Capítulo 3 3

Kevin

— Mandou me chamar, Senhor Lacerda?

— Sim, Karla. Preciso que ligue para os irmãos Maskovits. Avise que chegarei um pouco atrasado para o almoço. Uns vinte minutos no máximo e estarei lá — peço para a minha secretária.

— Certo, senhor Lacerda.

— Obrigado, Karla!

Ela fecha a porta, e eu volto a minha atenção para os contratos que estão espalhados sobre minha mesa.

Desde que me formei em administração em uma das melhores universidades do Brasil, meu pai decidiu se afastar da presidência da empresa, deixando-me no comando. Tornar-me CEO dessa rede de tecnologia consumiu cada minuto da minha vida. E confesso que quase não tenho vida social, embora, tenha alguns escapes nos finais de semana com meu melhor amigo Ricardo Rosa. A verdade é que ele é mais que um amigo para mim. Ricardo como um irmão. Foi ele quem me sustentou nos meus momentos mais sombrios, quando quase cometi uma loucura com a minha própria vida.

Desde então, evito pensar no maldito dia que ela destroçou o meu coração. Nem pensar no que ela fez comigo.

— Até que enfim — resmungo, organizando alguns documentos dentro da minha pasta e saio apressado do escritório, para ir a um restaurante italiano, que fica na avenida principal do Rio de Janeiro.

Se fechar este contrato com os irmãos Maskovits, a empresa alcançará um patamar ainda mais elevado no ranking internacional de tecnologia. A empolgação cresce dentro de mim a cada passo, e quando chego ao restaurante, sou recebido por uma brisa suave que vem do mar.

O maître me conduziu até uma mesa, onde os irmãos me aguardavam. Yuri Maskovits tinha feições duras e um olhar rígido. O cavanhaque que contornava seu queixo reforçava sua expressão séria. Romão Maskovits, por outro lado, era mais cordial e falante, sempre com um sorriso pronto.

— Bom te ver de novo, Kevin Lacerda. — Romão diz, apertando minha mão. — Fiquei feliz de saber que viria pessoalmente para essa reunião.

Os irmãos e eu somos amigos desde o intercâmbio que fiz na Rússia anos atrás. Desde então mantemos contato, e agora eles seriam alguns dos meus clientes mais importantes, representando nossa empresa em seu país.

— Jamais enviaria um assessor para atendê-los — retruco com entusiasmo. — Assim podemos discutir negócios, e ainda, matar a saudade dos velhos tempos.

— Claro, será um prazer relembrar as nossas experiências na Rússia — Yuri rebate, gesticulando para o garçom.

Durante o almoço, discutimos sobre a nova tecnologia da empresa: um microchip capaz de rastrear e localizar pessoas sequestradas ou desaparecidas. Os Maskovits administram uma rede de empresas de segurança internacional, protegendo pessoas importantes, desde artistas renomados até políticos. Eles se mostraram extremamente entusiasmados com o avanço dessa tecnologia, que não apenas facilitaria o trabalho deles, mas também elevaria nossa empresa no quesito segurança.

Após demonstrar todos os pontos positivos do microchip, fechamos um contrato anual estimado em bilhões de dólares. Em seguida, conversamos sobre os tempos do intercâmbio, quando fui hóspede na casa dos pais deles. Entre risadas e lembranças, brindamos algumas doses de uísque e aproveitamos o prazer de uma conversa entre amigos.


Uma hora depois…

Na empresa, sigo tarde adentro entre uma reunião e outra. E perto das dezoito horas já estou exausto e dirijo direto para o meu apartamento. Um banho longo e frio deve me ajudar a relaxar um pouco. E, droga, não posso me esquecer que preciso ir jantar na casa dos meus pais. Pois é, isso ocorre todas as sextas-feiras. Um encontro de família para jogar conversa fora e aproveito para me reunir com o meu pai e informar-lhe sobre o andamento dos negócios. Contudo, mamãe insiste que esse encontro mantém a família sempre unida.

— Filho, você demorou. Pensei que não viria.

Dona Célia Lacerda me recebe como sempre com um abraço carinhoso, dando-me espaço para adentrar na casa em seguida. Meus olhos percorrem ávidos pelo lugar onde passei dias felizes da minha infância e adolescência.

— Desculpe a demora, mãe! — peço com carinho. — Tive um dia cheio na empresa. Mas tenho muitas novidades para contar. — O entusiasmo sobressai a minha voz. — O Senhor vai gostar de saber dos novos contratos que conseguimos para nossa empresa — digo, aproximando-me do meu velho para abraçá-lo.

— Depois do jantar, filho. — Papai resmunga. — Agora quero saber como você está? — Ele pede quando se afasta do meu abraço, olhando-me sério.

— Estou bem, pai. O Senhor sabe, vivendo a vida como sempre.

— E a vida social? — Karina, minha irmã caçula pergunta enquanto desce as escadas e sorridente, me abraça em seguida.

Reviro os meus olhos para esse seu questionamento.

— O que tem a minha vida social, Karina? — inquiro um tanto tom seco.

— Quero saber se você tem saído? Se está namorando alguém? Essas coisas. — Ela faz uma careta. — Não vai me dizer que continua se afundado em trabalhos? — ralha.

— Para o seu governo, a minha vida social vai muito bem, maninha. Obrigado por se preocupar! — retruco, deixando um beijo na sua testa e me afasto. — Você não tem que se preocupar com isso — resmungo e abraço minha mãe com muito carinho.

Falar da família Lacerda é bem fácil. Somos uma família unida e estamos sempre preocupados com o bem-estar um do outro. E esse é o motivo de tantas especulações.

— Sabe que eu me importo com você, meu querido. Sempre — Ela fala e beija a minha bochecha, abraçando-me outra vez. Dessa vez, fica colada a mim por mais tempo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo