Capítulo 4 4
Kevin
— Mas não precisa, Karina. É sério, eu estou bem.
Maria, nossa empregada de anos aparece na sala e avisa que o jantar já está servido. O que me anima bastante, porque adoro a comida que ela faz. E, nossa, estou faminto!
— Vamos, quero me sentar do seu lado na mesa e saber mais sobre a sua vida.
Minha irmã me puxa para a sala de jantar e eu penso que ela não vai largar esse osso. Entretanto, fico feliz que ela sequer mencionou as palavras namoro, casamento e filhos na mesa. Um jantar como sempre animado e cheias de conversas.
— Sabia que a Lilian está vindo para o Brasil?
Mamãe solta de repente e imediatamente os meus dedos pressionam o copo com força. O silêncio que se instala é insuportável e os olhares deles em cima de mim me sufoca.
— Eu não… sabia. — Karina responde ao comentário, enquanto disfarço o meu desagrado, limpando o canto da minha boca com um guardanapo de modo calculado.
— É o aniversário de casamento dos pais dela. E ela resolveu marcar presença. — Dona Célia continua falando.
Meu coração está acelerado no peito só de ouvir essa notícia. Mas ele não devia. Esse maldito traiçoeiro ainda se agita ao ouvir falar nesse nome.
— E quando ela virá? — Papai pergunta curioso.
— Em alguns dias.
Alguns dias. Penso. Ela vai estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe de mim. Sinto um desconforto me invadir e engolir já não é algo tão fácil assim. Contudo, desperto com o toque suave da minha irmã na minha mão e encontro o seu olhar preocupado.
— Você está bem, filho? — Kerina questiona baixo. É quase imperceptível. Um cuidado extremo para não atrair a atenção dos nossos pais.
Limpo a garganta.
— Estou. — A encaro duramente. — Por que não estaria?
Enfio um pedaço de carne na boca.
… Você beija bem, gata.
Ainda consigo ouvir nitidamente o som áspero da voz daquele imbecil. E pensar que ela estava tão entregue naquele momento. E ainda usando uma maldita camisola.
O que eles teriam feito se eu não tivesse chegado naquele momento?
Uma traição é imperdoável.
— Você está calado, filho. — Mamãe observa. Então percebo que a conversa perdeu o seu rumo. Contudo, não ouvi uma palavra do que fora dita.
— Me desculpe. Eu só… estava pensando nos negócios que deixei pendentes… para próxima semana — minto.
Merda, não gosto de mentir para minha família, mas não quero falar sobre ela. Sobre os meus sentimentos. Sobre o quanto ainda estou ferido e magoado com a sua traição. A verdade, é que não quero falar sobre nada do meu passado. Eu só queria poder passar uma borracha e apagar tudo da minha lembrança e do meu coração. Entretanto, entendo essa insistência nesses comentários. Lilian Alcântara sempre foi querida aqui no meio da minha família. E a família Lacerda apostava alto em nossa união. O fato, é que eles nunca souberam o que realmente aconteceu. Tudo que meus pais assistiram foi um término sem qualquer explicação. E depois disso, o seu filho destruído e sofrendo por amor.
— Na hora do jantar não, querido. Por favor! — Ela interpele.
— Claro, mamãe. Isso não vai voltar a acontecer.
E fico feliz em tocar no assunto da viagem de Karina para Marrocos.
Horas depois…
— Você ficou diferente quando sua mãe mencionou a vinda de Lilian. — Papai comenta assim que entramos no seu escritório e inevitavelmente fico rígido. — Você ainda gosta dela, não é filho? — Ele me lança um olhar curioso.
— Na verdade, não — rosno uma mentira com desdém. — Confesso que já não penso nela há muito tempo.
— Entendo.
— Eu só fiquei surpreso.
Não sei se é uma grande mentira ou se estou tentando me convencer disso.
— Eu ainda me pergunto o porquê do fim? Quer dizer, vocês se amavam tanto, e de um dia para o outro não existia mais nada entre vocês. Como um sentimento tão lindo desaparece assim do nada?
Fecho as mãos em punho.
— Por que quer tocar nesse assunto agora? — pergunto, me sentindo-me perturbado, irritado.
A verdade, é que eu não quero falar dessa mulher. Por que essa maldita insistência?
— As coisas não deram certo e isso é tudo. Acabou e ponto final! — retruco segurando a raiva que queima em minhas veias.
— Ok, tudo bem. Não está mais aqui quem falou.
Ele ergue as mãos em redenção. Eu desabotoou os primeiros botões da camisa para respirar melhor.
— Eu tenho que ir — aviso de repente. — Preciso organizar alguns documentos para os compromissos de amanhã — minto, ficando de pé.
— Mas, meu filho…
— Papai, eu vou trabalhar em casa até tarde. Eu realmente preciso que ir — insisto.
— Tudo bem. — Ele concorda vindo atrás de mim. — Mas se você precisar conversar…
Ele para de falar quando me viro bruscamente para fitá-lo.
— Não tenho nada para dizer sobe esse assunto, meu pai. Não insista!
— Está bem. Não vou insistir.
De volta a sala, me despeço de minha mãe e da minha irmã. E dirijo imediatamente para o refúgio do meu apartamento, onde pretendo afogar as minhas mágoas e meu rancor com uma boa garrafa de uísque.
