Capítulo 1 Julia se mete em uma enrascada

Giulia Rossi sentiu o pânico gélido se espalhar pelas veias ao notar a solitude do beco escuro. Retirou os fones de ouvido que, até poucos segundos atrás, tocavam uma melodia alegre, e encarou a paisagem se transformar em ruas degradadas e sombrias.

A prudência gritava para que voltasse, e a ideia de recuar pareceu a melhor escolha durante os breves segundos em que hesitava; contudo, já era tarde demais — sobretudo quando um homem de aspecto ameaçador passou a persegui-la.

Uma jovem de sua posição jamais deveria caminhar sem a escolta dos seguranças. No entanto, ela não os encontrou quando decidiu retornar à mansão em Bel Air. De qualquer forma, eram eles que deveriam tê-la esperado, e agora ela se encontrava em uma verdadeira enrascada.

A bela jovem olhou por cima do ombro, sentindo a presença sombria em seus calcanhares. A cada passo que dava, o odor acre e nauseante do homem parecia impregnar-lhe as narinas.

— Ei, gata. Eu tenho pau de sobra para essa sua bunda! — o homem gritou à distância.

Giulia arregalou os olhos claros, alarmada, e virou a cabeça por dois segundos para encarar aquele viciado atrevido.

— Vai se ferrar! — vociferou ela.

O desgraçado pareceu se ofender com o desprezo. E, no exato momento em que o fone de ouvido escapou das mãos trêmulas de Giulia, o agressor encurtou a distância.

Ela tentou se afastar rapidamente, mas mãos imundas a agarraram com força bruta.

— Ai, meu Deus! — Giulia gritou em meio ao susto.

— O que você disse? Repete! — Ele a encarou com olhos tomados por um desafio insano.

Giulia Rossi não era o tipo de garota acostumada a se curvar. Como membro da máfia, deveria saber que andar por aquele território era uma péssima ideia. Mas tudo em que conseguiu pensar foi no lamento de ter ouvido o pai para deixar sua pistola semiautomática em casa.

— Me solta!

— Ou o quê? O que você vai fazer, garotinha?

— Se você não me soltar, vai se arrepender amargamente. É o meu último aviso.

O homem a prensou contra a parede fria, enquanto tentava inutilmente abrir a calça com uma das mãos, trêmula pelo vício. Parte daquela decadência era culpa do pai dela: o capo Rossi era o único responsável pelo fornecimento de drogas naquela região, e a criminalidade havia disparado fora de controle.

Ela praguejou mentalmente. Tinha acabado de fazer as unhas e agora as estragaria na pele de um homem inútil.

— Agora você vai ver. Vou te mostrar o que é um homem de verdade, putinha. — Ele passou a língua pelos lábios sebosos, babando algo que Giulia não pôde identificar.

Giulia só conseguiu olhar para o interior da boca daquele homem repugnante e notar a falta de dentes. O hálito fétido, contudo, como se ele se alimentasse de lixo, parecia infinitamente pior do que a aparência.

O som do zíper se abrindo fez com que ela arregalasse ainda mais os olhos Claros. A perspectiva de ter sua primeira vez daquela maneira horrível, com uma criatura tão grotesca, a paralisou de horror. Como uma garota da máfia, ela sabia que, no momento em que se entregasse a alguém, perderia todo o seu valor para um casamento político. Tentando não desistir, concentrou-se nas aulas de artes marciais que aprendera com o irmão mais velho. A execução não parecia tão simples quanto nos treinamentos, mas ela ainda tentava manter o controle.

O agressor arrastou a língua nojenta pelo pescoço dela e rasgou a blusa cara que Giulia vestira de manhã para visitar as crianças do orfanato.

Era como um pesadelo. Ela estava horrorizada, mas permanecia orgulhosa demais para chorar ou implorar.

— Me solte! Você não tem ideia de quem é a minha família.

— E você não sabe quem é a minha! — debochou o viciado.

Giulia balançou a cabeça em negação, enquanto mantinha os pulsos presos acima da cabeça.

De repente, um impacto brutal cortou o ar. Antes que pudesse compreender a rapidez dos eventos, o agressor foi arremessado ao chão, caindo completamente desacordado, como se tivesse morrido instantaneamente.

O rosto de Giulia virou-se quase em câmera lenta na direção da figura que surgira das sombras. Seus olhares se cruzaram como chamas incandescentes.

Leoni Messina possuía um olhar gélido, penetrante e perigosamente atraente, ostentando a postura dominante de um homem imperioso, embora ainda fosse um completo desconhecido para ela.

— Obrigada. Eu não sabia mais o que fazer — admitiu ela, voltando a encarar o homem desacordado no solo.

Leoni apenas assentiu com uma rigidez calculada, aparentando indiferença diante das palavras da moça, mas a intensidade no fundo de suas pupilas revelava uma intenção sombria e faminta.

— Que seja.

— Ei, estou te agradecendo. Seja educado.

— Você não teria que me agradecer se não estivesse se colocando em perigo desse jeito.

Giulia entreabriu os lábios, embasbacada. Como aquele homem podia ser tão perturbador e petulante logo após salvar sua vida?

— Você não pode falar assim comigo. Se não queria me ajudar, por que veio?

— Ih, a mocinha ficou brava... — zombou um outro rapaz ao fundo.

Foi a primeira vez que Giulia viu um breve e sombrio esboço de sorriso nos lábios daquele homem impressionante. Ainda assim, ele mantinha a expressão severa e intimidante estampada no rosto.

— Ela não teria que ficar brava se fosse responsável com a própria vida.

Leoni pareceu distraído ao encarar o próprio punho levemente machucado, mas o tremor em suas feições denunciava um prazer contido pela violência.

— Minha vida? Você não me conhece, não sabe nada sobre mim. E, para a sua informação, eu só estava...

Ele soltou um riso baixo, sem qualquer humor.

— Eu não te perguntei nada, senhorita Rossi.

Ela sentiu a menção ao seu nome como uma provocação mortal.

— Você é sempre insuportável desse jeito ou só está de mau humor hoje?

Giulia deslizou o olhar para o jovem de terno ao lado do seu salvador, que tentava esconder o riso por trás dos dedos repletos de anéis.

Contudo, com a mesma rapidez com que a havia salvo, Leoni encurtou a distância. Em um movimento fluido e dominador, ele a agarrou pelos pulsos e a prensou com firmeza contra a parede fria de tijolos.

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