Capítulo 9 9
A semana está sendo bem corrida aqui na empresa. Com o lançamento de um novo gamer que promete revolucionar o mercado de jogos, tanto brasileiro quanto internacional. Estamos a todo vapor com os preparativos para esse grande evento, que contará com apresentações de cosplay, simulando confrontos entre heróis e vilões. Além de brindes que serão distribuídos entre os participantes dessa festa maravilhosa.
Alguns telões estão sendo instalados e posicionados estrategicamente em um amplo espaço do salão, para que ninguém perca um só momento do lançamento. E, para encerrar a noite em grande estilo, uma banda de rock será contratada para um show inesquecível.
Participar ativamente desses preparativos tem sido ótimo, pois ocupa a minha mente em tempo integral. Mal tenho tempo de pensar na vinda de Lilian ao Brasil — e tampouco me preocupo com isso. O evento contará com uma megaprodução e uma equipe especializada nesse tipo de entretenimento, com duração prevista de pelo menos cinco horas consecutivas.
Dias depois, observo orgulhoso o salão lotado através dos vidros transparentes de um escritório improvisado no primeiro andar e me sinto satisfeito com o sucesso que esse jogo está proporcionando. E, claro, com o lucro que ele renderá também.
— Vou dar uma olhada mais de perto — aviso a Ricardo, que está distraído, mexendo no celular. Provavelmente marcando alguma noitada com alguma garota.
— Certo. Pode deixar que eu fico de olho em tudo aqui.
— Sei — retruco, abrindo a porta larga de vidro fosco e passo por ela.
Logo estou caminhando em meio à multidão de jovens eufóricos, empolgados com as apresentações e shows. Não consigo evitar ouvir alguns comentários e críticas sobre cada parte desse megaespetáculo.
Sorrio satisfeito.
Pouco tempo depois, Ricardo aparece ao meu lado e me acompanha nessa caminhada analítica.
— Cacete, Kevin, esse com certeza será mais um sucesso da Techc! — exclama animado.
— E você tinha alguma dúvida disso? — replico, com um ar soberbo.
— Sabia que seria um megassucesso — resmunga —, mas não imaginava toda essa grandeza. Olha pra isso! — comenta, impressionado com a quantidade de pessoas de idades variadas.
— Temos uma mina de ouro nas mãos, meu caro amigo. — Dou um meio sorriso. — Agora, imagine esse evento acontecendo nos Estados Unidos? Ou na Alemanha, no Japão?
— Para! — Ele puxa o fôlego. — Eu nem consigo imaginar a proporção desses eventos, Kevin. Mas pode ter certeza de que farei questão de estar presente em todos eles. Vou assistir às apresentações dos palcos. Você vem comigo?
Ricardo adora esse tipo de espetáculo. Parece uma criança em um parque de diversões. Confesso que também amo tudo isso. Foi exatamente por isso que escolhi essa profissão — e porque cresci cercado por tecnologias, jogos, chips, protótipos e inovações. Pensar que tudo isso agora faz parte do meu mundo me dá orgulho.
— Eu não vou — respondo. — Vou continuar a caminhada e depois volto direto para o escritório.
— Ok, eu volto pra lá em alguns minutos. Prometo.
— Te vejo lá.
Continuo andando em meio à aglomeração, contagiando-me com sua energia vibrante. Entretanto, paro abruptamente quando a vejo.
Engulo em seco.
Com a respiração presa, observo a sua companhia: Luís Alcântara, magnata da rede de hotéis de luxo — seu irmão mais velho —, além de Marcos Albuquerque, suas esposas e filhos. E, para minha infelicidade, Lilian Alcântara está ainda mais linda do que eu lembrava.
Sem conseguir me conter, meus olhos percorrem seu corpo perfeito dentro de um jeans escuro e uma blusa de alcinhas de seda branca, que deixa boa parte de sua pele clara à mostra. Os saltos medianos lhe conferem uma elegância ímpar. Contudo, seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo — algo que eu nunca gostei, porque amava tocá-los quando estavam soltos, além de sentir seu cheiro e maciez.
Droga, Kevin, assim não dá!
Resmungo mentalmente, sentindo meu coração disparar.
Ao percebê-los caminhar na minha direção, covardemente me escondo atrás de uma foto-propaganda de um dos personagens do jogo. Atrás do meu esconderijo, aproveito para observá-la um pouco mais. Lilian parece uma garotinha inocente em seu corpo de mulher. E o sorriso lindo que ela exibe me desarma por completo.
Ela está feliz.
Constato, enquanto continuo afundado em um lago de tristeza e solidão. Por um breve instante, nossos olhares se cruzam, e mergulho no infinito azul dos seus olhos, sufocado pela saudade. Eles têm o mesmo brilho jovial de sempre. Respiro fundo quando minha mente viaja para o dia em que a encontrei nos braços de outro homem. Só então me lembro de o porquê preciso manter distância dessa mulher.
— Droga! — resmungo ao perceber que eles estão se aproximando demais e decido me retirar para o escritório.
Segundos depois, entro na sala e bato a porta com mais força do que pretendia, assustando Ricardo, que me lança um olhar curioso.
— Aconteceu alguma coisa, mano? — ele pergunta, largando o celular sobre a mesa. — Você está branco feito papel.
Sem responder, vou até o frigobar, pego uma cerveja e bebo um gole longo direto no gargalo. Só então respiro fundo.
— Ela está aqui.
Percebo o desespero na minha própria voz. Ricardo me olha atônito.
