Capítulo 2 Capítulo 2
Ponto de vista de Aria
Na hora do almoço, eu estava vibrando de energia nervosa. Entrei na fila da cantina, peguei uma bandeja de batatas fritas — meu estilo de vida vegano era mais uma forma de irritar meus pais — e encontrei Heather no nosso canto de sempre.
— Eles vão fazer isso — disse Heather, com os olhos arregalados. — Estão vindo.
Eu não olhei. Mergulhei uma batata no ketchup, pensando na Drew. Eu sentia tanta falta dela que parecia uma dor oca entre as costelas.
— Aria? — A voz de Heather saiu pequena.
Levantei os olhos.
A cantina tinha ficado em silêncio absoluto. Os quatro estavam parados na beira da nossa mesa. Lucian vinha à frente, segurando uma única rosa vermelha-escura. Os espinhos tinham sido removidos com um cuidado meticuloso.
Ele não disse uma palavra. Apenas se inclinou e colocou a flor sobre a mesa, entre as minhas batatas e minha garrafa de água.
O suspiro coletivo da sala foi ensurdecedor. Todas as garotas ali pareciam querer me assassinar. Todos os caras pareciam ter acabado de ver um fantasma.
Eles ficaram ali, convencidos e à espera, esperando que eu corasse, que chorasse ou que me atirasse aos pés deles. Achavam que estavam me concedendo um reino.
Senti o calor subir pelo meu pescoço, mas não era de vergonha. Era raiva pura, sem filtro.
Eu me levantei, a cadeira guinchando no chão. Peguei a rosa. Por um segundo, o sorriso de canto de Lucian se abriu ainda mais.
Estendi a mão e empurrei a flor com força contra o peito dele, bem em cima do coração.
— Nem em um milhão de anos — eu disse, minha voz ecoando no silêncio.
Não esperei por reação. Virei as costas para os garotos mais poderosos da escola e fui embora, deixando a rosa e os egos deles no chão.
Saí da cantina com o pulso martelando nos ouvidos. O silêncio que eu deixara para trás parecia pesado, como um peso físico pressionando as portas enquanto se fechavam. Eu sabia o que acabara de fazer. Na prática, eu tinha declarado guerra às quatro pessoas mais perigosas da academia, mas a onda de adrenalina era melhor do que o peso sufocante da “seleção” deles.
Eu não fui para a próxima aula. Eu não conseguia. Precisava de ar que não cheirasse a cera de chão e desespero. Contornei o corredor principal e escapei por uma saída lateral, indo em direção à velha ponte de pedra perto da borda do bosque do campus. Era o único lugar onde a perfeição impecável da All Saints começava a desfiar nas margens.
Encostei na pedra fria, minhas mãos ainda tremendo de leve.
Por que eu?
Eu não era a garota que eles escolhiam. Eu era a garota que eles ignoravam. Eu não jogava os jogos deles, não usava as máscaras deles e, com certeza, não parecia com as modelos de passarela que eles costumavam pendurar no braço.
— Você não devia ter feito isso.
Eu não precisei me virar para saber quem era. A voz era calma, quase melodiosa, mas tinha uma lâmina ali que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. Elliot.
Virei devagar, mantendo a expressão o mais neutra possível. Ele estava encostado em um carvalho próximo, o blazer pendurado em um dedo, a mão manchada de carvão enfiada no bolso. Parecia menos um valentão e mais um poeta — até você olhar nos olhos dele. Eram escuros, atentos, e naquele momento estavam fixos em mim com uma intensidade aterrorizante.
“Fazendo o quê? Recusando uma flor?”, perguntei, com a voz mais firme do que eu me sentia. “Até onde eu sei, isso aqui não é um reino e vocês não são, de fato, da realeza. Eu não sou obrigada a aceitar um presente que não pedi.”
Elliot deu um passo à frente, movendo-se com uma graça predatória que chegou perto demais para o meu conforto. “Não era um presente, Aria. Era um convite. Um escudo.”
“Eu não preciso de escudo nenhum”, rebati, ríspida.
“Você não faz ideia do que está vindo”, ele retrucou, a voz baixando até virar um sussurro. Ele estava perto o suficiente para eu sentir o leve aroma de cedro e tabaco caro. “A Rosa não é só sobre a gente te querer. É sobre garantir que ninguém mais possa encostar em você. Ao jogar aquilo de volta, você acabou de avisar a cada tubarão desta escola que você é caça liberada.”
“Eu sou ‘caça liberada’ desde que cheguei aqui, Elliot. E ainda estou de pé.”
Ele estendeu a mão, os dedos parando a um triz da minha mandíbula. Não me tocou, mas o calor que irradiava dele foi o bastante para prender minha respiração. “Os jogos ficaram muito mais caros, Aria. Lucian não gosta de perder. E Rowan… Bem, Rowan acha que você é um quebra-cabeça que ele precisa quebrar.”
“E você?”, desafiei, encarando-o sem desviar. “Eu sou só alguma coisa para você rabiscar no seu caderno?”
Um vestígio de sorriso tocou seus lábios, mas não chegou aos olhos. “Eu não preciso de caderno para lembrar como você fica quando está com raiva. É a coisa mais honesta que vi neste lugar em anos.”
Ele recuou, e a intensidade se rompeu tão rápido quanto tinha se formado. “Vai pra aula, Aria. E talvez mantenha os olhos abertos. A Rosa foi a parte fácil.”
Ele se virou e foi embora sem dizer mais nada, deixando-me sozinha com o som do vento atravessando as árvores e com a percepção apavorante de que meu último ano não tinha apenas começado — tinha virado uma caçada.
Olhei para as minhas mãos. Agora estavam firmes. Se eles queriam briga, escolheram a garota errada para subestimar. Eu não era só a filha dos meus pais; eu era a menina que Drew tinha criado para ter orgulho, para fazer barulho e para nunca, nunca deixar outra pessoa ditar o meu valor.
Endireitei a saia, alisei o cabelo e segui de volta na direção do campo de batalha.
O resto do dia na escola pareceu uma caminhada por um campo minado em que os explosivos eram feitos de sussurros e olhares de lado. Toda vez que eu virava um corredor, via um grupo de garotas ficar em silêncio, os olhos me acompanhando com uma mistura de admiração e puro veneno, sem filtro algum. Eu já não era só “a filha do advogado” ou “a garota cheia de curvas que não ligava”. Eu era a garota que cuspiu na cara dos deuses.
Passei as últimas aulas em torpor, as vozes dos professores se desfazendo num zumbido de ruído branco. Quando o último sinal tocou, eu não queria nada além de me encolher no meu quarto com um livro e fingir que os Saintly Devils não existiam.
Mas, enquanto eu caminhava em direção ao meu prédio do dormitório, percebi que o mundo já tinha mudado.
