Capítulo 3 Capítulo 3 Bernardo

Ainda consigo me lembrar da última vez que briguei com meu pai naquela casa.

As discussões sempre foram constantes: ele fazia questão de negar qualquer pedido meu. Sempre fui fascinado por games e números, áreas com as quais eu realmente me identificava, mas ele dizia que era perda de tempo. Por ser meu pai, eu deveria apenas obedecer principalmente na casa do senhor Bruno, onde ninguém podia contrariar suas vontades.

E, como eu era o único filho homem, “o herdeiro” deveria assumir a empresa da família para manter o padrão que ele julgava essencial. Ele queria que eu fizesse o nome dele crescer cada vez mais, custasse o que custasse.

Quando cheguei ao último período da faculdade, já não me sentia bem com aquilo. Foi então que entrei, por acaso, em uma aula que me chamou a atenção. Ali descobri o quanto amava trabalhar com tecnologia. Passei um tempo frequentando aquelas aulas para ter certeza do que queria. Posso afirmar: nunca me senti tão em casa quanto ao mexer naquelas máquinas, invadindo sistemas, me perdendo naquele universo.

Meu professor percebeu o quanto eu dominava o conteúdo, apesar de ter começado havia pouco tempo. Ele disse que eu tinha muito talento para a área e não estava mentindo. Decidi contar para meu pai o quanto me destacava, mas ele não aceitou. Gritava que eu deveria fazer apenas o que ele mandava. Isso me despertava um ódio estranho. Pela primeira vez, eu me sentia um fantoche, sem voz, sempre obrigado a responder: “Sim, pai. Ok, pai.” Mas, dessa vez, eu não podia me calar.

Ele me tratava como se eu ainda tivesse dez anos. Não podia mais aceitar. Foi quando me expulsou de casa por enfrentá-lo. Achei que ele nunca teria coragem de fazer isso comigo, mas fez. Minha mãe implorou para que ele mudasse de ideia, mas ele estava irredutível. Fui até meu quarto, joguei algumas roupas e meus equipamentos eletrônicos numa bolsa. Doeu ver minha mãe chorando, pedindo que eu cedesse, pois não queria me perder de vista. Mas eu não podia ficar. Prometi que, um dia, ela teria orgulho de mim custasse o que custasse.

Saí de casa sem olhar para trás. No início, não sabia o que fazer. Tinha apenas dezessete anos. Sabia que havia dinheiro na minha conta, mas também tinha certeza de que meu pai faria questão de bloquear meus cartões.

Minha sorte foi a prima da minha mãe, a quem eu chamava de tia. Fui até sua casa e ela me acolheu. Ela e o marido moravam em um bairro simples, mas me receberam de braços abertos. Expliquei o que havia acontecido, e eles me deixaram ficar. Sentia-me bem ali. Meus primos eram mais novos; raramente íamos visitá-los, porque meu pai desprezava a classe social deles algo que, para mim, nunca importou. Eu sempre valorizei o caráter.

Com o tempo, minha tia me ajudou a pagar a faculdade e eu consegui um emprego de meio período em uma empresa de tecnologia. Juntei uma boa quantia. Falava, às vezes, com minha mãe, só para que ela não se preocupasse. Eu poderia ter pedido abrigo ao meu amigo, Miguel. Mas não queria criar problemas para ele nem para sua família meu pai faria da vida deles um inferno.

Foi nessa fase que descobri meu gosto por tatuagens. A primeira que fiz foi uma rosa com a inicial da minha mãe: ela sempre estaria comigo. A segunda foi dedicada à menina que aquecia meu coração desde o dia em que a conheci. Eu tinha apenas onze anos, mas sentia algo diferente perto dela. Só minha mãe sabia disso. Quando contei que havia conhecido a prima do Miguel, ela fez questão de conhecê-la pessoalmente.

Miguel percebeu logo o jeito como eu tratava Elise. Sempre soube da minha paixonite pela prima dele. Com o tempo, acabamos nos afastando, mas tentei manter contato. A última vez que os vi foi por acaso, em uma viagem. Eu tinha dezesseis anos; ela, quatorze. Quando a vi, meu coração quase saiu pela boca. Quis falar com ela, mas fiquei sem ação. Estava linda… mas eu sabia que nada daria certo.

Em sua homenagem, tatuei um símbolo do infinito com a inicial de seu nome, em chinês. Poucos entenderiam, mas ela estaria comigo para sempre. Depois dessa, tatuagem virou vício: cada uma no meu corpo carrega um significado.

Anos se passaram. Concluí a faculdade, comecei a oferecer meus serviços e, aos poucos, montei minha primeira equipe. No início éramos apenas seis. Não foi fácil, mas conseguimos manter a qualidade. Um dos integrantes sugeriu abrir uma pequena empresa. Ele não queria ficar à frente, então deixei Thiago assumir. Tornei cada um sócio: era justo, já que crescemos juntos.

Com isso, pude ajudar os tios que me acolheram. Depois viajei ao exterior para me aprimorar ainda mais. Lá, fiz o nome da minha empresa brilhar, levando tecnologia de ponta para grandes marcas.

Mesmo assim, sentia falta da minha mãe. O aniversário dela se aproximava, e um contrato importante estava terminando. Decidi fazer uma surpresa para dona Helena, que nunca desistiu de mim, mesmo contra a vontade do marido. Ela sempre acreditou em mim e eu a admirava por isso.

No dia marcado, quando o avião pousou, senti-me em casa. Haviam se passado dois anos. Avisei minha tia que havia chegado e fui para o apartamento que aluguei antes de viajar. Tomei um banho rápido e, apesar do cansaço, peguei um carro rumo ao condomínio da minha mãe. Não era fácil voltar àquele lugar, mas eu faria qualquer coisa para vê-la.

Ao chegar, o porteiro quase não me reconheceu. Quando disse meu nome, ele sorriu e liberou minha entrada. Respirei fundo ao parar diante da casa onde cresci, hoje cheia de lembranças amargas. Toquei a campainha.

Uma moça abriu a porta, esperando que eu me apresentasse.

— Gostaria de falar com a senhora Helena.

— Quem deseja?

— O filho dela, Bernardo.

— Ah, sim! Entre, senhor. Ela está na sala.

Entrei e parei, surpreso, ao ver minha mãe conversando com algumas pessoas. Ela me olhou, incrédula, e abriu um enorme sorriso antes de me abraçar.

— Meu filho! Que saudade, meu amor! — disse, segurando meu rosto.

— Também, mãe. Parabéns! — respondi, abraçando-a mais forte, enquanto percebia meu pai, parado no canto, cheio de raiva.

Minha mãe, emocionada, fez várias perguntas:

— Quando você chegou? Como está, meu amor?

— Cheguei agora há pouco, mãe. Pensei que estivesse sozinha… melhor eu voltar outra hora. — falei, evitando qualquer cena.

— Não, querido, venha cumprimentar nossos convidados! — insistiu ela, animada.

Quando ouvi uma voz conhecida perguntando quem eu era, olhei e vi, diante de mim, a mãe do amor da minha vida: Maya.

— Esse é o Bernardo, Maya! — disse minha mãe, orgulhosa. — Lembra dela, filho?

— Boa noite, senhora Maya, senhor Eduardo! — cumprimentei-os, sorrindo. Maya me recebeu com entusiasmo, enquanto Eduardo apenas me observava.

Despedi-me logo depois, prometendo buscar minha mãe no dia seguinte para passarmos o fim de semana juntos.

No dia seguinte, cumpri a promessa. Passeamos, almoçamos, compramos presentes, e terminamos na praia nosso refúgio desde que eu era criança. Caminhamos e conversamos muito. À noite, estendemos o programa num barzinho com música ao vivo. Ela me fez cantar; no início, foi vergonhoso, mas acabei me soltando, e o público pediu bis.

Foi lá que conheci Caio, que me perguntou se eu tinha interesse em cantar profissionalmente. Eu já tinha bebido algumas cervejas e disse que pensaria. Ele pegou meu número. Assim nasceu “Tyler”, o rapper.

De início, estranhei esse mundo, mas logo mergulhei nele: shows, festas, mulheres, drogas. Foram três meses insanos. Apesar do sucesso, eu não me reconhecia no palco. Tyler parecia outra pessoa, agressiva, distante. Elise continuava sendo meu porto seguro, mesmo sem saber.

Cansado, quis parar, mas Caio sempre arrumava mais contratos. Passei a duvidar se ele era mesmo meu amigo ou apenas queria dinheiro. Então, recebi uma mensagem da minha mãe: estava doente e queria me ver. Tentei ligar, mas só dava caixa postal. Mandei um recado dizendo que voltaria o mais rápido possível.

Contei a Caio que não assinasse mais nada: precisava voltar ao Brasil. Ele ficou furioso, falando sobre dinheiro e dizendo que meu pai garantiria o melhor tratamento para minha mãe. Não aguentei: quase parti para cima dele.

Como ele podia falar em dinheiro enquanto minha mãe sofria?

Eu precisava voltar. Essa doença era o empurrão que faltava para sair daquele abismo. Eu tentaria, mais uma vez, retomar minha vida e acertar.

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