Capítulo 7 7

Lilian

— Como está se sentindo? — Cris pergunta, enquanto alguns funcionários do hotel carregam as minhas malas para fora do apartamento.

Solto um ar nervoso pela boca em resposta.

— Sinto que o meu estômago está cheio de borboletas — resmungo. — Acho que protelei demais esse momento. Sei que está na hora de encarar o meu passado.

— É assim que se fala, garota. — Ela me abraça, enquanto caminhamos para fora. — Você vai ver que estagnou a sua vida à toa.

— Eu não tenho dúvidas disso. Talvez eu precise ver para o meu coração enfim acreditar. E quem ele sabe se liberte de uma vez?

— Eu vou ficar bem aqui torcendo por você, amiga. E tomara que esse Kevin esteja bem acabado, careca e barrigudo. Quem sabe assim você perceba que teve um grande livramento.

Não seguro uma risada.

— Sua malvada!

Dentro do elevador, faço uma nota mental, certificando-me de que não esqueci nada: malas, passagem, passaporte, presentes. Ok, não esqueci nada. O elevador faz o seu som habitual e assim que as portas se abrem, nos deparamos com um amplo e elegante hall. Caminhamos imediatamente para fora do hotel.

— Não se esqueça de se divertir bastante — Cris me lembra, acomodada no banco do motorista. — E tire muitas fotos.

— Deixe comigo.

— E ai de você se não me ligar! — Adverte-me com humor. — Mas, principalmente, não deixe o idiota do Kevin perceber que ainda gosta dele.

Isso com certeza será um grande desafio. A verdade é que eu não sei o que me espera no Brasil. E o inesperado me assusta.


Dentro do avião, coloco os fones nos ouvidos para me distrair com músicas relaxantes durante o voo. Decolagens sempre me deixam nervosa e nessas horas, procuro me desligar de tudo. E nada melhor do que uma boa música. Serão horas confinada aqui dentro. Então para passar o tempo aciono minha playlist favorita, enquanto folheio algumas revistas, comendo uma maçã. E quando chego ao Brasil, encontro a minha família quase que inteira me esperando no saguão do aeroporto. Devo dizer que a reunião dos meus parentes em um único lugar é um grande destaque.

— Mamãe! — Praticamente grito, abraçando-a cheia de saudades.

— Filha, que saudade!

— Ah, papai! — O abraço demoradamente.

Depois é a vez do meu irmão Luís, da Ana, a Mônica, o Marcos… enfim, não dá para citar todos eles.

— E as crianças, por que não vieram? Eu estou roxa de saudades delas.

— Eles estão nos aguardando em casa.

Luís explica, enquanto mamãe volta a me abraçar. Luís se encarrega de pôr as minhas malas em um carrinho e logo que nos acomodamos em um carro, papai entra no trânsito. Eu sabia que havia uma saudade enrustida dentro de mim, mas Deus, eu não fazia ideia do tamanho dela. O meu coração está em festa. O meu corpo inteiro está elétrico. E eu simplesmente não consigo largar a minha mãe.

O seu abraço é saudoso, cheio de carinho e de afagos.

— Então, conte-nos sobre a sua vida em NY?

Ouvir o vozeirão do meu irmão tão de perto é mais do que um prazer.

— E como é seu trabalho no hospital Monte Sinai? — questiona, olhando fixamente nos meus olhos.

Dou de ombros.

— Ah, a minha vida é como a de todo mundo. Plantões, consultas, relatórios, prontuários. Você sabe. Uma vida profissional agitada e uma vida social tranquila. Aliás, respondendo a sua outra pergunta, trabalhar no Monte Sinai é maravilhoso. Eu amo o que faço, irmão.

— E não pode fazer o que ama aqui no Brasil, filha? Perto da sua família? — Papai inquire.

— Sim, eu posso, papai. Mas também amo o hospital que trabalho e tenho um círculo de amigos maravilhosos lá. Pessoas que eu amo de paixão. Sem falar nos meus pacientes. Eu não posso simplesmente largá-los, e não estou pensando em voltar a morar aqui no Brasil tão cedo.

— Que pena, maninha. Eu estava disposto a montar uma clínica aqui para você. Mas não quero pressioná-la. Faça como quiser. O que te deixa feliz.

— Obrigada, mano! Eu amo você, sabia? Prometo que quando estiver pronta para voltar de vez avisarei para vocês.

Sorrio.

— Como assim, quando estiver pronta para voltar, filha? — Mamãe retruca. — Você nasceu e foi criada nesse país. Por que não estaria pronta?

Porque o meu coração está partido e eu não estou preparada para vê-lo nos braços de outra mulher. Droga!

— Porque não estou preparada para deixar o meu emprego, mamãe — minto. — Só por isso.

Se ela soubesse os meus verdadeiros motivos.

Beijo a minha mãe no rosto e ela volta a me abraçar.

Enfim em casa!

Penso mais animada, quando sou recebida por meus sobrinhos, que me abraçam euforicamente e não seguro uma boa, feliz e sonora rizada.

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