Capítulo 8 (O ponto de vista de Seraphina)
Capítulo 8
(Ponto de vista de Seraphina)
Depois que ele foi embora, a casa inteira ficou silenciosa como uma concha vazia.
Tentei ler. Passei por três páginas sem absorver uma única palavra. Tentei treinar — sentei no jardim por dez minutos, mas a luz dourada se dispersou antes mesmo de chegar às pontas dos meus dedos.
No fim, me encolhi no parapeito da janela, os braços em volta dos joelhos, observando o céu mudar do laranja quente para o azul profundo.
Ele disse que voltaria esta noite.
Era só a fronteira. Não uma guerra.
Ele era o Alfa mais forte do oeste, com Betas, guerreiros e toda a força militar de Ashworth ao lado dele.
Ele ficaria bem.
Apertei a testa contra os joelhos e repeti isso para mim mesma, de novo e de novo.
Às sete da noite, o telefone tocou.
O som subiu do primeiro andar. Margaret atendeu. Eu estava sentada no parapeito da janela do segundo andar e ouvi a voz dela —
Normal no começo, depois uma pausa curta.
Quando falou de novo, a voz tinha ficado aguda.
"...O Alfa está ferido?"
Meu sangue gelou.
Três segundos depois, eu estava no alto da escada.
Margaret desligou e se virou ao me ver. A expressão dela era complicada — pânico, hesitação e algo que eu não consegui decifrar.
"O que aconteceu?", perguntei.
"Ataque de renegados na fronteira." As palavras saíram mais rápidas do que o normal. "Eles tinham armas de prata e munição com acônito. Alguém os armou. O Alfa liderou a luta pessoalmente. A batalha acabou, todos os inimigos foram eliminados—"
"Como ele está?"
"Envenenado."
Os lábios dela se comprimiram.
"Algum tipo de toxina misturada entrou na corrente sanguínea e desencadeou um estado selvagem. O corpo dele está tentando se curar, mas a toxina continua rasgando o tecido que se regenera... Eles tiveram que atingi-lo com vários dardos tranquilizantes só para trazê-lo de volta."
Meus joelhos cederam por um segundo. Agarrei o corrimão para não cair.
Ember soltou um uivo estridente dentro do meu peito.
"Onde ele está?", perguntei, tremendo.
"No centro médico. Kieran está—"
Não esperei o resto. Eu já estava correndo.
O centro médico ficava a leste da casa principal.
Quando cheguei lá, o céu já estava completamente escuro. As luzes do corredor eram de um branco agressivo, fazendo cada rosto parecer de papel.
Havia gente amontoada do lado de fora do quarto médico.
Guerreiros, empregadas, os assistentes do Médico da Alcateia — todos com o rosto cinzento. Ninguém falava. Só respirações irregulares e algum sussurro ocasional.
De longe, eu conseguia ouvir o rugido lá dentro.
Um rugido constante, enlouquecido, misturado ao estrondo de metal sendo destruído.
Ele estava acordado. E estava destruindo tudo lá dentro.
A porta do quarto médico foi escancarada de dentro, e Calloway tropeçou para fora.
O jaleco branco dele estava encharcado de sangue.
As mãos tremiam enquanto ele tirava as luvas. A borracha virou do avesso, escorregadia — impossível dizer se era suor ou sangue.
"A toxina está profunda demais." A voz dele estava áspera quando falou com Kieran. "Não dá para expulsar. O lobo dele está fora de controle. Qualquer um que chegar perto vai ser atacado."
"Quanto tempo?", perguntou Kieran.
Calloway fechou os olhos por um instante.
"No ritmo atual, o corpo dele vai continuar se despedaçando entre a cura e a toxina. Em cerca de seis horas — ele sangra até morrer."
Alguém no corredor arfou.
Seis horas.
Eu fiquei no fundo da multidão, o sangue subindo à cabeça. Meus ouvidos zumbiam, e as bordas da minha visão começaram a escurecer.
A voz de Damien rastejou do fundo da minha memória, nítida como se ele estivesse bem ao meu lado —
O dedo batendo no lado esquerdo do peito.
"Bala de prata. No coração. Morre na hora."
Não.
Isso era diferente.
Ele ainda estava vivo. Ainda havia seis horas.
Eu avancei.
A multidão se abriu sozinha — minha expressão devia estar apavorante, porque eles realmente pareceram com medo de mim.
Kieran bloqueou a porta do quarto médico.
"Você não pode entrar", ele disse, a voz tensa. "Ele não consegue reconhecer ninguém agora. Chegue perto e ele vai atacar—"
"Saia."
"Srta. Wren—"
Eu levantei a mão.
Luz dourada jorrou da minha palma, mais brilhante do que no treino, mais brilhante do que a noite de lua cheia. Eu nem tinha tentado invocá-la — ela veio sozinha, como se tivesse sentido alguma coisa.
Kieran olhou para minha mão. As pupilas dele se contraíram.
Ele deu um passo para o lado.
Eu empurrei a porta e entrei.
A enfermaria parecia ter sido atingida por uma bomba.
Suportes de equipamento estavam tombados, frascos de remédio estilhaçados pelo chão, e o cheiro de antisséptico misturado com sangue fazia meus olhos arderem.
Marcas de garras rasgavam as paredes — profundas, com o reboco arrancado, expondo as barras de aço por baixo.
Ele estava no canto.
Meio ajoelhado, com uma mão apoiada no chão e a outra agarrando o próprio peito.
A transformação parcial estava pior do que na noite de lua cheia — orelhas de lobo totalmente eriçadas, pelos prateados se espalhando da base das orelhas pelo pescoço, caninos à mostra, unhas transformadas em garras negras cravadas fundo no chão rachado.
O peito dele—
Puxei o ar com força.
O ferimento ficava logo abaixo da clavícula, do tamanho de um punho, a carne dilacerada.
Eu conseguia vê-lo cicatrizando em tempo real — tecido novo, rosado e trêmulo, se fechando — então veias negras rastejavam pelas bordas como cobras, se enterrando no tecido recém-formado e o rasgando de novo.
Fecha, rasga. Fecha, rasga.
Sangue brotava do talho, escorrendo pelo abdômen dele, se acumulando no chão.
Ele ouviu a porta e ergueu a cabeça de repente.
Olhos azul-gelo — sem qualquer traço de razão. Só a fúria e a agonia de um lobo.
Ele me viu.
O rugido explodiu.
Sua dominância me atingiu como uma onda física — o sangue jorrou do meu nariz, descendo pelo filtro labial até meus lábios, com gosto de ferro inundando minha boca.
Ember uivou no fundo da minha mente, erguendo uma barreira, lutando para conter a pressão.
Dei um passo à frente.
O rugido dele virou um rosnado.
Outro passo.
O rosnado se tornou um aviso — rosnados curtos e repetidos, como se dissesse não chegue mais perto.
Mais um passo.
Meu sangue pingou no chão, se misturando ao dele.
A voz dele mudou.
O aviso desapareceu. Em seu lugar — um gemido. Baixo, trêmulo, arrancado da parte mais profunda do peito dele.
Como um lobo ferido implorando à sua Companheira.
Não chegue mais perto. Eu vou machucar você.
Eu me ajoelhei.
Meus joelhos afundaram na poça de sangue, o líquido quente encharcando minha calça.
Estendi as duas mãos e as pressionei sobre o ferimento revolto em seu peito.
Uma luz dourada explodiu.
Não contive nada. Uma luz ardente, avassaladora, irrompeu das minhas palmas e inundou a sala inteira.
A luz penetrou em seu ferimento.
Eu senti a toxina — negra, gelada, se contorcendo como uma coisa viva, enrolada em volta dos vasos sanguíneos e das fibras musculares, lutando contra minha energia com tudo o que tinha.
Cerrei os dentes e empurrei mais luz para dentro.
A toxina foi sendo expulsa aos poucos. Um líquido negro escorria pelas bordas do ferimento, descendo pelos meus dedos. Onde tocava minha pele, queimava como ácido.
Desta vez, senti o frio com clareza.
Primeiro as pontas dos meus dedos ficaram dormentes, depois meus braços. O gelo rastejou pelas minhas veias em direção ao meu coração, como se alguém estivesse injetando água congelada na minha corrente sanguínea.
Minha visão começou a ficar turva.
A voz de Ember foi ficando cada vez mais distante: "...demais... puxa de volta..."
Eu não conseguia parar.
A toxina ainda não tinha sumido. Um último aglomerado se agarrava aos vasos sanguíneos perto do coração dele, fundo e firme.
Eu já não conseguia sentir meu corpo. Tudo o que eu conseguia sentir era a luz — fluindo para fora da minha vida, derramando-se na dele.
"Sera—"
A voz dele.
Não era um uivo. Era uma voz humana. Rouca, quebrada, arrancada da garganta com tudo o que ele ainda tinha.
"Chega... para...!"
A mão dele agarrou meu pulso, tentando arrancar minha mão de seu peito. Mas horas sendo dilacerado o tinham esgotado. Seus dedos tremiam.
Balancei a cabeça.
"Você morreu uma vez para me salvar."
Minha voz tremia. Cada palavra precisava ser espremida para fora de uma garganta que estava congelando e se fechando.
"Se eu morrer uma vez para salvar você — e daí?"
No instante em que o último aglomerado de toxina foi expulso, senti a agitação no peito dele cessar. O ferimento começou a se fechar — silenciosamente, de forma constante.
A luz dourada se apagou.
O mundo se inclinou.
A última coisa que vi antes de cair—
Os olhos dele.
O azul-gelo desaparecendo, voltando ao azul-acinzentado.
Sua expressão era algo que eu nunca tinha visto — sem a autoridade de um Alfa, sem a compostura de um guerreiro. Apenas um homem vendo a pessoa mais importante do seu mundo desaparecer diante dos seus olhos. Terror puro, sem disfarces.
Ele estava chamando meu nome.
Os lábios se movendo, a garganta vibrando, mas o som já não conseguia mais chegar aos meus ouvidos.
Tão frio.
Eu também não conseguia mais ouvir Ember.
Eu não conseguia ouvir mais nada.
