Renascida como a querida amada do Top Alpha
Ponto de vista de Seraphina
A mão de Grace estava firme enquanto ela arrastava a faca de prata pelo meu rosto.
— Fique quieta, Sera, querida irmã. — A voz dela era suave, o mesmo tom persuasivo que usava quando trançava meu cabelo na infância. — Você vai fazer eu cortar torto.
— Não, não... — Balancei a cabeça, apavorada. — Aaah!
Ela apertou a faca e a puxou da minha testa até a mandíbula. Suco de acônito escorreu para dentro do ferimento, como se alguém estivesse despejando água fervente direto nas minhas veias.
Eu gritei, me debatendo para trás. A corrente de prata em volta do meu pescoço se retesou — pulsos, tornozelos, garganta, cada centímetro de contato queimando minha pele.
Sete dias já.
— Por quê... — engasguei, com a boca cheia de sangue. — Grace, que diabos eu te fiz?
Ela inclinou a cabeça, me estudando como se eu fosse um projeto de artesanato que não tivesse dado certo. Então ouvi passos atrás dela, e uma mão pousou em sua cintura.
Damien.
Ele saiu das sombras usando a jaqueta de beisebol que eu tinha dado a ele, os olhos verdes brilhando de divertimento — exatamente a mesma expressão que usava quando acenava para mim no corredor da escola.
Meu estômago revirou.
— Ela ainda está acordada? — ele disse para Grace. Não para mim. — Achei que ela já teria desmaiado a essa altura.
— Ela é mais resistente do que parece. — Grace colocou a faca de prata na bandeja e se virou para se aninhar nos braços de Damien, num movimento tão natural que deviam ter feito aquilo mil vezes.
Fiquei olhando para os dois. Meu cérebro estava lento, como se o acônito o tivesse apodrecido por completo.
— Damien... — Minha voz tremia. — Você disse que também gostava de mim... Disse que me tiraria daqui. Disse que Caelan Ashworth era um monstro, que me casar com ele ia me matar...
— Ah, isso. — Finalmente ele olhou para mim. Olhou de verdade. — Eu menti, querida.
Ele sorriu.
— Ashworth não é tão assustador assim. Os rumores de que ele era amaldiçoado foram obra de outra pessoa — não tinham muito a ver com ele, na verdade. Nós te enganamos para você fugir do casamento porque... como posso dizer isso? — Ele deu de ombros. — Você não o merece.
Grace continuou de onde ele parou, sua voz de repente estridente:
— Caelan Ashworth — o Alfa supremo do Oeste, o homem mais forte do mundo — por que a Companheira dele deveria ser você? O que você é, afinal? Só uma ninguém que acabou de despertar!
Ela girou, erguendo a faca de prata de novo. A ponta apontava para o meu estômago.
— Deve haver alguma coisa errada com o seu corpo. — Ela arfava, os olhos vermelhos. — Alguma coisa que o prendeu a você. Eu vou te abrir e descobrir.
— Grace... — Damien segurou a mão dela. Não para me proteger. Para acalmá-la.
— Calma. — Ele beijou a têmpora de Grace e então se virou para mim. — De qualquer jeito, não importa. Três dias atrás, seu precioso Alfa invadiu sozinho o território Cross para te salvar.
Minha respiração parou.
— Bala de prata. Atravessou o coração. — Damien bateu com o dedo no próprio lado esquerdo do peito. — Morreu na hora. Meu pai disse que ele ainda estava chamando seu nome pouco antes do fim.
Ele fez uma expressão de falsa compaixão.
— Comovente, na verdade. Vocês dois nem chegaram a se conhecer, chegaram?
O tempo pareceu parar.
Ouvi o gotejar de um cano. Ouvi Grace e Damien conversando, as vozes entrando e saindo como ecos. Ouvi meu próprio sangue escorrendo pelas correntes de prata.
Mas nada mais importava.
Meu companheiro predestinado. O homem que eu abandonei com minhas próprias mãos.
Ele morreu tentando me salvar.
E eu nem sabia de que cor eram os olhos dele.
Grace se aproximou, pressionando a lâmina de prata contra o meu peito, bem sobre o meu coração.
— Morra agora, irmãzinha. Eu sempre ganho!
Ember soltou um último uivo furioso do fundo mais profundo da minha mente.
Deusa da Lua—
Se você pode me ouvir, por favor, me dê mais uma chance.
Deixe-me voltar. Deixe-me matá-los. Deixe-me mudar tudo!
A faca de prata afundou.
A marca de nascença em forma de crescente atrás da minha orelha se acendeu, mais quente do que as queimaduras de prata, uma dor tão cegante que vi uma luz branca—
Capítulo 1
— Sera! Sera, acorda!
Alguém estava me sacudindo.
Meus olhos se abriram de repente. Meu corpo inteiro se contraiu, ofegante, tentando puxar ar. Meus dedos agarraram meu peito — nenhuma faca. Nenhum sangue. Nenhuma corrente de prata.
Pele intacta. Limpa e quente.
— Meu Deus, você me assustou! — Grace estava ajoelhada ao lado da minha cama, lágrimas escorrendo pelo rosto, as duas mãos apertando meus pulsos. — Você estava tendo um pesadelo, está encharcada de suor—
Meu quarto. Minha cama. A luz da manhã entrando pela janela.
— Escuta. — Grace sussurrou, os olhos brilhando. — As pessoas da família Ashworth já estão aqui. Papai acabou de concordar com o casamento. Mas eu vou abrir mão de Damien por você — deixar que ele te leve embora. Sera, sua irmã só quer que você seja feliz.
Ela estava chorando. Chorando de um jeito tão bonito, tão sincero.
O mesmo rosto que tinha encostado uma faca de prata no meu coração sete dias atrás — não, minutos atrás.
Arranquei minhas mãos das dela.
— Não encosta em mim!
Ela caiu para trás, me encarando com uma expressão magoada.
— Sera, o que houve? Espera! Aonde você vai? Damien está esperando por você!
Não olhei para trás. Saí correndo direto do quarto.
Esperando por mim? Esperando para me mandar para o inferno? Que pena — desta vez, seria eu a mandar eles para lá.
“Encontre-o!” a voz de Ember explodiu do fundo do meu peito. “Encontre o nosso Companheiro! Agora!”
Corri até o escritório do meu pai e parei com a mão na maçaneta.
Eu estava tremendo — de medo.
Na minha vida passada, confiança cega me custou tudo. O que me fazia pensar que escolhê-lo seria diferente desta vez?
E se me salvar fosse só instinto de Companheiro? E se—
O rosnado de Ember me cortou:
“Idiota! Ele morreu por nós uma vez! Ele tem o poder de nos ajudar! Está esperando o quê? Ficar aqui é melhor do que ir até ele?”
Cerrei a mandíbula e abri a porta.
Meu pai e um homem de terno se viraram para me olhar.
“Sera?” Meu pai franziu a testa. “Por que você está aqui embaixo desse jeito? Grace disse que você—”
“Eu aceito o casamento”, eu disse.
Os olhos do meu pai se arregalaram.
O homem de terno arqueou uma sobrancelha, o olhar passando por mim — camisola, pés descalços, cabelo emaranhado sobre os ombros. Mas não havia deboche em sua expressão. Apenas um leve aceno.
“Senhorita Seraphina Wren, olá. Sou Kieran, Beta da Alcateia Ashworth. Estou aqui para escoltá-la.” Ele fez uma pausa. “Se estiver pronta, podemos sair agora.”
“Ela não está pronta!” Grace irrompeu pela porta, com uma voz estridente o bastante para cortar vidro. “Pai, você não pode deixar ela ir! É uma sentença de morte!”
Meu pai olhou para mim, depois para Grace, com aquela expressão familiar, indecisa. Ele sempre foi assim — quem gritasse mais alto, vencia.
Virei-me para encarar Grace.
“Sentença de morte?” Sustentei seu olhar. “Como você saberia? Já conheceu ele? Já se casou com ele?”
Grace empalideceu. “Eu... ouvi as pessoas dizerem! Ele—”
“Você é eu?” interrompi. “Sabe o que vai acontecer comigo?”
A boca dela se abriu. Nenhum som saiu.
Dei um passo à frente e abaixei a voz para que só nós duas ouvíssemos.
“Ou você está com medo de que, quando eu me casar com ele, eu descubra que você esteve mentindo para mim? Com medo de que eu volte para me vingar?”
As pupilas de Grace se contraíram.
Recuei um passo e me virei para Kieran. “Me dê dez minutos para trocar de roupa.”
A mansão principal dos Ashworth ficava no centro da cidade. Quatro horas de carro.
Não disse uma palavra durante todo o trajeto. Minhas unhas cravavam nas palmas das minhas mãos enquanto eu repetia para mim mesma, sem parar, que aquilo era real.
“Ember”, chamei minha loba em silêncio. “Você também tem memórias de antes, não tem?”
Ela soou inquieta. “Claro. Ainda me lembro daquele bastardo loiro dizendo — as três mulheres suspeitas de serem as Companheiras dele antes de nós. Uma morta, uma insana, uma desaparecida.”
“Mas ele também disse que aquilo foi obra de outra pessoa”, eu disse. “Eu já estava quase morta naquela hora. Ele não tinha motivo para mentir.”
Ember soltou um longo suspiro. “...E isso deveria ser uma boa notícia?”
Justo.
Se alguém estava mesmo eliminando toda mulher que se aproximava de Caelan Ashworth—
Então eu era a número quatro.
O carro parou diante de um portão de ferro. A casa era enorme, como uma fortaleza.
Minhas pernas fraquejaram quando desci.
No hall de entrada, duas criadas Ômega esfregavam o chão. Quando passei, os sussurros delas perfuraram meus ouvidos.
“Outra? Quantas já foram?”
“A quarta. Essa garota mal parece maior de idade. Deve estar desesperada pelo dinheiro.”
Minhas mãos estavam tremendo.
Eu sabia que aquelas mortes não eram culpa dele. Na minha vida passada, a própria Grace tinha dito isso — os rumores eram obra de outra pessoa.
Mas minhas mãos ainda estavam tremendo.
“Pare de ser covarde.” Ember rosnou. “Ele é nosso. Anda!”
Beta Kieran me conduziu por um corredor e parou diante de uma porta de madeira escura. Deu duas batidas e então a abriu.
O escritório era grande e sombrio. As cortinas estavam apenas meio fechadas.
Então o cheiro dele me atingiu.
Pinho. Ferro gelado. O ar pesado e sufocante de instantes antes de uma tempestade.
Ember soltou um uivo emocionado dentro do meu peito.
Ele estava de pé junto à janela, de costas para mim.
Alto, ombros largos. Uma camisa preta marcava as linhas dos músculos das costas, afunilando até uma cintura estreita. Uma das mãos no bolso, a cabeça ligeiramente inclinada, como se estivesse escutando alguma coisa.
Ele nos ouviu e se virou.
A luz entrava por trás dele, dourando seus contornos. Eu não conseguia distinguir seu rosto — só os olhos. Azul-acinzentados, como um lago congelado.
De repente, eu quis chorar.
“Você sabe o que significa estar aqui?” A voz dele era baixa. Profunda.
Ergui o queixo contra o peso da presença dele e sustentei seu olhar.
“Significa que eu serei sua Luna.”
Significa que vou me vingar. Vou mudar tudo.
E as pessoas que nos destruíram — nenhuma delas vai escapar.
Silêncio.
Então ele falou, em um tom perfeitamente neutro, mas Ember ficou completamente imóvel dentro de mim—
“Então você deve saber — toda mulher que se aproximou de mim teve um fim ruim.”
