O RETORNO DE EMILY
— Cara, o que seu pai disse? — perguntou Charles, entrando no meu escritório sem nem se dar ao trabalho de bater.
— Ele tá planejando te mandar pra África ou alguma coisa assim?
Às vezes, eu me pergunto de verdade quem é o chefe aqui.
— Por que exatamente ele me mandaria pra África? — perguntei, seco. — E desde quando meu pai manda em mim?
— Eu sei que você gosta de fingir que não, mas ele ainda é seu pai.
— Tá, tanto faz.
Eu dispensei o assunto com um gesto, tirando o paletó do terno antes de pegar meus óculos de leitura. Sentei e comecei a organizar a pilha de pastas empilhadas sobre a minha mesa.
— Você não vai me dizer o que ele falou?
— Ele veio com uma proposta de negócios.
Charles congelou.
— Pera… o quê?
Ele piscou pra mim como se eu tivesse começado a falar outra língua.
— Seu pai veio aqui com uma proposta de negócios?
Ele franziu a testa com força.
— Isso é estranho. Eu jurava que o cara tava torcendo pra essa empresa quebrar, só pra você finalmente voltar rastejando pro negócio da família.
— Bom, segundo ele, nenhum pai deseja que o negócio do filho fracasse.
— Ainda assim, isso não faz o menor sentido.
Charles balançou a cabeça.
— Ele te ignorou por anos. Por que agora?
— Eu não sei.
E era a pura verdade.
— Mas eu tô tão preocupado quanto você.
Tentei me concentrar nos papéis à minha frente, mas já tinha perdido o foco.
Minha mente não parava quieta.
— Você aceitou a oferta dele?
— Aceitei.
Eu me recostei na cadeira.
— Era impossível resistir.
Charles estreitou os olhos, desconfiado.
— Ele conseguiu um contrato com a Glams Beauty and Fashion.
A boca dele se abriu.
— Isso é literalmente impossível!
Ele apontou pra mim, teatral.
— Como diabos ele conseguiu? A gente tá atrás de uma parceria com eles há três malditos anos!
— Eu sei.
Era exatamente isso que me incomodava.
— Por isso eu não consigo me livrar dessa sensação.
Eu esfreguei o maxilar, pensativo.
— Se meu pai tá disposto a fazer uma coisa desse tamanho por mim… então ele com certeza quer alguma coisa em troca.
Charles cruzou os braços.
— Que é?
— Ainda não descobri.
Suspirei.
— Mas ele quer que eu vá pra casa pra um jantar em família.
Charles me encarou.
— Ele quer que você volte pra casa?
— Dá pra parar de transformar toda frase que eu digo numa pergunta?
— Foi mal.
Ele ergueu as mãos.
— Eu não consigo evitar agora. É informação demais pra processar.
Ele desabou na cadeira do outro lado da minha mesa.
— Acho que eu preciso de um minuto pra sentar e digerir tudo isso.
Aí colocou uma mão na barriga, exagerado.
— E eu tô com fome.
— Então vai arrumar alguma coisa pra comer.
— É, eu vou.
De repente, ele parou.
— Pera… desde quando você leva almoço pro trabalho?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Do que você tá falando? Eu nunca levo almoço pro trabalho.
— Então de quem é aquilo?
Segui a direção do dedo dele e vi a marmita ao lado da minha mesa.
Na hora, eu franzi a testa.
— Eu falei especificamente pra Rosa se livrar disso.
Claro que ela tinha feito exatamente o contrário.
— Pera aí.
Charles se inclinou pra frente.
— Se não é seu… de quem é?
— De alguém que eu conheci mais cedo no escritório do sr. Sebastian.
Soltei um suspiro, frustrado.
— Ela chamou de lixo e depois insistiu pra eu ficar com isso, porque não queria que todo o esforço dela fosse desperdiçado.
— E você mandou a Rosa jogar fora?
— Mandei.
— Por quê?
— Porque eu não como lixo.
— Tá, mas eu posso ficar com isso?
Eu encarei ele.
“Por que eu te daria isso?”
“Porque”, o Charles respondeu, todo suave, estendendo a mão para a marmita, “você não come porcaria.”
Eu fiquei olhando, sem acreditar.
Eu não conseguia acreditar que ele estava mesmo prestes a comer comida misteriosa da marmita de uma desconhecida.
“Uau.”
Ele abriu e fez uma inspiração dramática.
“Enroladinhos de peru com pesto.”
Os olhos dele se arregalaram.
“Eu amo peru.”
Ele parecia quase emocionado.
“E isso aqui foi feito em casa.”
Ele pegou um, examinando.
“Sério… quem recusa uma comida que parece tão boa assim sem nem provar?”
Eu tentei ignorar os comentários dele.
Tentei mesmo.
Mas aí o cheiro se espalhou pelo escritório.
Foi direto pro meu estômago.
Droga.
Aquilo estava cheirando bom demais.
“Cara, você tem certeza absoluta de que não quer isso?” Charles perguntou.
Antes que ele continuasse, eu arranquei a comida da mão dele.
“Tá bom. Só deixa aí. Eu como depois.”
“Isso não é justo!” ele protestou na hora.
“Você que rejeitou a comida, lembra? Você literalmente chamou de porcaria.”
Ele apontou pra mim, acusando.
“E agora, posso pegar de volta?”
“Não.”
“Mas eu quero!”
O desespero nos olhos dele era quase vergonhoso.
“Qual foi, cara. Divide.”
Pela cara dele, eu já sabia que ele não ia sair do meu escritório sem comer aquela comida.
No fim, eu cedi e devolvi pra ele.
Grande erro.
Ele passou os minutos seguintes elogiando a refeição sem parar.
Cada.
Única.
Mordida.
“Isso tá incrível.”
“Uau.”
“Quem fez isso sabe o que tá fazendo.”
“O sabor disso aqui é absurdo.”
Eu sentia minha irritação crescendo a cada palavra que saía da boca dele.
Eu tentei ignorar.
Tentei de verdade.
Mas o Charles era fisicamente incapaz de ficar quieto.
Quando eu finalmente cheguei no meu limite, bati as duas mãos na mesa.
“Dá pra você me deixar trabalhar?”
Ele mal levantou os olhos da comida.
“Eu tenho uma montanha de documentos pra organizar, a maioria precisa da minha assinatura, e você tá me distraindo de um jeito ridículo. Então, por favor, volta pro seu escritório e faz o seu trabalho.”
“Mas falando sério…”
Ele apontou, todo dramático, com um enroladinho meio comido.
“Você tem certeza de que não conhece a mulher que fez esse prato?”
Ele deu outra mordida e praticamente derreteu na cadeira.
“Dá pra ver que ela colocou o coração nisso aqui.”
Os olhos dele se estreitaram, desconfiados, pra mim.
“Você tá saindo com alguém escondido e não me contou?”
Inacreditável.
Eu estava tentando encerrar uma conversa, e ele já tinha começado outra.
“Sr. Charles”, eu disse com a minha voz mais fria de chefe, “por favor, volte para o seu escritório e faça o que você é pago para fazer.”
Ele soltou uma risadinha de desprezo.
“Você sabe que essa voz não funciona comigo.”
Ele se levantou, teatral, segurando a marmita.
“Então, muito obrigado pela refeição, chefe.”
Aí apontou pra mim.
“E se você encontrar a mulher que fez isso…”
Ele abriu um sorriso.
“Casa com ela.”
“Charles, por favor.”
Eu apertei a ponte do nariz.
“Me deixa trabalhar. Eu ainda tenho uma reunião com meu advogado, e só tenho umas três horas antes do horário marcado.”
“Tá, tá. Tô indo.”
Ele largou a marmita, agora vazia, em cima da minha mesa, antes de ajeitar o terno.
“Mas só pra você saber…”
Ele apontou pra mim de novo.
“Eu vou com você no jantar com a sua família.”
Um sorriso travesso se espalhou no rosto dele.
“Eu tava com saudade da comida da sua mãe.”
“Eu levaria você numa boa”, eu respondi.
“Mas… só pra você saber… é uma reunião de família.”
Eu sabia que aquela única palavra ia confundi-lo.
Ele precisava do aviso.
— Como assim, “reunião”?
Ele deu uma risadinha.
— A Emily teria que estar lá pra isso realmente contar como uma reunião.
Levantei os olhos devagar até encontrar os dele.
Não disse uma palavra.
Só deixei a minha expressão responder por mim.
O sorriso sumiu do rosto dele na mesma hora.
— Espera…
A voz dele baixou.
— Não.
Ele me encarou.
— Não pode ser.
O rosto dele ficou pálido.
— A Emily voltou da Inglaterra?
— Achei que ela não era pra voltar antes de mais três anos.
— Então… — eu me recostei um pouco. — Ela voltou.
— Pelo menos foi o que meu pai disse.
Eu vi a cor sumir do rosto dele em segundos.
Meu estômago se apertou.
Eu achei que ele já tivesse superado isso.
— Charles…
Minha irritação desapareceu na hora, dando lugar à preocupação.
— Você tá bem?
De repente ele pareceu fraco.
Fraco demais.
Eu fui rápido até ele e o conduzi de volta pra cadeira antes que ele desabasse nela sozinho.
— Ei…
Eu franzi a testa, observando-o de perto.
— Fala comigo.
— Tá… eu tô bem — ele respondeu, mas o olhar dele estava distante. Distante demais.
— Não, você não tá bem.
Eu franzi a testa.
— Talvez eu não devesse ter falado dela. Eu realmente achei que você já tinha superado isso.
— Eu também achei.
Ele soltou um suspiro baixo.
— Mas só de saber que ela voltou… tá trazendo de volta lembranças que eu queria desesperadamente esquecer.
— Você ainda sente alguma coisa por ela?
— Não.
A resposta veio rápida.
— Não sinto.
— Ainda bem.
Dei um tapinha de leve no ombro dele, tentando tirá-lo daquele lugar escuro pra onde a mente tinha ido.
— Então não deixa a presença dela te afetar. Reage. Você tá com uma cara de quem acabou de ver um fantasma.
Eu realmente não sei como as coisas entre os dois chegaram a ficar tão ruins assim.
Mas uma coisa era clara—
Charles não estava pronto pra perdoar a Emily pelo que quer que ela tivesse feito.
POV da Alda
— O quê?!
A Anna se levantou num pulo, a fúria explodindo no rosto.
— Aquele desgraçado!
Ela começou a andar de um lado pro outro, furiosa.
— Como ele pôde fazer isso com você?
A voz dela tremia de raiva.
— Eu te falei pra você não confiar naquele idiota! E olha onde ele te deixou agora.
Ela apontou pra mim, frustrada.
— E você ainda vai dar mais uma chance pra ele? Porque é isso que você sempre faz, Alda.
O tom dela suavizou um pouco, mas continuou carregado de indignação.
— Fica dando chance.
— Eu sei…
Minha voz falhou.
— Eu sei que eu mereço tudo o que você tá dizendo.
Baixei os olhos.
— Eu achei que ele só estivesse estressado porque os negócios não têm ido bem ultimamente.
Engoli em seco, com dor.
— Mas acho que eu tava errada.
Meus dedos apertaram o lenço de papel na minha mão.
— Traição…
Só aquela palavra quebrou alguma coisa dentro de mim.
— Era a última coisa que eu esperava do Seth.
Balancei a cabeça, fraca.
— Mas acho que eu fui uma idiota por confiar tanto nele.
Lágrimas novas embaçaram minha visão.
— Eu me sinto tão burra, Anna.
Peguei um lenço de papel da mesa e enxuguei as lágrimas, mas elas continuavam caindo.
— Não foi culpa sua o Seth ter se revelado um babaca.
A Anna se aproximou de mim na hora.
— Então para de se culpar.
A raiva dela só aumentou.
— Depois de tudo o que você fez por ele… tudo… é assim que ele te paga?
Ela soltou uma risada amarga de desprezo.
— Eu juro que vou falar umas boas pra ele na próxima vez que eu encontrar aquele sujeito.
Ela pegou outro lenço e enfiou na minha mão.
— Agora enxuga essas lágrimas. Ele não merece.
Então ela me encarou bem nos olhos.
— Quero que você comece a dar entrada no divórcio imediatamente.
Divórcio.
Só de ouvir a palavra em voz alta, meu peito apertou.
E, ainda assim…
Mesmo depois de tudo…
Eu ainda não conseguia me imaginar fazendo isso.
Como eu poderia simplesmente me divorciar do Seth?
— Espera.
Anna me olhou, incrédula.
— Não me diga que você não está pensando em se divorciar daquele idiota.
— Alda!
— Eu sei.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu sei, Anna.
Minha voz falhou sob o peso das emoções.
— Eu sei que sou uma idiota por ainda me agarrar a esse restinho de fé nele.
Soltei um suspiro trêmulo.
— Mesmo depois de tudo… alguma parte burra de mim ainda acredita nele.
— Alda.
A voz da Anna suavizou, mas a frustração continuava ali.
— Seth não é o homem certo pra você.
Ela se sentou ao meu lado e apertou minha mão com força.
— Ele vai te destruir enquanto destrói a si mesmo.
Ela balançou a cabeça, firme.
— Se você não fizer alguma coisa a respeito, então eu vou contar pros seus pais.
— Não.
Levantei os olhos depressa para ela.
— Anna, por favor.
Balancei a cabeça, desesperada.
— Minha mãe vai surtar…
Escapou de mim uma risada fraca, despedaçada.
— E meu pai vai fazer bem pior do que isso.
— Que tipo de amiga eu seria se não cuidasse de você?
Anna perguntou, a voz cheia de preocupação e irritação.
— Você precisa largar esse homem e retomar a sua vida.
— Eu vou pensar.
Esfreguei as têmporas, sem força.
— Agora… eu tô tão confusa que nem consigo pensar direito.
Minha garganta apertou, doendo.
— Eu nunca imaginei que minha vida com o Seth ia acabar assim.
— Eu te falei pra não chorar.
Anna se inclinou e, com cuidado, enxugou as lágrimas que desciam pelo meu rosto.
— Anna…
Minha voz tremeu.
— Eu tô cansada.
Por fim, parei de lutar contra as emoções que me esmagavam.
— Eu tô tão cansada e confusa.
Balancei a cabeça, sem ter o que fazer.
— Eu não consigo me recompor o dia inteiro.
Uma risada quebrada escapou dos meus lábios.
— Parece um pesadelo.
Puxei o ar, trêmula.
— Mas o problema é… eu não sei como acordar dele.
As lágrimas que eu estava segurando finalmente transbordaram de vez.
Eu não conseguia mais segurar.
Tudo dentro de mim parecia pesado.
Sufocante.
— Anna…
Apertei uma mão trêmula contra o peito.
— Eu não consigo respirar direito.
— Meu coração dói.
As palavras saíram aos pedaços.
— Tudo o que eu fiz foi amar o Seth.
Minhas lágrimas ficaram ainda mais fortes.
— Eu nunca dei motivo pra ele duvidar de mim.
Minha voz enfraqueceu.
— Eu amei ele.
— Eu cuidei dele.
— Eu queria que nosso casamento desse certo.
Enxuguei o rosto, sem jeito.
— Eu tentei… meu Deus, eu tentei tanto fazer dar certo.
Eu ri, amarga, no meio das lágrimas.
— Eu defendi ele na frente do meu pai.
— Eu me sacrifiquei.
— Eu fiz vista grossa pra coisas.
— Eu fiz tudo o que eu podia só pra manter a gente junto.
Minha voz caiu num sussurro dolorido.
— Mas… ainda assim não foi o suficiente.
Anna me envolveu num abraço apertado.
Ela me segurou enquanto eu chorava, fazendo carinho nas minhas costas, devagar.
— Tá tudo bem.
A voz dela estava suave agora.
— Eu sei o quanto você lutou pra salvar o seu casamento.
Ela se afastou um pouco para poder me olhar nos olhos.
— Mas nem todo casamento vale a pena ser salvo.
O maxilar dela ficou tenso ao mencionar o Seth.
Ela enxugou minhas lágrimas mais uma vez.
— E eu te prometo uma coisa…
A voz dela endureceu, com uma raiva protetora.
— Ele vai se arrepender de ter feito você passar por esse tipo de dor.
