Capítulo 2 Capítulo 2 Elise
Depois da conversa entre Aysha e minha mãe, fiquei pensando: será que tudo o que estou passando tem mesmo um propósito?
Porque, sendo bem sincera, agora, neste exato momento, tudo isso está me deixando louca! Não poder fazer algo que amo tanto: dançar!
Eu sei de todos os sacrifícios que a minha família faz para manter a empresa e a união entre nós. Posso dizer que já passamos por um pouco de tudo! É traumatizante às vezes, mas, com o tempo, conseguimos superar cada obstáculo que aparece no nosso caminho.
Só para vocês terem uma ideia: quando eu tinha apenas nove anos, fui sequestrada junto com minha irmã Aysha e nossa tia Emma. Foi um dos piores dias da minha vida. Lembro de tudo o que passamos nas mãos daqueles vermes, das coisas horríveis que diziam e do que quase aconteceu com minha irmã. Infelizmente, até hoje, em alguns dias, tenho pesadelos com essa cena, e isso ainda dói muito. Mas, com o passar do tempo, consegui superar essa dor. Pode não parecer, mas tenho duas fortalezas ao meu lado: as gêmeas que mais amo na vida, minhas irmãs Aysha e Ayla.
Quando fui crescendo, eram com elas que eu sempre conversava, pedia conselhos ou até mesmo “assaltava” a geladeira! Esse lado, aliás, é mais a cara da Ayla, a formiga número um da família! Eu só sigo seus passos.
Foi com elas que aprendi muitas coisas, principalmente a valorizar cada momento que passamos juntas. Pode não parecer, mas sempre tentamos manter nossa rotina simples. Não somos pessoas que valorizam o dinheiro, mas sim os momentos que nos fazem bem.
Não posso dizer que não gosto de ter dinheiro, mas acredito que, às vezes, a riqueza cega muitas pessoas, atraindo gente sem caráter.
Por isso, comigo não tem essa de “não vou andar com alguém porque é simples”. Vou, sim, e ainda dou apoio, porque acredito que muitas pessoas só precisam de um incentivo para crescer. Tento sempre enxergar o lado bom de quem se aproxima de mim. É por isso que amo cada instante que passo com minha família.
Quando comecei a me descobrir como mulher, sempre conversava com elas e com minha mãe. Posso dizer que dona Maya é uma mãe incrível, como meus irmãos costumam falar hoje em dia. Eu não poderia ter um espelho melhor na vida.
Meu pai sempre teve participação na minha vida, mas isso só começou mesmo depois que Maya entrou para nossa família.
Talvez vocês não saibam, mas minha mãe biológica, Sophia, morreu no parto. Eu sei que é um momento triste da minha história, mas meu coração só se acalmou quando percebi o quanto fui desejada por ela e pelo meu pai. Infelizmente, um ser humano inconsequente causou o acidente que colocou a vida dela em risco.
Foi assim: eu nasci no mesmo instante em que minha mãe partiu para me dar a vida. Sou eternamente grata a ela por isso. No começo, sentia muita falta dela, mas, com o tempo, aprendi a aceitar sua partida. Sempre a imaginei cuidando de mim lá de cima. Eu sabia o quanto meu pai a amava.
Com a chegada de Maya, quando pensei que nunca teria outra mãe, ela conquistou meu coração sem nem mesmo saber de quem eu era filha. Ela sempre chamava meu pai de “senhor ogro” um apelido carinhoso que até hoje usam.
Hoje, muita gente acha que sou filha biológica dela, e sou grata por isso, porque Maya supre tudo o que uma mãe pode ser para uma filha. Além disso, ganhei as duas irmãs mais incríveis do mundo! Ela nunca mede esforços para estar ao meu lado e cuidar de mim. Sempre serei imensamente grata.
Quando tive minha primeira vez, contei logo para minha mãe. Foi com um garoto da escola, eu tinha acabado de completar 17 anos. Na época, ela já desconfiava do meu comportamento. Tanto ela quanto minhas irmãs sempre tiveram conversas abertas comigo. Acredito que isso vem desde sempre. Elas nunca me colocaram de lado quando o assunto era namorado ou algo mais “quente”. Sempre me alertavam, explicavam como as coisas deveriam ser.
Elas me ensinaram, acima de tudo, que um garoto deveria me tratar com respeito e que eu nunca deveria aceitar menos do que o que meu pai sempre me ofereceu: zelo, carinho e amor. Ele sempre foi o espelho do que um dia eu deveria encontrar.
Elas queriam, acima de tudo, que eu nunca passasse por nenhum tipo de abuso. E eu entendi, ficando atenta a cada gesto dos meninos comigo.
No entanto, minha primeira vez foi um desastre! Lembro que contei para minha mãe e ela teve uma crise de riso, porque, de fato, foi bem estranho. Acho que o garoto que escolhi para perder a virgindade não era nem metade do que dizia ser.
Sabe aqueles meninos que falam muito e não fazem nada?
Pronto, era esse! Aff… nem gosto de lembrar do momento constrangedor.
Depois desse episódio cômico, fiquei muito mais atenta antes de ter algo com outro garoto. Não queria passar por outra experiência frustrante!
Mas, para falar a verdade, eu quase não tinha tempo para sair. Por isso, aos 22 anos, ainda posso ser considerada virgem: só tive dois garotos com quem fui além, e nenhum deles me proporcionou o que minhas irmãs e amigas descreviam.
Ayla até já me alertou que nem todos os homens sabem como agradar uma mulher, que muitos só se preocupam com eles mesmos e eu concordo! Nesse dia, fiquei vermelha como uma pimenta quando ela disse isso na frente da minha mãe e das minhas tias! Mas adoro esses momentos só de mulheres; eles ajudam a aliviar a rotina. Sempre que posso, participo.
Aí vocês devem estar pensando:
“Sério, Elise?
Você não curte sair?
Você é muito nova, tem que aproveitar a vida!”
Eu até concordo!
Mas minha vida é tão corrida que às vezes esqueço até de comer. Mesmo depois de terminar os estudos e a faculdade, ainda faço cursos para me aperfeiçoar na área de tecnologia. Como CEO, preciso dominar esse mundo!
É como vender um bolo: preciso saber como ele é feito, o sabor, as qualidades dos produtos. Só assim posso vendê-lo. É o mesmo com a empresa da família: preciso estar por dentro de tudo.
Trabalho em horário integral e ainda faço cursos extras. Tem dias que só chego em casa para dormir! Sendo sincera, às vezes desligo o celular para a Estela não me encontrar.
Mas esse segredo fica só entre nós, hein?
O problema é que Estela está ficando esperta. Sempre aparece no meu quarto. Às vezes consigo inventar desculpas, mas nem sempre cola!
Como agora, por exemplo: ela está revirando meu closet em busca de uma roupa para eu sair.
Ganhou duas entradas para uma boate que será inaugurada, e o dono é bem conhecido por nós duas. Ele sempre teve uma queda por Estela, mas ela nunca quis nada com ele, dizendo que ele é “galinha”. Tenho que concordar, mas ela sabe lidar com ele perfeitamente embora tenha receio.
— Estela, vai você! Me deixa aqui, eu preciso descansar! — falo pela décima vez. E o que ela faz? Nada! Continua no meu closet enquanto eu estou jogada na cama, tentando relaxar depois de um dia estressante. E olha que hoje ainda é quinta-feira!
— Elise, às vezes você me cansa! Acho melhor ligar para Aysha e Ayla me ajudarem! Você está um saco de tão chata hoje! — grita ela lá de dentro, e isso me faz rir. Está determinada a me tirar de casa.
— Nem invente! Todos os dias, Aysha insiste para eu sair e Ayla quer me arrumar um namorado. Eu não tenho tempo nem para ir ao banheiro, imagina para um namorado! — digo, indignada, enquanto Estela cai na gargalhada.
— Elise, você precisa beijar na boca, dançar um pouco! Olha, que tal esse vestido? — pergunta, mostrando dois modelos. Um deles, vermelho e colado ao corpo, chama minha atenção.
— Você venceu! Mas volto cedo para casa, já estou avisando, porque amanhã acordo cedo para trabalhar! — sei que ela não vai me deixar em paz enquanto eu não for com ela. E, ainda por cima, inauguração de boate na quinta-feira?
Só o Kendreck mesmo!
Aposto que vai estar vazia, e eu poderia estar na minha cama!
— Não tem problema, você vai chegar cedo — diz ela, com um ar suspeito.
— Estela, hoje você está sem graça! — falo, porque conheço suas intenções.
— Vai, para de drama e vai se arrumar! Quero você a mais linda de todas! — responde, empolgada demais para o meu gosto.
Vou até ela, lançando um olhar matador, pego o vestido e sigo para o closet para pegar uma calcinha que não marque. Depois, caminho até o banheiro. Se é para sair, que seja com estilo!
Ela tem razão: eu preciso sair um pouco, ou vou acabar surtando de vez.
Quem sabe essa inauguração não me anima?
Suspiro fundo e sigo para o banheiro, ainda pensando na boate que provavelmente vai estar vazia.
