Capítulo 6 6
Kevin
— Onde você foi parar neste fim de semana?
Ricardo pergunta assim que entra na minha sala. Observo-o acomodar-se em uma cadeira de frente para a minha mesa. Estava em casa, afogando-me em uísque e lembranças do meu passado. Tenho vontade de responder.
— Tínhamos combinado um encontro duplo, mas você não apareceu — Ele resmunga.
Pois é, estava ocupado demais, pensando em uma maneira de evitar um certo encontro. Por que essa maldita tem que voltar? Por que ela não fica por lá, bem longe de mim?
Lembrar que fui tomado pela raiva e frustração, que resultou em uma garrafa se estilhaçando contra uma parede, me deixa ainda mais possesso. Eu estava livre. Achava que tinha me esquecido dela… de nós… de tudo. Deus, pelo menos era o que eu pensava, mas agora…
— Você está me ouvindo?
— O quê?
Desperto com a insistência do meu amigo.
— O que está acontecendo, Kevin? Você parece meio desligado.
— Ela está voltando para o Brasil, Ricardo — solto de uma vez.
Vejo os olhos escuros dele se arregalarem.
— Ela quem?
— A Lilian está voltando.
— Cacete, Kevin! — Rick se ajeita na cadeira, ainda embasbacado. — E, como você está com isso?
— Péssimo — respondo, soltando o ar lentamente. — Não consegui pregar os olhos. A cena daquela maldita noite se repetiu incessantemente dentro da minha mente. Como um lembrete do inferno que vivi.
— Porra, isso é uma grande merda!
— Eu sei — bufo contrariado.
— E o que você pretende fazer? — questiona.
— Nada. —
Dou de ombros, recostando-me na cadeira.
— Vou continuar com a minha vida de empresário e fingir que ela não existe, como tenho feito todos esses anos.
— E se…
— Não tem “e se”, Ricardo. — Corto-o firme. — E ela que não se atreva a atravessar o meu caminho. Não depois do que fez comigo. No mais, irei evitá-la ao máximo.
Ricardo ergue as mãos, fazendo um gesto desdenhoso.
— Está certo, mas você sabe que pode contar comigo sempre, não é?
— Eu sei. E sou muito grato por isso.
Confiro as horas no relógio de pulso.
— Tenho uma videoconferência em alguns minutos — aviso, ajeitando alguns documentos em uma pilha organizada. — Eu preciso ir.
— Ótimo! Também tenho reunião com a equipe de RH. Nos vemos mais tarde?
— Claro.
Horas mais tarde…
— Precisamos rever o protótipo, senhor Lacerda. — Alessandro insiste, arrancando o pouco de paciência que ainda me resta.
O fato é que eu não sei se eles são ruins de negócio ou se sou eu que não tenho paciência para negociar. Na verdade, meu corpo ainda reclama das noites mal dormidas e para completar, estou com uma ressaca interminável, que só aumenta meu nível de estresse e mau humor.
— Ok, entre em contato com a minha equipe e solicite mais testes. Mas, desde já adianto que não há nada de errado com esse aplicativo. Essa reunião está encerrada, senhor Gonzalez.
— Pedirei para o meu assistente providenciar isso o quanto antes.
— Por mim, tudo bem.
Assim que a videoconferência é encerrada, deixo-me relaxar na cadeira, largando papel e uma caneta sobre a mesa. Definitivamente, não estou com cabeça para o trabalho. Ralho mentalmente e saio da sala de reuniões.
— Lídia, cancele os meus compromissos para o resto do dia — peço, adentrando a minha sala logo em seguida.
Minutos depois, entro no carro e dirijo sem destino, e quando dou por mim, estou estacionando em frente a uma praia. Talvez olhar para o mar me ajude a colocar as minhas ideias no lugar. Por incrível que pareça, o vai e vem das ondas me acalma e fico horas sentado na areia, apenas olhando para o mar. Contudo, chego à seguinte conclusão: Por que estou remoendo tanto essa história na minha cabeça? Sério, é passado. Já era! Acabou! Talvez ela até esteja casada e com filhos. Quem sabe esteja gorda, feia e, sei lá. Só sei que não tenho por que temer reencontrá-la. Vou continuar na minha, levando a minha vida como sempre levei, desde que ela me traiu com aquele maldito amante no dormitório.
— É isso aí — solto uma respiração pesada. — Está na hora de apagar esse passado, Kevin. Está na hora de mostrar aquela mulher que você deu a volta por cima.
Levanto-me e limpo a areia da minha roupa.
— Você já devia tê-la apagado da sua cabeça há muito tempo, assim como ela fez.
Mais determinado, caminho de volta para o carro.
Kevin Lacerda, está na hora de dar um rumo à sua vida. Lilian Alcântara, nunca mais. Diga isso para esse coração miserável, que insiste em parar de bater só de pensar nessa maldita possibilidade.
No dia seguinte…
— E aí, está animado para essa noite? — Ricardo pergunta quando nos encontramos na frente de um bar.
— Pode apostar que sim.
E é verdade. Estou animado em passar uma borracha no meu passado e quem sabe essa noite tenho a sorte de encontrar alguém interessante. Alguém que acelere o meu coração e que faça a minha estrutura se abalar. Essa noite eu quero voltar outro homem para casa e ter a melhor noite de sexo que poderia ter.
— Um uísque sem gelo, por favor! — peço assim que me acomodo em um banco próximo ao balcão envernizado do bar e Ricardo faz o mesmo, sentando-se do meu lado.
Logo alguns amigos chegam e após alguns copos, já me sinto leve.
— Ela não tira os olhos de você. — Ricardo comenta, apontando sutilmente para uma loira do outro lado do balcão. E quando a fito, ela ergue o seu copo em um brinde mudo, que eu retribuo. — Gata e gostosa. Essa noite promete, meu amigo. — Rick ralha, saindo do seu lugar.
Entretanto, não chego a ir ao encontro da garota, pois logo uma morena ocupa o lugar do meu amigo.
— Oi, esse lugar está ocupado? — Ela pergunta, abrindo um sorriso sexy.
Porra, acabei de descobrir que não sei mais como flertar coma garota!
— Não está. Você pode se sentar se quiser — digo e beberico a minha bebida.
— Melissa. — Se apresenta, me estendendo uma mão.
— Kevin.
— Que tal pagar uma bebida para mim? — pede.
Lembre-se, você precisa despertar para o futuro e se esquecer do seu passado. Lembro-me.
— O que você quer beber, linda? — pergunto, lançando lhe um olhar lascivo. A garota sorrir, cruzando as pernas e seu ato, destaca o decote, que deixa boa parte de sua coxa a mostra.
— Um Martine, por favor!
Faço sinal para o garçom e ele atende o pedido da garota. Não demora muito, ela já está enfiando uma mão dentro da minha camisa e a sua língua no meu ouvido. Minutos depois, a levo para o meu carro e vamos para um motel de beira de estrada.
Viver a vida, é isso que preciso que fazer.
