Capítulo 5 5

Lilian

Acordo com os primeiros raios de sol atravessando as persianas do meu quarto. Abro os olhos com dificuldade, tentando me adaptar à claridade. Uma dor de cabeça infernal me faz lembrar da noite anterior: o barzinho, as doses de bebida, a aproximação de Peter, minha fuga e, por fim, uma garrafa de vinho para tentar apagar os motivos sórdidos que me impedem de aceitar uma relação próspera e duradoura.

… Quer dançar?

Céus, os olhos dele brilharam quando fez esse convite. E eu disse não.

— O que há de errado com você, Lilian Alcântara? — resmungo, arrastando-me para fora da cama.

Um médico bem-sucedido e literalmente aos seus pés. Se você pedisse, ele beijaria o chão que você pisa e você disse que não?

… Você não pode desistir de viver, porque a vida continua. E talvez ele até já tenha seguido em frente.

Kevin já deve estar casado e com filhos. Pensar nessa possibilidade me rasga por dentro. E, droga, tenho vontade de chorar.

— Mas que droga! — rosno, quando a minha cabeça lateja novamente, e saio à procura de uma aspirina.

… O que acha de sairmos desse barulho?

Eu devia ter dito sim. Devia ter deixado acontecer. Ter me entregado e apagá-lo de vez do meu sistema.

— Por que você insiste nisso, hein? — murmuro diante do espelho do banheiro. — Você só precisava deixá-lo entrar. Deixe alguém entrar e curar essa dor que carrega há tanto tempo.

Quatro anos, malditos quatro anos. O pior é vê-lo o tempo todo apenas como um bom amigo.

— E agora você corre o risco de perder esse bom amigo, também. Você sempre consegue estragar tudo — retruco, sentindo o gosto amargo das minhas próprias palavras.

Decido tomar uma ducha quente e demorada. Quem sabe assim afasto essas ideias idiotas da minha cabeça. Depois de me arrumar, visto algo leve e vou até a cozinha equipada para preparar um café da manhã reforçado — suco, frutas, torradas, iogurte. No entanto, só consigo tomar um pouco de chá. Hoje estou de folga e tudo o que quero é ficar deitada, remoendo pensamentos que gostaria de apagar para sempre. Contudo, meu telefone começa a tocar, e sorrio ao ver a foto da minha mãe brilhando na tela.

— Mamãe?

— Filha? — O som da voz dela me traz lembranças de casa. De momentos felizes que me enchem de saudade. — Como você está, meu amor?

Consigo sentir a animação na sua voz e sorrio automaticamente.

— Morrendo de saudades de vocês — confesso.

— Também estamos com muitas saudades, querida — lamenta, e eu suspiro baixinho. — Você precisa ver como a Cristal, o Jonathan e o Caio cresceram e estão espertos.

Pensar nos meus sobrinhos aquece o coração.

— Estou entrando de férias na próxima semana. Por que não os deixam vir para cá ficar um pouco comigo? Eles vão adorar — sugiro animada.

— Bom, na verdade eu liguei para fazer um convite.

— Convite?

— É o nosso aniversário de casamento, Lilian. E eu gostaria muito que você estivesse aqui conosco.

Um frio toma conta de mim só de pensar em voltar ao Brasil. Eu saí de lá para me recompor, para esquecer, mas não esqueci. Kevin parece estar tatuado no meu coração. E cada vez que tento arrancá-lo, ele sangra. É sufocante imaginar que vou vê-lo outra vez, sem poder tocá-lo nem dizer uma palavra. Eu sei que não vou suportar. Sei que não vou conseguir.

— Eu pretendo fazer um jantar e receber alguns amigos, e familiares.

Amigos? Isso certamente inclui os Lacerda.  Merda, como eu saio dessa?

— E como disse que vai estar de férias, pensei, que tal vir passar alguns dias conosco? — a voz dela me alcança.

Fico em silêncio.

Alguns dias no Brasil significa; esbarrar com Kevin em algum momento.

— Lilian? — Mamãe me desperta.

— Ah… eu… ainda estou aqui.

Puxo o ar fundo.

— Tudo bem, mamãe. Eu vou para o aniversário de casamento, mas não posso garantir ficar por muito tempo.

— Vamos fazer assim. Você vem, curte o nosso aniversário e depois, decide quanto tempo fica. Pode ser? — pergunta alegre.

— Claro, mamãe linda. Vamos fazer assim.

Sorrio do outro lado da linha.

Eu amo a minha família. Amo cada um deles e sinto uma falta absurda. São quatro anos sem vê-los e sem abraçá-los. Passar esses dias aqui não foi nada fácil. Eu precisei me acostumar com a dor, com essa saudade que me corrói. E agora recebo esse convite tentador.

Ora, vamos, o Rio de Janeiro é enorme. Seria muita falta de sorte esbarrar com ele tantas vezes, certo?

— Você sobrevive, Lilian. Você sempre sobrevive — sussurro para mim mesma.

Quatro anos se passaram desde a última vez que o vi. Nem sei como vai ser voltar depois de tanto tempo.

— Tudo bem, mãe. Na segunda resolvo essa questão das férias. Na terça compro as passagens e ligo para avisar o dia e a hora do voo. Combinado?

— Combinado, filha. Vou espalhar essa boa notícia para todos. — Ela ri. — Luís vai ficar feliz. A Ana também. E nossa, e o seu pai…

— Ok, Senhora Alcântara, eu já entendi. — A interrompo rindo.

Respiro fundo, sentindo-me nostálgica.

— Eu te amo, mãe!

— Também te amo, filha!

De certa forma, estou feliz por voltar ao Brasil e rever a minha família, mesmo que por poucos dias. E, não vejo a hora de abraçá-los, de brincar com os meus sobrinhos.

— Presentes! — digo de repente. — Preciso comprar presentes para todos.

Meu coração parece em festa. A ansiedade me afoga. Mas passar o dia inteiro entrando e saindo de lojas foi mais do que gratificante. Por algumas horas me esqueci as frustrações. Sorrir e sentir-me animada nunca foi tão fácil.

No final da tarde, volto para casa carregada de sacolas e caixas.

— Está feito — resmungo, encarando as compras espalhadas pela sala. — Agora não tem como voltar atrás.

Respiro fundo.

— Procure não pensar muito nisso, Lilian — aconselho-me. — Ele deve estar ocupado demais com sua família para andar pelo Rio.

Mais respirações profundas.

— Ah, por que eu não disse que não?! — lamento momentos depois, indo direto para o chuveiro. Algumas horas debaixo d’água vão me acalmar. Sempre funciona, certo?

E se nos encontrarmos? O que vamos dizer? Ele vai me desprezar. E eu vou passar meus dias chorando dentro do quarto. Mas que droga, já se passaram quatro anos. Está na hora de crescer e de agir como uma adulta.

— Acho que vou cancelar essa viagem — sussurro covardemente, sentando-me no chão do box.

Inferno!

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