Capítulo 7 (O ponto de vista de Seraphina)

Capítulo 7

(Ponto de vista de Seraphina)

Damien não dava o menor sinal de que pretendia ir embora.

Ele tornou a se acomodar no sofá, com o braço apoiado no encosto, largado como se estivesse na própria sala de estar.

— Na verdade, o principal motivo de eu estar aqui é discutir negócios com o Alfa Ashworth. — Ele se virou para Caelan, com um sorriso impecável. — A proposta do meu pai: uma aliança tripla entre Cross, Wren e Ashworth. Comércio compartilhado, recursos reunidos, defesa conjunta das fronteiras. Isso beneficia os três lados.

Minha cabeça começou a zunir.

Uma aliança tripla?

Como não conseguiam chegar até ele por meu intermédio, aqueles dois tinham mudado de tática?

Os Cross nunca quiseram comércio compartilhado. O que Victor Cross queria era poder — infiltração, uma forma de alcançar o interior do território Ashworth.

E, com Grace se casando com Damien, Wren se tornaria um fantoche dos Cross. O verdadeiro objetivo dessa “aliança tripla” era os Cross usarem os Wren como fachada para se aproximarem dos Ashworth.

— Não — eu disse.

Damien se virou para mim, com uma sobrancelha erguida.

— Hm?

— Essa aliança não pode acontecer.

— Sera — o tom dele era impossivelmente gentil, como se estivesse persuadindo uma criança que não sabia de nada —, isto é estratégia política entre Matilhas. Não cabe a uma única pessoa decidir...

— Wren é minha família.

— Mas você não faz mais parte dos Wren, faz? — Ele inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando de diversão. — Você está aqui. Seu pai concordou com esse casamento. Sua madrasta também. Você está se opondo porque... exatamente por quê?

Ele fez uma pausa de propósito, deixando o olhar deslizar do meu rosto para Caelan e de volta para mim.

— Não me diga que é porque... você não suporta me deixar ir?

Meu estômago se revirou violentamente de nojo.

— Do que você está falando?

— Ah, não fique com vergonha. — Ele riu, abrindo as mãos, com uma voz inocente. — Eu sei que você tem uma queda por mim desde que éramos crianças. Isso não é segredo. Você é contra o meu casamento com Grace, contra a aliança... no fim das contas, é porque ainda sente alguma coisa por mim. Não é?

Repugnante.

Tão repugnante que minhas unhas estavam prestes a perfurar minhas palmas.

— Não se ache tanto. — Minha voz estava tremendo. — Eu sou contra porque essa aliança não oferece nada — nem para Wren, nem para Ashworth...

— Ah, qual é, não seja assim. — Ele suspirou, usando aquela expressão de paciência tolerante reservada a crianças difíceis. — Você ainda é jovem. Não entende essas coisas. Vai entender quando for mais velha.

— Eu não sou criança!

— Viu? Lá vem você de novo. — Ele se virou para Caelan com um dar de ombros, com a dose exata de impotência na voz. — Você realmente devia colocar ela na linha, Alfa Ashworth. Ela dá bastante trabalho, não dá?

Minha sanidade estava se esgarçando nas bordas.

Ember se chocava contra as paredes do meu peito, a fúria dela se misturando à minha, queimando tão quente que minhas têmporas latejavam.

Abri a boca para acabar com ele—

— A personalidade dela não é da sua conta.

A voz não foi alta.

Mas o ambiente inteiro despencou.

Como se alguém tivesse baixado a temperatura em dez graus.

O sorriso de Damien congelou no rosto.

Caelan nem tinha levantado os olhos. Continuava lendo os documentos. Virou uma página.

— O casamento entre Cross e Wren diz respeito às suas duas famílias. Ashworth não tem interesse numa aliança tripla. — O tom dele era o de quem lia um relatório tedioso. — Você pode ir.

Damien ficou em silêncio por dois segundos.

Então se levantou, ajeitou o paletó e colocou de volta aquele sorriso ensolarado.

— Que pena — ele disse. — Conversaremos em outra ocasião.

Ele caminhou até a porta e, ao passar por mim, seus passos desaceleraram por meio compasso.

O olhar dele me percorreu.

O sorriso havia desaparecido.

O calor daqueles olhos verdes tinha se apagado, deixando apenas frieza — o tipo de frieza que se dedica a uma peça de xadrez que perdeu a utilidade.

Aquela era a verdadeira face dele.

A porta se fechou.

Fiquei ali parada, com as mãos ainda tremendo.

— A aliança dele não pode ir adiante. — Virei-me para Caelan. — Você precisa impedir o casamento entre Cross e Wren.

Ele pousou os documentos e recostou-se, me estudando.

— Me dê um motivo.

Abri a boca.

Porque eles vão matar você. Porque, na minha vida passada, eles trabalharam juntos para me destruir, e você levou uma bala de prata no coração tentando me salvar.

Porque Grace vai sorrir enquanto enfia uma faca no seu peito, e Damien vai ficar ao lado dela aplaudindo.

Eu não podia dizer isso.

— A família Cross é ambiciosa demais. — Tentei encontrar um argumento razoável. — Victor Cross não vai se contentar com cooperação comercial. O que ele quer é...

— Eu já sei de tudo isso. — Ele me interrompeu. — O que estou perguntando é: por que você está tão abalada?

Meus lábios se moveram. Nenhum som saiu.

Ele me observava, os olhos azul-acinzentados tranquilos.

“Você ainda sente alguma coisa por ele, de verdade?”

Eu congelei.

O quê?

O que foi que ele acabou de dizer?

Meu cérebro ficou em branco por uns bons três segundos, e então a raiva subiu como lava—escaldante, abrasadora, queimando do meu estômago até os olhos.

Eu odiava Damien Cross.

E Grace—eu queria que os dois caíssem mortos agora mesmo.

Eu queria arrancar com as próprias mãos aquela máscara de sorriso permanente do rosto de Grace. Queria ver Damien de joelhos, implorando. Queria que eles soubessem como era ser traído, trancafiado, torturado.

Mas eu não podia dizer nada disso.

Porque, no instante em que dissesse, teria que explicar como eu sabia.

Explicar a vida passada. Explicar o renascimento. Explicar coisas que ainda nem tinham acontecido.

Ele acreditaria em mim?

Quem acreditaria?

Apertei os lábios com força, parada ali, as unhas cravando nas palmas das mãos.

Não posso dizer.

Não posso dizer não posso dizer não posso dizer.

Minha visão ficou turva.

Eu nem percebi que estava chorando até uma mão se estender e um polegar roçar o canto do meu olho.

“Você está chorando”, ele disse.

A voz dele era suave, como se estivesse apenas constatando um fato que o deixava inquieto.

“Não é da sua conta!”, murmurei, enxugando as lágrimas às pressas.

Ele suspirou. Não disse “não chore”.

Ele me puxou para perto.

Uma das mãos segurou minha cintura, me ergueu com cuidado—e no instante seguinte eu estava no colo dele.

Fiquei rígida.

Ele me acomodou sobre a coxa, com um braço envolvendo minha cintura e me mantendo no lugar. A outra mão ainda pairava junto ao meu rosto, o polegar molhado com as minhas lágrimas.

Como se estivesse acalmando uma criança.

Pinho e ferro frio me envolveram por completo.

A coxa dele era firme—eu conseguia sentir o contorno do músculo até mesmo através da calça social. Eu não sabia onde pôr as mãos e acabei agarrando a frente da camisa dele.

Ember ficou completamente quieta.

Como uma filhote que tivesse encontrado sua toca, ela se enroscou, enterrou o focinho na cauda e soltou um ronronar baixinho, satisfeito.

Eu queria fazer o mesmo. Enterrar o rosto no peito dele, não pensar em nada, não dizer nada.

As lágrimas continuaram caindo, uma por uma, pingando na camisa dele e se abrindo em manchas escuras.

Ele não me pressionou a falar, não insistiu por explicações. Apenas ficou ali, com a pressão do braço exatamente certa—não apertado, mas eu sabia que não conseguiria me soltar.

Fiquei olhando para a linha do maxilar dele.

Tão perto. Desse ângulo, eu conseguia ver um pequeno corte no queixo por causa da barba, já cicatrizado, só uma linha branca e tênue.

As batidas do coração dele eram constantes. Eu as sentia através da camisa, uma após a outra, como algum metrônomo antigo.

Fiquei encarando aquela pequena cicatriz e, de repente, uma pergunta veio à tona.

O que eu realmente sentia por ele?

Na minha vida passada, eu não o conhecia. Nunca tinha visto o rosto dele—só sabia que era “aquele Alfa assustador que deveria se casar comigo”.

Então ele morreu me salvando.

Depois de renascer, eu fui até ele por vingança. Porque ele era o único que podia me ajudar a lutar contra Cross e Grace.

Por causa do poder dele, da posição dele, da Alcateia dele.

Mas agora—

O jeito como ele não sabia o que fazer com as mãos quando pedia desculpas.

O jeito como me observava treinar em segredo pela janela do segundo andar.

O jeito como ele arrebentou correntes de ferro na noite de lua cheia, mas se atirou contra uma parede no último segundo.

O jeito como ele velou meu sono a noite inteira e foi embora antes do amanhecer.

Meu coração estava acelerando.

Isso era amor?

Eu não tinha certeza.

Da última vez que achei que tinha me apaixonado por alguém, essa pessoa só me trouxe dor.

Valia a pena amar de novo?

Será que ele acabaria sendo igualzinho ao Damien—

“Ele é diferente.” A voz de Ember era suave, segura. “Não é a mesma coisa.”

Eu sabia.

Mas ainda estava com medo.

Os dedos dele deslizaram pelos meus cachos e fizeram um carinho de leve. Delicado, como se afagasse um gato que pudesse fugir a qualquer segundo.

Eu não conseguia mais chorar.

Ele abaixou a cabeça, verificou se eu tinha parado, e pressionou os lábios contra a minha testa.

Secos, quentes, demorando dois segundos.

“Leve o tempo que precisar com o motivo.” A voz dele veio de cima, baixa, vibrando através de mim. “Preciso resolver uma coisa na fronteira esta tarde. Volto esta noite.”

Ele fez uma pausa.

“Espere por mim em casa.”

Em casa.

Não “aqui”. Não “na casa”.

“Em casa.”

Ele me soltou, se levantou, pegou os documentos da mesa e saiu.

Fiquei sentada na cadeira dele, com o encosto ainda guardando o calor dele e o cheiro de pinho.

Ember sussurrou dentro de mim: “Ele disse ‘casa’.”

“Eu ouvi.”

“Ele disse para esperar por ele.”

“Eu ouvi.”

“Você está corando.”

“Cala a boca!!”

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