Capítulo 2 Capítulo 1
Capítulo 1
ROXANYA
Eu acordei antes do sol, não por escolha, mas porque pessoas como eu não tinham esse tipo de privilégio.
Abri os olhos devagar e fiquei encarando o teto rachado acima da cama, onde uma mancha antiga de infiltração se espalhava como uma ferida mal curada. Àquela hora da manhã, com a luz fraca atravessando a cortina fina, ela parecia ainda maior, quase viva. Acho que é por isso que o quarto cheirava a mofo.
Fiquei imóvel por alguns segundos, ouvindo os barulhos ao redor. O cano da parede vibrava com aquele gemido irritante de sempre e, lá fora, alguma coisa de vidro tilintou na calçada enquanto o cachorro da vizinha latia como se estivesse brigando com o mundo.
Todos os dias eu prestava atenção nesses sons; era quase como se fosse uma rotina, porque ali ninguém dormia de verdade, só descansávamos o suficiente para continuar sobrevivendo no dia seguinte.
Que bonito, pensei, mais uma manhã como qualquer outra. Por isso eu afastei o cobertor e me sentei devagar. Senti o frio do chão atravessar a sola fina da minha meia favorita, que se encontrava rasgada no instante em que meus pés tocaram o piso. Fiz uma careta, mas me levantei mesmo assim, afinal, reclamar nunca mudou porra nenhuma.
Meu caminho seguiu até o banheiro minúsculo, onde precisei desviar do quarto da minha mãe sem encarar sua porta, como se virar o rosto evitasse de alguma forma o bacanal que acontecia lá dentro. As paredes eram finas demais para esconder qualquer tipo de segredo naquela casa, e o colchão rangia sem parar, fazendo questão de denunciar a atividade praticada.
Abri a torneira e deixei que a água corrente preenchesse o ambiente, oferecendo um barulho constante para abafar os gemidos que ecoavam pelo corredor. O espelho quebrado encostado na parede me devolveu uma versão minha que eu já conhecia bem demais. Mesmo sob a luz fraca do banheiro, meu semblante continuava firme e desafiador, porque eu simplesmente me recusava a permitir que qualquer coisa tirasse a minha paz de espírito.
A minha pele parecia feita de porcelana, o que era estranho para alguém que tinha crescido conhecendo a fome e as dificuldades da vida. Eu sei que havia algo quase cruel nisso, porque o meu rosto era bonito demais para combinar com a vida fodida que eu levava. As minhas maçãs do rosto eram altas e marcadas, o que dava à minha expressão uma beleza afiada que não pedia permissão para existir. Meu nariz era de bonequinha e minha boca carnuda e naturalmente desenhada; tinha um ar perigoso e sexy. Se você me encontrasse na rua, você poderia jurar que eu tinha feito algum tipo de preenchimento labial, mas eu malemá tinha dinheiro para sobreviver, quem dirá bancar procedimentos estéticos. Graças a Deus, era tudo natural.
O conjunto todo era bem bonito, mas eram os meus olhos que realmente prendiam as pessoas. A tonalidade era um azul que lembrava um oceano, idêntico aos da minha mãe. Quando eu me olhava no espelho, às vezes tinha a sensação incômoda de encarar uma versão mais jovem dela, porém, o que nos separava de verdade era o cabelo.
O cabelo dela era loiro e impecável demais para aquele lugar — bonito como alguma coisa frágil que nunca deveria ter sido tocada pela miséria. O meu era preto, liso e comprido, descendo pelas costas como uma sombra derramada. Eu sabia que esse cabelo preto obviamente era a marca deixada pelo homem que me colocou no mundo e desapareceu dele antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa. Engravidar uma puta de Rust Bay por si só já era uma loucura, quem dirá ficar e assumir a responsabilidade, não é mesmo?
Se eu fosse apenas um reflexo da minha mãe e do que esperam das mulheres de Rust Bay, eu estaria condenada a repetir sua história. Usar a minha beleza e meu corpo como moeda de troca para sobreviver um pouquinho a mais a cada dia, e acho que esse era um dos motivos pelos quais eu agia como se eu sempre estivesse aguardando um sinal para correr e não olhar para trás.
Quando desliguei a torneira e saí do banheiro enrolada na toalha, voltei para o quarto rapidinho, sentindo o cabelo úmido colado às costas. Entrei no quarto já pensando na roupa que eu iria vestir e, para continuar mantendo uma rotina, a gaveta da cômoda emperrou quando puxei, como fazia quase toda manhã, e precisei dar um tranco mais forte para abri-la. Escolhi o primeiro cropped preto que encontrei e um jeans gasto nos joelhos e vesti meu bom e velho coturno surrado.
Quando terminei, fui até a janela do quarto, encostei a testa no vidro e comecei a pensar no quanto eu odiava aquela sensação constante de aperto. A pobreza escancarada em cada esquina e, principalmente, a facilidade com que a miséria se agarrava às pessoas, como se, uma vez que ela tocasse em você, ela nunca mais fosse soltar de verdade.
A verdade é que eu entendia que odiar aquele lugar era quase como odiar a mim mesma, porque Rust Bay tinha me ensinado a não esperar demais, não confiar em ninguém e, acima de tudo, que, se eu quisesse algo, eu tinha que aprender a tomar.
Um barulho seco no corredor me arrancou dos pensamentos e então escutei passos rápidos e familiares.
Meu corpo inteiro ficou em alerta antes que minha cabeça organizasse o motivo, por isso soltei a cortina devagar e me virei para a porta, sentindo aquela tensão antiga deslizar para dentro de mim como uma lâmina conhecida. Os passos pararam do outro lado e, por um instante, houve silêncio.
E então a maçaneta girou e a pessoa que eu menos queria ver naquele momento entrou no meu quarto sem bater ou pedir permissão.
