PROPOSTA DE NEGÓCIO

(De volta ao Reino Humano)

POV da Alda

Subi até o meu escritório para encontrar o meu pai, lutando para manter as emoções sob controle.

Encontrei ele parado perto da janela, encarando a cidade lá embaixo.

Ele estava de costas para mim, o que tornava impossível ler a expressão no rosto dele.

— Pai — chamei, baixinho.

Ele se virou na hora, e um sorriso se abriu no rosto assim que me viu.

— Eu sabia que você ia sacar — disse, divertido. — Mesmo depois de eu ter dito especificamente ao Peter para não te avisar que eu estava aqui.

— É porque eu sei que você é a única pessoa que o Peter respeita o suficiente pra escoltar pessoalmente até o meu escritório.

— Acho que eu simplesmente tenho gente demais que confia e me respeita. — Ele soltou uma risadinha.

— Não tem graça, pai. — Cruzei os braços. — Então o que te trouxe aqui?

— Um pai não pode mais visitar a própria filha? — ele perguntou, com um sorriso provocador no canto da boca.

— Pai, nós dois sabemos que o meu escritório nunca foi seu ponto de encontro social.

Ergui uma sobrancelha para ele.

— Você está aqui por negócios.

— Às vezes eu esqueço que você me conhece bem demais pra eu mentir pra você. — Ele riu baixo. — Mas eu não estava mentindo quando disse que queria te ver.

— Eu sei, pai.

Caminhei até a área de estar.

— Vem, senta e me diz por que você está aqui de verdade.

— Hm. — Ele me analisou, com divertimento. — Você está mais curiosa do que eu esperava.

— Porque eu sei que isso é importante, e agora eu quero muito saber.

— Tá bom.

Ele finalmente cedeu.

— Eu tenho uma proposta pra você. O Peter me informou que você perdeu recentemente uma modelo muito importante — o rosto da empresa.

— É, perdi. — Assenti. — Mas você não precisa se preocupar com isso. Eu vou resolver.

— Eu sei que vai — ele respondeu, confiante. — Mas eu acredito que tenho uma sugestão melhor.

Ele se acomodou na cadeira.

— O que você acharia de aceitar um acordo comercial da M & J Suit Up?

Eu franzi levemente a testa.

— M & J Suit Up? Eu achei que eles fossem especializados em acessórios masculinos.

— Sim, e é exatamente aí que está a sua vantagem.

Os olhos dele brilharam enquanto explicava.

— Se as duas empresas colaborarem numa coleção para casais… designs coordenados para homens e mulheres… a gente pode criar algo único.

Ele se inclinou um pouco para a frente.

— Um conceito de design compartilhado entre as duas marcas pode aumentar as vendas de forma enorme, se for executado direito.

Eu me peguei considerando a ideia de verdade.

— Hm… você tem razão.

Assenti devagar.

— Isso realmente parece promissor.

Olhei de volta para ele.

— Mas você acha que eles estariam interessados em fazer parceria com a gente?

— Sim. — Ele respondeu com segurança. — Eu mesmo vou marcar uma reunião com eles.

Uma pausa pensativa passou pelo rosto dele.

— Ou talvez… a gente possa conversar sobre tudo isso durante um jantar.

— Obrigada, pai.

Um sorrisinho puxou meus lábios — um dos poucos genuínos que eu tinha conseguido dar o dia inteiro.

— Fico muito feliz que você ainda esteja cuidando de mim, mesmo agora.

Cheguei mais perto e envolvi ele com os braços num abraço.

Ele me abraçou de volta na hora.

— Meu amor…

A voz dele suavizou.

— É impressão minha ou você está um pouco pálida hoje?

Ele se afastou um pouco, examinando meu rosto com mais atenção.

“Você está doente?”

Meu coração apertou.

Por um segundo assustador, achei que ele pudesse, de algum jeito, enxergar direto através de mim.

O casamento em ruínas.

A traição.

O coração partido que eu tentava desesperadamente esconder sob maquiagem e sorrisos forçados.

“Não”, respondi depressa, forçando um sorrisinho no rosto.

“Eu estou bem.”

“Acho que não. Talvez eu deva ligar para o doutor Daniel vir te examinar.”

Papai me puxou com cuidado para me olhar melhor, os olhos percorrendo meu rosto e meu corpo com atenção.

“Esse seu marido provavelmente nem perceberia se você está bem ou não.”

Meu corpo ficou tenso na hora.

Eu não podia deixar que ele desconfiasse de nada.

Forçando um sorriso, peguei as mãos dele e as encostei na minha testa.

“Pai, eu estou bem. Tá vendo? Eu nem estou quente.”

Tentei soar brincalhona.

“Você não precisa se preocupar comigo o tempo todo. Eu sei me cuidar.”

“Tudo bem”, ele disse, a contragosto. “Mas manda o Seth arrumar um tempo pra gente se encontrar.”

“Por quê?”, perguntei rápido demais, o nervosismo apertando dentro do meu peito.

Por favor, não deixa ele perceber.

“Porque aquele cara é péssimo pra lidar com negócios”, Papai respondeu, direto. “E eu não posso continuar apoiando a empresa dele se ele não sabe o que está fazendo.”

Meu coração falhou uma batida.

“Você está pensando em tirar o apoio da sua empresa da dele?”

“Sim.” A resposta veio sem hesitar. “E não tente me fazer mudar de ideia.”

“Eu não vou.”

As palavras me surpreenderam até a mim.

“Eu sei que, antes de tomar uma decisão, você já pesou as vantagens e as desvantagens. Então… faça o que você acha que tem que fazer.”

Eu quis dizer cada palavra.

Eu não ia mais deixar nada relacionado ao Seth me afetar.

Ele não merecia tanto poder sobre mim.

Papai estreitou um pouco os olhos.

“Por que você não está defendendo ele hoje?”

Um leve ar de confusão passou pelo rosto dele.

“Isso não é do seu feitio.”

Abaixei o olhar por um instante.

“Talvez…” Fiz uma pausa, baixinho. “Talvez eu esteja finalmente começando a enxergar as coisas que eu vinha fingindo que não via.”

“Hum.”

Papai me observou com cuidado.

“Coisas como o quê?”

“Ainda estou tentando entender.”

Olhei para o relógio no pulso, conferindo a hora.

O Peter provavelmente já tinha começado a reunião, e eu ainda precisava entrar.

“Você tem que ir a algum lugar?”, Papai perguntou.

“Não, mas eu tenho uma reunião com os gerentes de todos os departamentos.”

Me endireitei um pouco, voltando ao modo trabalho.

“Pelo jeito, a gente precisa urgentemente encontrar um modelo principal se quisermos começar a rodar os anúncios ainda esta semana.”

Papai cruzou os braços, pensativo.

“Você já pensou em usar você mesma como o rosto da sua empresa?”

Olhei para ele.

“Até quando você vai esconder toda essa beleza atrás do Peter?”

“Pai.” Dei uma risada baixa. “Você sabe o quanto eu prezo pela minha privacidade.”

Balancei a cabeça.

“Virar o rosto da Glams Beauty and Fashion é praticamente a mesma coisa que me expor de vez.”

“Nunca entendi por que você é tão contra aparecer.”

A voz dele suavizou.

“Mas, mesmo que você apareça… ainda pode continuar atrás do Peter, do jeito que vem fazendo.”

Ele deu de ombros.

“A maioria das pessoas já acredita que eu sou o dono desta empresa mesmo.”

Então ele olhou direto nos meus olhos.

— Então vai lá e vira o rosto da Glams Beauty and Fashion. Eu te cubro.

As palavras dele me pegaram de surpresa.

— Quero que você faça o que você realmente gosta de fazer.

A voz dele ficou mais suave.

— Já está na hora de parar de se esconder, querida.

— Quando você veio até mim pela primeira vez com a ideia de abrir essa empresa, eu te apoiei porque eu sabia que tinha algo especial dentro de você.

Ele sorriu com carinho.

— Se você não quer ficar sob os holofotes da Glams Beauty and Fashion… então, pelo menos, se permita brilhar ao lado dela.

As palavras dele ficaram ecoando na minha cabeça.

E, pela primeira vez…

Eu questionei algo em que eu nunca tinha pensado de verdade antes.

Eu estava mesmo me escondendo?

Eu nunca tinha visto por esse lado.

Eu só nunca acreditei que o mundo precisasse saber que eu era a dona da Glams Beauty and Fashion.

— Vou pensar — eu disse, por fim.

— Mas eu realmente preciso ir me juntar ao Peter e ao pessoal.

— Sua mãe está perguntando de você — disse o meu pai, enquanto começávamos a andar juntos em direção à porta do escritório.

— Diz pra ela que eu vou ver ela neste fim de semana.

— Eu aviso.

Eu acompanhei o meu pai até o elevador e o vi entrar antes de as portas deslizarem e se fecharem.

Então, respirando baixinho para me acalmar, eu me virei e voltei para me juntar à reunião.

POV do Xender

— Pai, o que você está fazendo aqui?

Ele estava sentado no meu escritório havia quase vinte minutos, ignorando completamente todas as perguntas que eu fazia.

— Eu não posso visitar o local de trabalho do meu filho? — ele perguntou, com naturalidade. — Não me diga que você está me evitando.

— Pai, por favor. — Eu esfreguei a têmpora, frustrado. — Eu já tive uma manhã incrivelmente decepcionante, e a minha tarde não está indo melhor, então, por favor, não piora.

— Você está sugerindo que eu posso aumentar o seu sofrimento?

— Sim.

Eu nem hesitei.

— Então vá direto ao ponto, pra eu poder voltar a trabalhar.

— Filho… quantos anos você tem?

Eu soltei um suspiro audível, me obrigando a engolir a irritação que ia crescendo dentro de mim.

Meu relacionamento com o meu pai nunca tinha sido exatamente ideal.

— A minha idade realmente importa?

— Importa — ele respondeu, calmo. — Na verdade, tem tudo a ver com a sua idade.

Um sorriso estava no rosto dele.

Um sorriso profundamente irritante.

— Estou na casa dos trinta e poucos — eu respondi, quando ficou óbvio que ele não tinha a menor intenção de abandonar aquela conversa esquisita.

— Você é um homem muito bem-sucedido para alguém da sua idade.

Ele disse isso com tanta naturalidade que eu nem consegui saber se era elogio ou crítica.

— Valeu, pai… mas ainda estou esperando o seu ponto.

— Você abriu a M & J Suit Up quando tinha só vinte e cinco anos.

Ele se recostou um pouco.

— Eu fiquei orgulhoso de você naquela época.

Uma pausa breve.

— E ainda fico.

Eu permaneci em silêncio.

— Me diga… como estão seus investimentos? Eu espero que você esteja colocando seu dinheiro nas empresas certas.

Aí está.

O verdadeiro motivo.

No segundo em que ele fez aquela pergunta, eu soube que ele já sabia do investimento no Sebastian.

— É por isso que você está aqui? — perguntei, seco. — Pra me lembrar do quanto você foi contra eu trabalhar com o Sr. Sebastian?

Eu cruzei os braços.

— Bom, não se preocupe com isso. Ele vai me devolver cada centavo que eu investi na empresa dele.

— Eu sinceramente espero que sim.

O sarcasmo na voz dele era impossível de ignorar.

— Porque a imobiliária dele está praticamente desmoronando, e a maioria dos investidores que o sustentavam já está tirando as empresas de perto dele.

Ele inclinou a cabeça de leve.

— Então, naturalmente… eu estou curioso pra saber como ele pretende te pagar.

Depois deu de ombros.

— Mas não se preocupe. Tenho certeza de que você tem a sua própria estratégia.

Eu cerrei o maxilar.

— Se é só isso, então eu vou indo. Tenho uma reunião com o meu advogado.

— Calma, filho.

Ele ergueu a mão.

— Tenho uma proposta pra você.

Eu estreitei os olhos, desconfiado.

— O que você acha de colaborar com a Glams Beauty and Fashion?

Eu pisquei.

— Glams Beauty and Fashion… do senhor Barnard?

— Sim.

Ele parecia satisfeito demais consigo mesmo.

— Eles estão dispostos a trabalhar com você, se você tiver interesse.

— Eles estão dispostos a trabalhar comigo?

— Sim.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Você não deveria estar feliz? Você quer um projeto com eles há anos.

Isso… era verdade.

— Bom, sorte a sua: eu acabei encontrando o senhor Barnard. A gente conversou, e ele disse que consideraria.

Eu encarei meu pai, realmente atônito.

Eu estava tentando marcar uma reunião com o senhor Barnard havia meses.

Meses.

E-mails.

Ligações.

Tentativas de networking.

Nada.

Então como diabos ele tinha conseguido isso com tanta facilidade?

— Com essa cara aí — meu pai disse, cheio de si — eu diria que você já adorou a ideia.

Ele se levantou da cadeira.

— Vou entrar em contato com o senhor Barnard pra gente marcar uma conversa de verdade.

Aquele sorrisinho satisfeito começava a me irritar.

Ele ajeitou o terno antes de se aproximar.

— Por que você está me ajudando?

Ele me olhou como se a resposta fosse óbvia.

— Porque você é meu filho.

Uma risada amarga quase escapou.

— Você e eu sabemos que esse não é o motivo de verdade.

Minha voz ficou mais dura.

— Você foi totalmente contra essa empresa quando eu abri.

— Acredite ou não, filho… — a expressão dele suavizou um pouco — eu estou tentando cuidar de você.

Ele endireitou o paletó.

— Vou garantir esse projeto pra você. Considere um presente.

Então o tom dele mudou, ficando mais sério.

— Eu sei que você perdeu muito investindo no senhor Sebastian.

Ele sustentou meu olhar.

— Então não estrague isso.

Eu fiquei encarando.

— Isso não é do seu feitio.

As palavras escaparam antes que eu conseguisse segurar.

— Você mal falou comigo por anos porque eu me recusei a assumir a sua empresa.

Eu balancei a cabeça de leve.

— E agora… do nada… você está me ajudando?

— Só diz obrigado e para de ser babaca.

Ele deu um tapinha de leve no meu ombro e se virou em direção à porta.

Típico.

— Ah, e mais uma coisa… — Ele parou na entrada. — Sua irmã voltou.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

— Aparece aqui neste fim de semana. Vamos fazer um jantar de reunião de família.

E assim, simplesmente…

Ele saiu.

Espera.

A Emily voltou?

Uma sensação horrível se instalou imediatamente no meu estômago.

Por que ela voltou de repente?

Isso só podia significar uma coisa.

Minha irmã problemática tinha oficialmente voltado pra cidade.

O Charles estava prestes a perder a cabeça.

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