Capítulo 2 (O ponto de vista de Seraphina)
Capítulo 2
(Ponto de vista de Seraphina)
— Eu sei — eu disse.
Os olhos dele se estreitaram levemente.
— Você sabe e ainda assim veio?
— Porque eu não vou morrer.
Quando as palavras saíram da minha boca, eu não tinha certeza se estava dizendo aquilo para ele ou para mim mesma.
Ele não riu. Também não se comoveu.
— Quantos anos você tem?
— Dezoito.
— Dezoito. — Ele repetiu, como se estivesse mastigando o número. — Você sabe o que Luna significa? Não é um título bonito. É a linha de vida de toda a Alcateia. Na guerra, você fica na linha de frente. Nas decisões, você arca com as consequências. Sua alma de lobo acabou de despertar. Você acha que aguenta isso?
Cada palavra caía sobre mim como uma pedra.
— Eu não entendo o peso de ser Luna — eu disse, encarando-o nos olhos. — Mas eu entendo o peso de ser uma Companheira. Você concordou com este casamento porque sentiu... que eu sou a sua Companheira. Então por que me afastar agora que eu estou aqui?
Os dedos dele se contraíram.
Quase imperceptivelmente.
Então ele se virou e voltou para a janela.
— Margaret — ele chamou.
Passos soaram imediatamente do lado de fora da porta. Uma mulher que parecia ter uns cinquenta e poucos empurrou a porta, não olhou para mim e se curvou diante dele com respeito.
— Leve-a para a ala leste — ele disse.
Ela ergueu o rosto, atônita. — Alfa, a ala leste é o seu...
— Eu sei.
Levei três segundos para entender o que tinha acabado de acontecer.
A ala leste era onde ficava o quarto principal.
Ember soltou um bufarinho convencido dentro de mim.
Margaret me conduziu pelo corredor.
Na curva da escadaria, dois homens de uniforme preto estavam encostados na parede, conversando em voz baixa.
— ...Faltam cinco dias para a lua cheia.
— Da última vez, o Alfa quase destruiu o campo de treinamento. Desta vez...
Eles avistaram Margaret e se calaram na mesma hora, endireitando a postura.
Guardei aquelas duas frases em silêncio.
O quarto na ala leste ficava no fim do corredor. Margaret abriu a porta e se afastou para me deixar entrar.
O quarto era enorme. Três vezes maior que o meu quarto na casa dos Wren. Móveis de madeira escura, lençóis cinza-frios, cortinas azul-escuro de tecido translúcido que caíam compridas e balançavam suavemente com a brisa da noite.
— Este é o seu quarto, senhorita Wren — disse ela. — Os itens de higiene ficam no banheiro. As roupas serão entregues amanhã. Se precisar de alguma coisa, aperte o botão de chamada ao lado da cama.
— Obrigada. — Eu assenti.
— Por favor, não ande pela casa depois das nove da noite. — O tom dela era como se estivesse lendo um manual de regras. — O Alfa não gosta de ser incomodado.
— Eu não vou incomodá-lo.
Ela me olhou, algo cintilando em seus olhos — nojo, talvez, ou satisfação com a desgraça alheia.
— Espero que você dure mais do que as outras, senhorita Wren. Afinal, nenhuma das anteriores passou de um mês.
A porta se fechou.
Ember xingou baixinho.
Eu não. Só senti, de repente, um cansaço até os ossos.
Do porão da minha vida passada a este quarto grandioso — separados por uma morte e um renascimento —, mas a sensação de ser tratada como presa por todos ao meu redor era exatamente a mesma.
Não consegui dormir naquela noite.
Toda vez que eu fechava os olhos, via a faca prateada. Via o sorriso gentil de Grace. Via a mão de Damien na cintura dela.
As chamas da vingança queimavam dentro de mim, tornando difícil respirar.
...Não, espera. Esse sufocamento não era emocional.
— Ember?
— Não consigo respirar... — A voz dela estava rouca, como se alguém a estivesse enforcando. — A janela... tem alguma coisa...
Eu me sentei na mesma hora.
Tinha algo errado.
Eu tinha acabado de despertar. Minha alma de lobo deveria estar no auge da atividade agora.
O quarto estava escuro. Deveria haver luz da lua — esta noite estava perto da lua cheia —, mas nem um único raio entrava.
Saí da cama e fui até a janela, puxando a cortina.
Por dentro da cortina, pressionada rente ao vidro, havia uma camada de malha fina. À primeira vista, parecia decorativa, mas no instante em que me inclinei para perto, minha pele começou a arder.
Droga. Fio de prata.
A janela inteira estava coberta por uma tela tecida com arame de prata.
A luz da lua estava completamente bloqueada.
Ember soltou um rosnado de dor. — Aquela velha...
— Eu sei.
Uma malha de prata não incomodaria a maioria dos lobos. Eles só achariam que o quarto estava meio escuro.
Mas uma jovem loba recém-desperta, isolada da luz da lua por uma malha de prata... a alma de lobo dela sufocaria, enfraqueceria, talvez até adormecesse.
Aquelas mulheres antes de mim — a que enlouqueceu, a que morreu — será que passaram por isso na primeira noite nesta casa também?
Minhas mãos tremiam.
Reclamar na primeira noite? Correr até a porta do Alfa e dizer “a sua governanta está me intimidando”? Aos olhos de todo mundo, eu seria só uma garotinha chorona que não duraria um mês.
Eu tinha que resolver isso sozinha.
— Aguenta firme — eu disse a Ember.
Ela rosnou, mas não discutiu.
Peguei uma toalha no banheiro, enrolei na mão direita e comecei a forçar a borda da malha.
Não adiantava — o calor da prata atravessou a toalha e queimou a palma da minha mão, uma dor disparando até o cotovelo.
Cerrei os dentes e puxei com mais força.
A tela estava colada firme. As bordas estavam presas ao batente da janela com algum tipo de adesivo especial; ao rasgar, fez um som baixo de tecido se rompendo.
Meus dedos começaram a empolar. As bolhas estouraram, e o sangue encharcou a toalha.
Os gemidos de Ember viraram um grito constante, engasgado.
BANG!
O barulho quase me fez cair do parapeito da janela.
Uma mão grande, de nós dos dedos salientes, se fechou na minha cintura.
Ergui o olhar, apavorada — e vi os lábios de Caelan pressionados com força. O cabelo dele estava revolto pelo vento. Ele trazia o frio do ar da noite e um leve rastro de sangue — como se tivesse acabado de voltar correndo de algum lugar.
Ele tinha voltado por mim?
Ele me firmou e encarou minhas mãos. As pupilas dele se contraíram de repente — elas ainda estavam sangrando, as bordas das queimaduras de prata já começando a escurecer.
— O que você está fazendo?
A voz dele saiu baixa, como se estivesse segurando alguma coisa.
— Tela de prata — eu disse, com a garganta áspera. — Estava bloqueando a luz da lua. Minha loba estava prestes a não aguentar.
— Por que você não chamou alguém?
— Reclamar na primeira noite... — tentei sorrir, mas não consegui. — Faz eu parecer cheia de exigências.
Ele não perguntou de novo. Só estendeu a mão, agarrou a tela de prata com a mão nua e a arrancou.
A prata chiou no instante em que tocou a pele dele, mas só por um segundo. Duas linhas vermelhas arderam na palma, depois desapareceram diante dos meus olhos.
Ele jogou a peça inteira no chão como se fosse um trapo.
A luz da lua inundou o quarto.
Ember soltou um suspiro longo e trêmulo.
A pressão no meu peito se dissolveu. Ergui o olhar para ele, grata.
— Obrigada. Eu estou bem agora. Você devia... descansar um pouco.
Ele não respondeu. Em vez disso, foi até a porta e apertou o interfone no corredor.
— Margaret. Traga todos os empregados para o quarto de hóspedes. Agora.
Eu congelei.
Em menos de cinco minutos, passos ordenados se aproximaram.
Margaret vinha à frente, dezenas de criadas atrás dela. Duas e meia da manhã — todas tinham sido arrancadas das camas, mas nenhuma parecia sonolenta. Todos os rostos estavam assustados.
— Expliquem — ele disse.
Não foi alto, mas parecia que a temperatura do quarto tinha caído cinco graus.
Margaret baixou a cabeça. — Alfa, aquela era uma tela reserva de antes. Devem ter misturado as coisas no depósito...
— Uma tela reserva que foi colada na janela? — ele a interrompeu. — Colada tão forte que precisou ser arrancada?
Os lábios de Margaret se comprimiram numa linha fina.
— Escute com atenção. — A voz dele ecoou pelo quarto silencioso. — Seraphina Wren é minha convidada. Se qualquer coisa aparecer no quarto dela que não deveria estar ali — prata, acônito ou qualquer outra coisa —, vou responsabilizar todos os presentes.
Sua dominância se espalhou como uma onda.
Não voltada para mim. Para eles.
As criadas ômegas caíram de joelhos. O rosto de Margaret empalideceu, os dedos agarrando a saia.
— Agora — ele disse. — Traga-me o kit médico.
O kit chegou rapidamente. Ele dispensou todos com um gesto, fechou a porta e então trouxe a caixa até mim.
— A mão.
Eu a estendi.
Ele se ajoelhou sobre um joelho no carpete, abriu o kit e tirou algodão com antisséptico e gaze. Seus movimentos eram experientes, como se já tivesse feito aquilo incontáveis vezes.
O algodão tocou o ferimento, e eu assobiei de dor.
— Aguente — ele disse, sem erguer os olhos.
Ele enrolou a bandagem com cuidado, a testa levemente franzida, como se estivesse executando alguma tarefa importante.
A luz da lua caiu sobre o topo de sua cabeça curvada. Cabelo preto. Parecia macio.
De repente, tive vontade de tocá-lo.
Ember gemeu fracamente. — Poupe suas energias, por favor...
Quando terminou, ele segurou meu pulso e virou minha mão para conferir.
— Vai sarar até de manhã — ele disse. — Não molhe.
— Tá bom.
Ele se levantou, fechou o kit e foi até a porta.
Com a mão na maçaneta, fez uma pausa.
— Se algo assim acontecer de novo... — Ele não se virou. — Venha direto até mim.
A porta se fechou suavemente.
Fiquei sentada à luz da lua, encarando minha mão enfaixada, por muito tempo.
Então me deitei de novo e, dessa vez, finalmente adormeci.
Na manhã seguinte, acordei com barulho vindo de baixo.
Vozes, passos e o anúncio deliberadamente elevado de Margaret, carregado daquela aspereza cortante:
— Senhorita Wren, você tem uma visita. Uma senhorita Grace Wren afirma ser sua irmã e insiste em vê-la.
Sentei na cama de um salto.
O que ela estava fazendo aqui?
Na minha vida passada, ela e Damien me destruíram juntos. Desta vez, eu não tinha seguido o roteiro nem fugido do casamento — o plano dela tinha dado errado. Então ela tinha vindo pessoalmente?
Mas como ela tinha conseguido autorização para entrar no território dos Ashworth?
Caelan estava trabalhando com ela?
— Idiota! — Ember retrucou. — Ele morreu nos salvando na nossa vida passada. Como poderia estar trabalhando com ela?
Do lado de fora da porta, Margaret continuava insistindo.
Gritei de volta:
— Só um momento! Já estou descendo!
Fosse qual fosse o plano dela, ela não ia me machucar de novo.
