Capítulo 2 2
Lilian
— É sério, Lilian. Quem sabe ele te ajuda a esquecer aquele brasileiro idiota e injusto?
Reviro os olhos, mas internamente. Não quero que ela saiba que essa insistência me irrita.
— Você fala como se eu não tivesse tentado. — Um tom amargo sai da minha garganta.
Cris quebranta o olhar e se aproxima de mim.
— Amiga, eu sei que você tentou. E que está tentando. Mas você precisa ser mais determinada. Largar o passado e voltar a viver. Porque a vida continua, Lilian e sinceramente, talvez aquele imbecil do seu ex já tenha até seguido em frente.
A pior parte é que ela pode ter razão. Já se passaram quatro anos e ele provavelmente já pôs outra em meu lugar. Talvez até já se casou e tenha filhos com ela.
— Amiga, eu só quero o melhor pra você.
— Eu sei — sussurro, cansada. — Me desculpa, Cris. E quer saber?
— O quê?
— Tudo bem o Peter ir ao bar essa noite.
Cris abre um sorriso largo.
— Sério?
Meneio a cabeça em um sim, embora tudo dentro de mim esteja gritando… AINDA NÃO!
— Sério. Quem sabe seja um recomeço?
— É assim que se fala, amiga linda!
Empolgada, ela me abraça e beija o meu rosto.
— Mas não se atrase, hein? E, principalmente, não desista de ir. — Então ela sai tão rápido quanto entrou.
Mas essa agora. Espero não me arrepender dessa decisão.
— Pronta para mais um turno, doutora?
Pergunta Karla, entrando logo em seguida e algumas horas depois, estou finalizando os relatórios e arquivando alguns prontuários no sistema. E, quando finalmente desligo o computador, guardo tudo e pego a minha bolsa. Na garagem, destravo meu carro — um HR-V prata, quatro portas — e em poucos minutos chego ao meu apartamento, que fica de frente para uma das praças mais movimentadas de Nova York.
Escolhi esse lugar pela praticidade: ele perto do hospital e longe do trânsito caótico. Assim evito atrasos e o estresse diário da cidade. Não demora e eu adentro a sala pequena, porém, sofisticada e vou direto para o banho. Largo as roupas dentro de um cesto e deixo a água morna lavar o meu cansaço e talvez, as dúvidas também. Horas depois, já estou pronta para uma noite de distração.
Encaro meu reflexo no espelho.
— Ok, isso não é exatamente um encontro, Lilian — digo para mim mesma enquanto estaciono na frente do bar. — Sem falar que o Peter é um cara legal.
Muito legal. Penso. E você não pode machucar o coração dele. Mas talvez ele também seja a salvação do seu.
Solto um suspiro nervoso.
— Droga, estou nervosa.
Respiro fundo algumas vezes e, mesmo tentada a desistir, acabo entrando no prédio.
— Olha ela aí! — Cris grita mais alto que o som, levantando-se do banco alto para me abraçar.
— Achou que eu não viria?
— Quer saber a verdade? Eu achei sim.
Pois é, ela me conhece bem demais.
— Doutora? — diz Antony, um colega do hospital.
— Ah, oi, Antony.
— É um milagre ver você por aqui.
— Viu? Ele também achou que você não viria — provoca Cris.
Reviro os olhos e tento parecer à vontade.
— O que vai pedir?
— Qualquer coisa alcoólica — retruco.
— Amiga, eu vou dançar. Tudo bem? — Minha amiga avisa tempos depois. — Fique um pouco com o doutor gostosão. — Ela lança um olhar travesso para Peter, e ele se senta do meu lado.
— Tudo bem. Vai se divertir.
Ergo o meu copo para ela em comemoração.
— Lilian Alcântara!
— Doutor Peter!
— Apenas Peter. — Ele pede.
Fixo o meu olhar no meu copo.
— A propósito, você está linda! — Olho para ele.
— Obrigada… Peter! — Me forço a usar um tom informal. — E você está… elegante.
— Ah, isso foi um elogio? — Ele brinca. Sorrio.
— Com certeza.
Bebo um gole da minha bebida.
— Nesse caso, obrigado! — Ele sorri.
Encontros. Há quanto tempo não tenho um? Céus, são quatro anos sem sexo casual beijos casuais, flertes… acho que estou enferrujada. Não sei o que dizer e nem como agir com um homem tão lindo e enigmático do meu lado.
Isso é ridículo!
— Você quer dançar?
O meu corpo e a minha mente dizem que sim. Mas o meu coração está me dizendo: se afasta, ele é só mais um.
— Oh… é… se importa se ficarmos aqui mesmo? — Ele arqueia as sobrancelhas. — É que… eu estou cansada.
Sério, Lilian? Cansada? Essa foi boa.
— Tudo bem pra mim — Peter aceita tranquilo.
Esvazio o meu copo e faço sinal para o garçom trazer outro.
— O que acha de sairmos desse barulho? — sugere.
Oh Deus, isso não é um crime!
Eu estou sozinha. SOLTEIRA. Precisando de atenção e carinho. Então por que sinto que estou violando a regra mais importante do universo?
— Oh, devagar aí, doutora! — Peter retruca quando dou um gole grande na bebida que o barman acabou de arrastar pelo balcão. No ato, ele toca no meu braço. E instintivamente me afasto. — Me desculpe, eu não queria…
— Está tudo bem, Peter! — murmuro com desgosto.
Respiro fundo.
— Acho melhor eu ir.
Fico imediatamente de pé e entorno o resquício da bebida me minha boca.
— Mas, eu pensei que estivesse gostando da minha companhia.
— E estava… digo, estou. — Suspiro cansada. — Não é você, Peter. Sou eu, entende?
— Não, eu não entendo. Mas tudo bem, Lilian. Eu não quero forçar nada.
Apenas faço um sim com a cabeça.
— Pelo menos me deixe levá-la pra casa?
— Estou de carro — ergo a chave em resposta.
Ele assente, pressionando os lábios.
— Tudo bem.
— Desculpa! — repito, antes de me afastar.
E pela primeira vez em muito tempo, sinto um vazio diferente dentro de mim — o de quem ainda não aprendeu a deixar o passado ir.
