Capítulo 1 Renascido

"Catherine! Essa música nova que você escreveu — você tem que dar pra Harper cantar!"

Catherine Stone tinha acabado de acordar quando ouviu aquela voz familiar. Então, as lembranças da sua vida passada se encaixaram no lugar. Ela tinha renascido.

Ela olhou para a porta. E, como esperado, seu segundo irmão, Jordan Taylor, irrompeu no quarto um instante depois.

Ele veio para cima dela com uma impaciência recriminadora. — Desde quando você ficou tão desobediente?

Catherine quase riu. — Eu escrevi a música. Por que eu deveria dar pra Harper?

Jordan não esperava que ela retrucasse. Catherine sempre tinha sido obediente, sempre concordava com o que ele pedia.

Ele suspirou, suavizando o tom. — A carreira da Harper está decolando. Essa música pode fazer ela ganhar o Prêmio Aureate. Isso significa muito pra ela.

— Significa muito pra mim também. — Catherine saiu da cama devagar. — Por que as coisas boas sempre têm que ir pra ela? Eu sou sua irmã de verdade, não sou?

Jordan franziu a testa. — Vocês duas são minhas irmãs. Não começa com esse papo de “de verdade ou não”.

Catherine sabia que ele só dizia isso porque favorecia a Harper. Ele odiava quando alguém chamava a Harper de filha adotiva.

Quando Catherine tinha quatro anos, Jordan a tinha trocado com traficantes de pessoas por um saco de doces. Ela só foi encontrada e trazida de volta dois anos atrás. Durante os anos em que esteve desaparecida, seus pais adotaram Harper e a amaram como se fosse deles. Mesmo depois de Catherine voltar, eles diziam que a tratariam bem, mas tudo de que ela gostava tinha que ir primeiro para Harper.

Catherine tinha talento musical de verdade. Antes de voltar para os Taylor, ela já tinha feito seu nome na indústria. Mas, desde que retornou, cada música que escrevia era tomada por Harper.

Ela ansiava por afeto familiar. Tinha medo de não ser querida. Então engoliu todas as suas mágoas. Na sua vida passada, ela e Harper sofreram um acidente de carro juntas. Todos correram para salvar Harper primeiro. Ninguém deu atenção a Catherine, mesmo ela estando mais gravemente ferida. Quando finalmente se importaram, a janela de tratamento já tinha se fechado. Ela morreu.

Não nesta vida.

Ela enfiou, em silêncio, o gravador de voz da gaveta no bolso. Ela vinha usando aquilo para registrar uma demo da sua música nova. Ainda estava ligado.

— Eu não vou dar a música nova pra Harper. — Catherine pegou a mochila e começou a arrumar as coisas. — Se ela quer ganhar prêmio, que escreva as próprias músicas. Roubar o trabalho dos outros fazendo cara de coitada e adoçando os irmãos com conversa mansa… isso é pedir pra dar azar.

— Você… — O rosto de Jordan escureceu. — Se a Harper soubesse escrever músicas, a gente precisaria de você?

— Exatamente. — Catherine fechou o zíper da mochila e a jogou no ombro. Deu a Jordan um sorriso debochado. — Já que eu sei escrever músicas tão bem, eu preciso mesmo de vocês? Jordan, a partir de agora, você está demitido de ser meu empresário.

Desde que Catherine voltara para a família Taylor, ela tinha encerrado o contrato com a agência anterior, e Jordan tinha virado empresário tanto dela quanto de Harper. Por serem família, não havia contrato assinado. O aviso verbal dela era suficiente.

— Você enlouqueceu? — Jordan estava furioso e chocado. Era a primeira vez que Catherine o desafiava.

Catherine nem se deu ao trabalho de discutir mais. Saiu do quarto e o ignorou, não importava o quanto ele chamasse por ela.

A mochila estava leve, mal cheia. Mas era tudo o que ela possuía em dois anos com os Taylor. Patético, quando ela parava para pensar.

Ela se lembrou do que aconteceu depois de sua morte miserável. Ansiara por amor e nunca o recebeu. Morreu com um ressentimento feroz e uma recusa teimosa em aceitar o fim, seu fantasma vagando por outro mundo. Sem corpo, sem fome. Só escuridão e amargura todos os dias. Então uma voz perguntou: se lhe fosse dada uma chance de vingança, ela conseguiria largar o ódio e recomeçar?

Catherine concordou sem hesitar.

E assim foi enviada de volta a um ano antes do acidente de carro — a este exato momento.

Mas ela só tinha um ano para se vingar. Também precisava encontrar um jeito de prolongar a própria vida. Se o tempo acabasse e ela não tivesse conquistado mais tempo, voltaria para aquele outro mundo, consumida pelo ressentimento, sem nunca mais poder viver.

Catherine lançou um olhar para os números em seu braço que só ela conseguia ver: uma contagem regressiva de 365 dias.

Ela não tinha tempo a perder com aquelas pessoas.

Desceu e encontrou os pais e os irmãos sentados na sala de jantar. Conferiu o horário. Era exatamente a hora do almoço, mas ninguém tinha ido chamá-la.

No passado, para conquistar o favor da família, Catherine tinha decorado o gosto de cada um e cozinhava para eles sempre que tinha tempo. Ninguém jamais tinha valorizado.

— Caiu na real? — Marsha Scott fez um gesto para um empregado trazer outro bife e então olhou para Catherine com reprovação. — Se você tivesse dado a música nova para a Harper antes, nada disso seria um problema. Mas não, você tinha que fazer cena e deixar todo mundo chateado.

Catherine desceu os degraus com calma.

— Eu não concordei.

— Pá! — Marsha bateu a faca e o garfo na mesa. — Você nunca vai parar? Precisa saber a hora de se dar por satisfeita.

— Vocês é que não param — Catherine não recuou. — Estão me forçando a abrir mão da minha música. E quando eu me recuso, me culpam por tudo. Vocês é que não sabem a hora de desistir.

A atitude dela chocou a família inteira. Desde quando ela tinha ficado tão temperamental?

A expressão de Marsha azedou.

— A Harper era a filha mais velha da família Taylor. Você voltou e tomou o lugar dela. Não é justo compensá-la um pouco?

— Boa tentativa de distorcer os fatos. — Catherine riu. — Eu sempre fui a filha de verdade. Ela é que tomou o meu lugar. E agora você está dizendo que eu roubei o dela?

O irmão mais velho, Wyatt Taylor, deu um passo à frente com um olhar frio.

— No fim das contas, você só está mirando a Harper porque guarda rancor dela por ter tomado a sua posição.

— Patético. — O riso de Catherine ficou amargo. — Já que vocês a amam tanto, ótimo. A partir de agora, ela pode ser a única irmã de vocês.

Marsha franziu a testa.

— O que você quer dizer com isso?

— Eu terminei com a família Taylor. Finjam que nunca me encontraram. Esses últimos dois anos… vou considerá-los um pesadelo.

Marsha ficou ainda mais furiosa.

— Ser uma filha Taylor é a sua sorte. E você chama isso de pesadelo? Você não tem consciência nenhuma?

— Guardem essa sorte para a Harper. Eu não quero. — Catherine se virou para ir embora.

Jordan desceu as escadas às pressas.

— Existe um limite para fazer birra. Acha que fugir vai resolver? Quem vai sofrer é você. Pense bem. Se você sair da família Taylor, vai voltar a viver na pobreza.

— Então você sabe que eu sofri por anos. — Catherine se virou devagar, os olhos cravando em Jordan como facas. — Se você não tivesse sido ganancioso naquela época e me trocado por aquele saco de balas, eu teria sido levada por traficantes de pessoas?

Jordan não esperava que ela trouxesse isso à tona. Ela tinha prometido claramente nunca mais mencionar.

Marsha e os outros irmãos não sabiam de nada. Todos encararam Jordan, surpresos.

— Jordan, isso é verdade? — perguntou Marsha.

Próximo Capítulo