Capítulo 1 Capítulo 1 Elise
Desde pequena, sempre sonhei em ser dançarina.
Mas meu destino parecia traçado para ser uma empresária de sucesso, em uma área da qual aprendi a gostar muito. Ainda assim, a dança continua sendo algo íntimo, onde posso ser eu mesma. Quem sou, por trás da CEO que me tornei?
Lembro da minha primeira apresentação e de como sempre tive o apoio dos meus pais e da família. Mas, assim que fiz 15 anos, meu pai me disse que eu não poderia seguir carreira como dançarina, pois estava apostando alto na minha chegada à empresa. Sei que os pais sempre querem o nosso bem e, por ser a mais nova, eu tinha mais responsabilidades.
Minhas irmãs, Ayla e Aysha, se desdobravam para acompanhar a empresa, mas, com filhos e maridos, aquilo era cansativo para elas. Meu irmão Ethan ainda era muito novo para assumir qualquer papel. Então, eu teria que renunciar ao meu sonho para não decepcionar principalmente meu pai, que sempre fez de tudo pela minha felicidade.
No dia em que meu pai me avisou sobre a empresa, eu estava concentrada nas apresentações de balé: uma turnê importante para a escola, Nos Passos do Coração. Quando ele me disse que aquelas seriam minhas últimas apresentações, senti um choque. Eu sabia que esse momento chegaria um dia, mas era difícil aceitar.
Minha mãe tentou interceder, mas meu pai não quis ouvir. Alegou que alguém precisava dar continuidade aos negócios, que Aysha e Ayla já estavam sobrecarregadas, e que nada mais justo do que eu assumir a frente da empresa, que seria minha por direito.
Naquele dia, senti meus sonhos se desmancharem. Eu não queria ficar na empresa; queria fazer um curso intensivo de dança, aprender outros ritmos. Mas meu pai não via as coisas desse jeito. Minha mãe pediu paciência, prometendo tentar me ajudar, pois sabia o quanto a dança era importante para mim.
Chorei, fiz birra, mas nada adiantou. Tive minhas últimas apresentações. Estela continuou no balé, mas dizia que não era a mesma coisa sem mim e eu também sentia falta.
Comecei a trocar a sala de dança pelo meio expediente no escritório. Eu não queria decepcionar meu pai, então tentei conciliar os dois mundos. Mas não passaram nem dois meses e eu já estava sobrecarregada: faculdade, aulas de dança e meio período na empresa. Havia dias em que não conseguia nem aproveitar a noite, de tão cansada que estava e ainda morava com meus pais!
Com o tempo, fui aprendendo a gostar e a me identificar com a área. No começo, tive a sorte de contar com minhas irmãs, que me apoiaram muito para que eu não ficasse tão sobrecarregada. Sou grata a elas por isso.
Quando chegou o dia de assumir a empresa, eu estava mais preparada. Sempre fui esperta, compreendo rápido e não desisto facilmente. Meu pai anunciou sua aposentadoria, dizendo que trabalharia de casa. Chegou a hora de dar meu sangue pela empresa e pela equipe.
Precisava fazer mudanças: algumas pessoas não aceitavam trabalhar comigo. Aos poucos, fui consolidando minha liderança. A área de publicidade ficou com Estela, que me ajudava, assim como minha tia Emma havia ajudado meu pai e o tio Enrico no passado.
Para Estela, era mais fácil conciliar as coisas, pois ela não ficava tão sobrecarregada quanto eu, que estava à frente de tudo. Qualquer problema, por menor que fosse, eu tentava resolver rapidamente. Não podia mostrar fraqueza diante de todos, nem dar motivo para usarem minha vulnerabilidade contra mim.
Segui firme no propósito da empresa, mas não estava feliz com o que vivia. Faltava algo que desse mais vida ao meu dia a dia. Parecia que minha existência havia perdido um pouco do brilho dos últimos anos. Nem mesmo as loucuras em família me deixavam plenamente contente.
— Filha! Elise, em que mundo você está? Já te chamei várias vezes e você não responde! — disse minha mãe, franzindo a testa, preocupada.
— Desculpa! Estava pensando em alguns assuntos que preciso resolver… — respondi, desanimada. Só com ela eu podia mostrar como me sentia.
— Filha, eu sinto muito por você ter parado de dançar, mas não desista do seu sonho, querida! — Amo esse jeito que minha mãe me enxerga.
— Ah, mãe… Tem dias em que eu só queria voltar a ser criança, quando podia fazer o que mais amava: dançar… — falei com a voz embargada, lembrando das minhas últimas apresentações, há dois anos.
— Elise, eu sei que é difícil, mas a sua hora vai chegar. Acredite! Seu pai só quer que você tenha um futuro sólido, que siga com a empresa da família. Daqui a alguns anos, tanto Olívia quanto Ethan também vão te ajudar.
— Ah, quando eles puderem me ajudar, eu já serei uma velhinha gagá! — brinquei, e minha mãe soltou uma gargalhada alta.
— Filha, falando assim parece até que seus irmãos nasceram ontem! Em cinco anos, eles já poderão acompanhar você na empresa.
— Desculpa, mãe, não quero parecer ingrata. Só que, para mim, ainda é difícil. Às vezes me pego pensando nos ensaios, nas apresentações… e sinto muita falta. — falei, pesarosa.
— Do que você sente falta, Elise? — perguntou meu pai, sentando-se ao meu lado no sofá do jardim.
— Eu só sinto falta de dançar… — comecei, mas ele me interrompeu.
— Filha, já conversamos sobre isso. No momento, você precisa focar na empresa — disse, sério.
— Eduardo! — minha mãe o repreendeu.
— Deixa, mãe. Eu já entendi. Não se preocupem. Pai, eu continuarei me dedicando — falei, levantando-me e deixando-os no jardim.
Ao entrar em casa, esbarrei em Aysha.
— Ei, o que aconteceu para te deixar com esse olhar triste? — perguntou, me encarando.
— Nada não, Aysha. — respondi, tentando fugir do olhar avaliador dela.
— Elise, você sabe que eu te amo, mas mente muito mal! Quer conversar? — insistiu, firme. Eu apenas a abracei forte e deixei que algumas lágrimas, que vinha segurando, caíssem.
— Tudo vai dar certo, irmã. Você precisa acreditar! — disse, repetindo o que mamãe havia falado.
— Eu estou tentando, irmã… — murmurei.
— Venha, você precisa do carinho da sua irmã! — disse, arrastando-me para o meu quarto.
Ri, porque tanto ela quanto Ayla faziam isso comigo, mas Aysha era a mais perspicaz: nunca errava quando o assunto eram sentimentos. Abri a porta e ela logo ajeitou a cama para que eu me deitasse em seu colo. Eu, uma mulher de 22 anos, no colo da minha irmã mais velha! Ri da situação.
— Carinho não tem idade! Mesmo quando eu for uma velha gagá, sempre terei colo para os meus irmãos, quando precisarem! — disse, fazendo-me chorar ainda mais.
— Você não existe, Aysha!
— Elise, sei que a vida adulta é um saco, falo por experiência própria, mas lembre-se: tudo tem um propósito. Nada vale a pena se for fácil demais. Sabemos o quanto você abdicou ao deixar a dança para assumir a empresa, e eu admiro a sua força e a mulher que você está se tornando! Um dia, você vai olhar para trás e verá o quanto realizou. Só não deixe que essa tristeza apague o seu brilho! — disse, tocando meu coração. Sou grata por ter uma irmã tão amiga e sábia.
— Eu sei, irmã, mas às vezes fica tão difícil suportar tudo isso… Bate uma tristeza imensa. Sei que tudo tem um propósito, mas esse fardo está me deixando cansada, Aysha — confessei.
— Eli, preste atenção: não deixe que a tristeza entre no seu coração. Não permita que a mágoa te domine. Sempre tire o melhor das situações, para superar sem cair no buraco da lamentação. Eu já passei por isso, e é difícil sair. Então, lute, corra, caia, levante… mas sempre sabendo que você faz a diferença! Pode parecer que nada faz sentido agora, mas em algum tempo você vai ver. E todos nós estaremos ao seu lado!
— Obrigada pelos conselhos, Aysha. Prometo pensar em tudo o que você me falou.
— Já é um bom começo! Espero que um dia possamos sorrir depois de toda essa tristeza que você vem sentindo.
— É o que eu mais espero.
— Agora preciso falar com os nossos pais. Tenho que voltar à vida adulta! — disse, me fazendo rir.
— É um saco ser adulta!
— Você deveria ser mais adolescente: sair, se divertir, dançar um pouco, aproveitar! Você está na idade, Eli, aproveite! — Aysha falou, arrancando mais risadas minhas.
— Vou pensar, prometo.
— Acho que vou falar com a Lore para te dar uns conselhos… ela sabe como deixar meu marido de cabelos em pé!
— Não fale isso da minha sobrinha! Ela é tão calma! — provoquei.
— Vai sonhando! Agora ela está tranquila… o Yan que o diga! — disse, saindo do quarto enquanto eu ria.
Fiquei pensando em tudo o que Aysha disse. Eu não podia deixar de viver. Precisava aproveitar um pouco mais o lado bom da vida.
