PRINCESA SIOFRA
(Reino Élfico)
POV da Siofra
“Siofra! Siofra!”
“Alma, aqui em cima!”
“O que você está fazendo aí em cima?”
“Lendo livros”, respondi antes de descer da estante para encontrá-la.
Eu estava curtindo muito o meu livro até a Alma aparecer para estragar o momento.
“Você tem noção de quanto tempo eu estou te procurando? Você deixou a mamãe preocupada demais.”
“Mas eu estou sempre aqui lendo.” Franzi a testa, confusa. “Além disso… por que todo mundo está me procurando?”
“Espera.” Alma fez uma pausa, me encarando com um olhar estranho.
“O quê?” perguntei, sem conseguir entender o que ela queria dizer só com os olhos.
“Não me diga que você esqueceu o que é hoje.”
Fiquei olhando para ela, sem reação, a confusão se aprofundando no meu rosto.
“Desculpa… mas que dia é hoje?”
“Ah, pelas estrelas.” Ela passou a mão na testa, dramática. “Você esqueceu que hoje vai se encontrar com o Eldarion de Baernarta?”
“Meu Deus.”
O pânico me atingiu na hora.
“A mamãe vai me matar!”
Girei nos calcanhares e saí disparada em direção ao meu quarto para me vestir.
“Cuidado, ou você vai acabar caindo de cara no chão!” Alma gritou atrás de mim.
“Obrigada, Alma!” gritei de volta, sarcástica.
Quando invadi meu quarto, travei por um instante ao perceber que ele estava vazio.
Estranho.
Eu esperava que a minha mãe já estivesse andando de um lado para o outro, com decepção e raiva estampadas no rosto.
Eu realmente não entendia por que eu vivia esquecendo coisas que supostamente eram importantes.
Embora… talvez uma parte de mim simplesmente não quisesse lembrar.
Por mais que eu não quisesse me casar, eu sabia que não tinha muita escolha.
Soltei um suspiro lento e corri até o guarda-roupa, procurando o vestido que tinham me entregado dois dias atrás para o jantar entre a minha família e a do Eldarion.
“Siofra.”
Congelei na mesma hora.
A voz da minha mãe soou atrás de mim.
Mas que—
Como ela entrou aqui?
Eu podia jurar que tranquei o meu quarto no instante em que entrei.
“Rainha Alary, a senhora está linda esta noite”, cumprimentei, baixando levemente a cabeça, sem ousar encará-la.
“Siofra, onde você esteve o dia inteiro?”
“Na biblioteca, mãe.” Endireitei a postura imediatamente. “Eu estava reunindo mais conhecimento sobre o vilarejo de Baernarta. Se eu vou me casar com o filho do jovem chefe deles, então eu devo saber mais sobre o povo deles.”
Respondi com educação, erguendo o queixo exatamente como eu tinha sido ensinada.
No reino dos elfos, eram as rainhas que governavam.
A Varinha da Luz jamais havia escolhido um governante homem sequer.
Minha mãe, Rainha Alary de Álfheimr, exigia perfeição de suas filhas.
“Siofra… eu sei que você está mentindo.”
A voz dela estava calma, mas por baixo havia uma decepção pesada.
“O que eu faço com você?”
Meu peito apertou.
“Por que você não pode ser mais como a sua irmã?”
Aí estava.
A comparação.
“Ela é graciosa, equilibrada… ela se porta exatamente como uma princesa deveria.”
Os olhos dela me percorreram de cima a baixo.
“Mas você…” Ela suspirou baixinho. “Você é completamente diferente dela.”
Eu conseguia ouvir a decepção na voz dela e, de algum jeito, por mais vezes que eu escutasse aquelas palavras… elas ainda doíam.
“Desculpa, mãe. Eu vou me esforçar ao máximo.”
“Se vista e me encontre lá embaixo. Agora.”
No momento em que ela saiu, eu soltei um longo suspiro que nem percebi que estava prendendo.
Isso foi pesado.
Agora… onde, pelos reinos, eu coloquei aquele vestido?
Corri até o guarda-roupa, vasculhando as fileiras de vestidos, tecidos e roupas dobradas, mas o vestido não estava em lugar nenhum.
Ah, não.
A mamãe ia me matar se tivesse que vir me procurar de novo.
O que eu faço?
Talvez… eu comece pelo cabelo primeiro.
Fiquei ali, perdida em pensamentos, tentando decidir um penteado que combinasse com a ocasião, quando uma batidinha suave ecoou pelo meu quarto.
Quem seria?
Mamãe?
Meu estômago se contraiu na hora.
Fui até a porta em silêncio, hesitando antes de abri-la.
“Siofra, sou eu, a Alma. Abre a porta.”
Um alívio me inundou no segundo em que ouvi a voz dela.
Destranquei rápido e deixei ela entrar.
“Ainda bem que você veio, Alma.” Franzi a testa, frustrada. “Eu estou desesperada precisando da sua ajuda com o meu cabelo e não consigo achar meu vestido.”
“É porque você deixou no meu quarto.” Ela arqueou uma sobrancelha para mim. “Sinceramente, eu não acredito que você já esqueceu isso.”
“Desculpa, Alma.” Suspirei. “Eu só… tô confusa agora.”
Esfreguei a testa.
“Todo mundo já chegou?”
“Bom, a família do Eldarion ainda não chegou, mas você precisa se apressar. Mamãe disse que temos que estar todos presentes para recebê-los.”
Foi então que eu olhei direito para a Alma.
Ela tinha trocado de vestido.
Um deslumbrante vestido azul de jantar, adornado com pérolas delicadas que combinavam perfeitamente com o colar e os brincos dela.
Ela estava elegante.
Graciosa.
Naturalmente majestosa.
“Você está linda”, eu elogiei sem pensar.
Só depois que as palavras saíram da minha boca eu percebi que tinha falado em voz alta.
“Obrigada”, Alma respondeu com um sorrisinho. “Mas agora a gente precisa te deixar pronta. Vem sentar.”
Antes que eu pudesse protestar, ela agarrou meu pulso e me puxou até o espelho grande do outro lado do quarto.
Suspirei, bem dramática, enquanto praticamente me colava na cadeira e me rendia à transformação que ela tinha planejado.
“Você não parece feliz”, Alma observou, enquanto mexia no meu cabelo.
“Nem animada. Por quê, se me permite perguntar?”
Encarei meu reflexo.
“Você tá falando sério, mana?”
A frustração escapou na minha voz.
“A vida inteira, mandaram a gente fazer o quê.”
Comecei a contar nos dedos.
“Faz isso. Não faz aquilo. Princesas não comem assim. Senta direito. Sorri direito. Fala direito.”
Dei um risinho de deboche.
“Tipo… sério.”
Virei um pouco para olhar para ela.
“Será que a gente não pode viver a nossa própria vida nem que seja uma vez? Até quando a gente vai ter que continuar com isso?”
Eu odiava o fato de que a vida de nós duas girava em torno de agradar a mamãe.
“Fomos treinadas desde crianças para honrar nossos deveres e fazer o que esperam de nós”, Alma respondeu com calma.
Eu conseguia ouvir a convicção na voz dela.
“Precisamos deixar a Mamãe orgulhosa.”
Claro que ela diria isso.
O papai teve a Alma antes de se casar com a minha mãe.
A mãe dela morreu só alguns meses depois de dar à luz.
A minha mãe criou a Alma como se fosse filha dela desde o começo.
Ela já disse que se apaixonou pela Alma no primeiro instante em que pôs os olhos nela.
E, sinceramente…
Às vezes, eu acreditava nisso.
A Alma sempre foi a favorita da mamãe, mesmo não sendo a filha biológica dela.
Enquanto isso, eu recebia aquele olhar conhecido de decepção sempre que eu não correspondia às expectativas.
Eu admirava a minha irmã.
De verdade.
Mas eu não conseguia ser como ela.
Mamãe queria que eu fosse perfeita — comportada, graciosa, disciplinada — igual à Alma.
Só que eu odiava sacrificar a minha própria felicidade só para virar a versão de mim mesma que outra pessoa queria.
A Alma daria uma excelente rainha.
Ela vinha se preparando para esse papel a vida inteira.
Eu só não tinha certeza se queria a vida que já tinham escolhido para mim.
“Eu queria ter nem que fosse metade da sua coragem. Eu não quero me casar só porque os meus pais acham que eu devo. Eu quero me casar porque eu quero… mas a Mamãe não está ouvindo, e o papai nem consegue convencer ela do contrário.”
Fiz bico, como uma criança a quem tivessem negado cruelmente o lanche preferido.
“Você é uma criança, Siofra”, disse Alma, soltando uma risadinha.
O irônico era que ninguém nunca me levava a sério.
“Pronto.” Alma colocou com cuidado a tiara delicada na minha cabeça. “Agora você está linda e impecável… do jeito que uma princesa deve estar.”
Olhei meu reflexo no espelho.
Eu mal me reconhecia.
Eu só esperava, de verdade, que o filho do chefe merecesse todo esse esforço.
Era bom ele não desperdiçar meu tempo… nem a minha paciência.
“Siofra, anima. A gente só vai jantar com eles”, Alma disse, tentando me tranquilizar. “Você sempre pode achar um defeito no Eldarion e dispensar ele.”
“Mas a Mãe vai surtar”, respondi, soltando um suspiro exausto. “Aí ela vai me dar um daqueles olhares aterrorizantes.”
“Desde quando você começou a ouvir a Mãe e fazer tudo o que ela manda?” Alma perguntou, divertida. “Você sempre mandou em si mesma.”
Virei para ela, confusa.
“Você está me dizendo pra ir contra as ordens dela?”
Só isso já era chocante.
Alma nunca tinha me incentivado a seguir meus próprios desejos.
Normalmente, ela passava o tempo tentando me moldar numa segunda versão dela.
“Não, não me entenda mal, Siofra.” Ela suavizou a voz. “Mas você nunca ouviu de verdade ninguém.”
Ela continuou cuidando dos últimos detalhes da minha aparência.
“Você sempre teve esse lado que desafia a Mãe. Como rainha… e como sua mãe… ela não sabe lidar com isso.”
Ela fez uma pausa.
“Nós somos as filhas dela. Nós a representamos em todo lugar fora das paredes deste palácio.”
Então ela encontrou meu olhar pelo espelho.
“Mas eu te conheço bem demais. Você valoriza a sua felicidade acima de qualquer coisa.”
A voz dela ficou ainda mais doce.
“Eu só não quero que você se sinta sozinha… ou deixada para trás.”
Eu encarei Alma em silêncio.
“Então… faça o que você sempre faz. Se você não gostar do Eldarion… não escute a Mãe.”
Eu ri, amargo.
“Você e eu sabemos qual é o castigo que me espera se eu algum dia for contra a vontade dela.”
Baixei os olhos.
“Eu queria que a Mãe me entendesse do jeito que ela entende você.”
A expressão de Alma suavizou por um instante, antes de ela pigarrear.
“Vamos. Vou te vestir pra gente descer. Se a Mãe voltar e encontrar a gente ainda aqui… não vai acabar bem.”
Eu só a segui até o quarto dela, que ficava ao lado do meu.
Ela me mostrou o vestido.
No instante em que meus olhos pousaram no traje, escapou de mim um suspiro pesado.
O vestido era deslumbrante.
Vermelho escuro, elegante, cheio de detalhes…
E completamente nada a ver comigo.
“Eu realmente tenho que usar isso?” perguntei, desanimada. “Você sabe o quanto eu odeio a cor vermelha.”
“Foi a Mãe que escolheu”, Alma me lembrou. “E lembre-se… princesas não deveriam fazer tanta exigência.”
Revirei os olhos com tanta força que quase doeu.
Depois de me trocar, pedi que Alma me ajudasse a escolher os sapatos certos para combinar com o vestido.
“Eu tô parecendo um pato”, resmunguei, encarando meu reflexo no espelho.
Eu odiava vestidos exageradamente enfeitados.
Eu preferia simplicidade.
Modelos discretos.
Conforto.
E eu detestava ter o cabelo preso.
Eu amava meu cabelo solto.
“Não mexa nesse cabelo, mocinha”, Alma avisou, me lançando um olhar duro.
Infelizmente, meus dedos já estavam puxando o grampo que prendia aquele penteado impossível.
“Não dá pra eu deixar o cabelo solto? Por favor?”
“Não, não dá.”
Ela segurou meu pulso antes que eu destruísse o trabalho dela.
“Agora vamos.”
Alma praticamente me arrastou para fora do quarto dela, e nós nos juntamos aos nossos pais no salão de jantar.
“Meu amor, você está linda”, Papai elogiou com carinho.
Enquanto isso, a Mãe apenas me encarou, avaliando cada detalhe.
— Obrigada, pai, mas, sinceramente, não acho que vou aguentar muito tempo com esse vestido.
Puxei o tecido, desajeitada.
— Como exatamente eu vou conseguir comer e digerir direito usando esse troço?
— Você está realmente desconfortável… ou só arranjando desculpas? — perguntou Mamãe, aproximando-se de mim.
— Sim, eu estou extremamente desconfortável — respondi rápido. — Isso quer dizer que eu posso trocar por um dos meus vestidos?
— Tire esse vestido — Mamãe respondeu, calma — e você vai conhecer o chefe e a família dele de roupa de baixo.
Antes que eu conseguisse me recuperar da ameaça, ela puxou a cadeira ao lado dela.
Meu coração quase despencou.
Eu não podia sentar ao lado do Papai?
Olhei para ele, desesperada, implorando por socorro em silêncio.
Mas o olhar apologético que ele me deu disse tudo.
Eu estava sozinha.
De novo.
Não muito tempo depois, a família do chefe chegou.
Uma família de quatro.
O chefe.
A esposa dele.
A filha.
E o filho.
Quando meus pais se levantaram para recebê-los, eu continuei perdida nos meus próprios pensamentos até meu nome cortar o salão de repente.
— Siofra.
A voz de Mamãe trouxe aviso o suficiente para me fazer dar um pulo.
Olhei em volta.
Perfeito.
Eu era a única pessoa ainda sentada.
Todo mundo já estava cumprimentando nossos convidados.
Soltei uma risadinha nervosa e me levantei depressa, alisando o vestido enquanto forçava um sorriso gracioso no rosto.
— Esta é minha primogênita, Alma — Mamãe anunciou com orgulho, depois de apresentar Papai. — Ela é o meu orgulho e um dia governará Álfheimr.
O orgulho brilhando nos olhos dela era impossível de ignorar.
Eu queria… só uma vez… que ela olhasse para mim daquele jeito também.
— E esta é Siofra, minha segunda filha.
Só isso.
Sem calor.
Sem orgulho.
Nada.
Mesmo assim, mantive o sorriso elegante e fiz uma reverência educada.
— Suas filhas são realmente lindas, Vossa Alteza — disse o chefe, calorosamente. — É uma honra ter a princesa se casando com meu filho.
— Estamos profundamente honrados, Vossa Alteza — acrescentou a esposa dele, com um sorriso agradável.
— Naturalmente — Mamãe respondeu, com suavidade. — Agada e eu somos amigas desde a vida inteira. Nossos filhos combinam perfeitamente.
Ela continuou conversando com o chefe e a esposa dele enquanto eu observava Eldarion do outro lado do salão.
Ele parecia tão desinteressado quanto eu me sentia.
Um leve franzir descansava sobre os olhos verde-vivos dele.
Então, de repente…
Ele levantou o olhar.
Nossos olhos se encontraram.
Ele deu um sorrisinho.
E então, como se não fosse nada, desviou o olhar.
Como é que é—
Ele acabou de dar um sorrisinho para mim?
Ah, não. Não é possível.
Eu não consegui evitar e lancei um olhar fulminante de volta.
— Siofra.
A voz de Mamãe imediatamente puxou o sorriso elegante de volta para o meu rosto.
— Sim, Mamãe.
— Por que você não mostra o palácio para Eldarion? Tenho certeza de que ele deve estar curioso sobre algumas coisas.
— Certo, Mamãe.
Caminhei até Eldarion, e meus nervos foram se apertando quanto mais eu me aproximava.
Isso era ridículo.
Parada diante dele, enfiei a educação no rosto à força.
— Vamos?
Eu me virei para conduzir o caminho, mas, ao que parecia, nossa interação não foi satisfatória o bastante para Mamãe.
— Vocês dois se comportam como inimigos jurados — ela comentou, de leve. — Mas isso dá para resolver.
Ah, não.
— Siofra, por que você não segura a mão de Eldarion?
Por dentro, meus olhos se arregalaram.
— Há muitas donzelas pelo palácio, e elas podem se interessar por Eldarion. Afinal, ele é bem bonito.
— Sim, Mamãe. — Meu sorriso permaneceu perfeitamente no lugar. — Eu não vou deixar ninguém chegar perto dele.
Virei-me para Eldarion.
— Ele é todo meu.
Com um sorriso que não chegou aos meus olhos, eu peguei a mão dele, entrelacei nossos dedos—
E o arrastei direto para fora do salão.
