os olhos estavam cheios de lágrimas.

— Papai... eu já sei.

Meu coração se partiu.

— Sabe o quê?

— Mamãe se foi.

Aproximei-me dele.

— Como você sabe?

Ele começou a chorar.

— Eu dormi um pouco... e sonhei com ela. Ela estava se despedindo de mim. Disse para eu ser forte.

Não consegui dizer mais nada.

Apenas o abracei.

Meu menino se agarrou a mim, e ficamos assim por um longo tempo.

Naquele momento, eu entendi que precisava ser pai antes de qualquer outra coisa.

Quando o pessoal da funerária chegou, deixei Matheus no quarto e cuidei de tudo.

Depois liguei para meu sogro e meu cunhado.

Eles disseram que viriam imediatamente para o Brasil.

Eu desliguei o telefone, tomei um banho e fui até a boca.

Mesmo com a cabeça destruída, eu precisava organizar tudo.

Chegando lá, anunciei que o morro entraria em luto por um mês.

O velório seria aberto para todos naquela noite.

No dia seguinte, permaneceriam apenas familiares e amigos próximos.

Depois disso, deixei meu sub responsável por tudo.

Eu simplesmente não tinha cabeça para comandar nada.

Voltei para casa e fiquei ao lado do meu filho até recebermos a notícia de que o corpo havia sido liberado.

Descemos juntos até a quadra onde seria realizado o velório.

Quando chegamos, o caixão já estava preparado.

Havia moradores, aliados e amigos espalhados pelo local.

Todos queriam prestar uma última homenagem à Cinthia.

Ela era querida por todos.

Eu e Matheus permanecemos próximos ao caixão.

As pessoas vinham nos abraçar, oferecer palavras de conforto e compartilhar lembranças dela.

Em determinado momento, vi meu sogro chegando acompanhado do meu cunhado.

Ele se aproximou do caixão e ficou alguns segundos olhando para a filha.

Depois passou a mão pelo rosto dela e chorou.

Foi uma das cenas mais difíceis que já presenciei.

Quando amanheceu, restaram apenas os familiares e os amigos mais próximos.

Algumas horas depois, chegou o momento que eu mais temia.

O enterro.

Segurei a mão de Matheus durante todo o caminho.

Ele estava em silêncio.

Eu também.

Quando começamos a nos despedir, a chuva caiu.

Primeiro fraca.

Depois mais intensa.

Olhei para o céu e deixei algumas lágrimas se misturarem à água.

Talvez fosse apenas coincidência.

Talvez não.

Mas, naquele momento, eu preferi acreditar que Cinthia estava se despedindo de nós também.

Quando tudo terminou, apertei a mão do meu filho.

— Vamos para casa.

Ele apenas assentiu.

Voltamos juntos.

E, naquele dia, fiz uma promessa silenciosa.

Eu não poderia trazer a mãe dele de volta.

Não poderia apagar a dor.

Mas estaria ao lado dele em cada passo.

Porque Cinthia havia me pedido apenas uma coisa antes de partir:

que eu cuidasse do nosso filho.

E eu cumpriria essa promessa pelo resto da minha vida.

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