Capítulo 1 O Encontro que deu Errado (Parte 1)
Ruth Menezes apertou o passo sob a chuva fina de São Paulo, os saltos ecoando molhados na calçada irregular do bairro de Moema. Eram quase onze da noite e o ar estava pesado, carregado de umidade e do cheiro de asfalto molhado. O vestido preto que ela havia escolhido com tanto cuidado — justo no corpo, com um decote discreto que valorizava seus seios fartos e a cintura marcada — agora grudava desconfortavelmente na pele morena clara. O cabelo cacheado, que ela passara horas definindo pela manhã, caía em cachos pesados e rebeldes sobre os ombros.
O encontro havia sido um desastre completo.
Lucas, o colega de escritório que ela aceitara encontrar depois de meses de insistência, passara a noite inteira falando de si mesmo. Dos casos que ganhara, do carro novo, das viagens a Dubai. Quando ela tentou falar sobre sua formatura recente na faculdade de Direito e os sonhos de abrir o próprio escritório, ele riu com condescendência.
— Advogada novata, né? Que fofo. Mas relaxa, Ruth, você é bonita demais pra se estressar com isso. Deixa os homens resolverem as coisas grandes.
Ele havia tocado sua coxa por baixo da mesa mais de uma vez, como se ela fosse um troféu que ele já havia conquistado. Quando ela afastou a mão dele pela terceira vez, Lucas ficou irritado e pediu a conta com um comentário sarcástico sobre “mulheres difíceis”.
Agora, sozinha, Ruth sentia o peso da frustração no peito. Aos vinte e quatro anos, recém-formada, ela já estava cansada de homens que a viam apenas como um corpo bonito para exibir. Queria alguém que a respeitasse, que visse sua inteligência afiada, sua determinação. Alguém que a fizesse sentir viva, não apenas desejada.
A chuva aumentou. Ela correu os últimos metros até o estacionamento, a bolsa apertada contra o corpo. Os faróis de um carro passando iluminaram brevemente seu rosto — maçãs altas, lábios carnudos, olhos castanhos expressivos que agora brilhavam com raiva contida.
Foi quando aconteceu.
O céu noturno, normalmente cinzento e poluído, explodiu em luzes douradas. Não eram relâmpagos. Eram feixes precisos, brilhantes, descendo como colunas de ouro líquido. Ruth parou no meio da rua, o coração acelerando. O ar pareceu vibrar, um zumbido baixo e grave preenchendo seus ouvidos.
— Que diabos...?
Antes que pudesse terminar a frase, uma figura imensa materializou-se a poucos metros dela. Alto — absurdamente alto, mais de dois metros — com pele que brilhava como metal dourado sob a luz dos postes. Escamas sutis cobriam seus ombros largos e braços musculosos, refletindo a chuva como joias líquidas. Olhos dourados, intensos, fixaram-se nela como um predador que acabara de encontrar a presa perfeita.
Zayo.
Capitão da nave de reconhecimento da frota de Xyphos, ele havia descido sozinho para avaliar amostras humanas. Mas no instante em que seu olfato aprimorado captou o cheiro dela, doce, fértil, com um toque de excitação residual do encontro frustrado, soube que havia encontrado o que procurava. Curvas generosas, quadris largos feitos para carregar filhotes, pele macia que implorava por marcas. Uma reprodutora perfeita.
Ruth tentou gritar, mas um zumbido agudo saiu de um dispositivo na mão dele. Seus músculos travaram instantaneamente. As pernas fraquejaram, mas ela não caiu. O alienígena moveu-se com velocidade sobre-humana e a segurou nos braços fortes antes que seu corpo tocasse o chão.
— Não! Me solta! — ela conseguiu gritar, a voz rouca de pânico. Seus braços lutavam inutilmente contra o peito dele, que era duro como aço quente. A pele dourada queimava através do tecido molhado do vestido.
Zayo não respondeu de imediato. Seu rosto angular, com traços marcadamente masculinos e presas sutis, inclinou-se para perto do pescoço dela. Ele inalou profundamente, um ronronar grave vibrando no peito largo.
— Perfeita — murmurou em um português perfeito, cortesia do tradutor neural que já havia ativado.
Ruth sentiu algo longo e grosso roçar contra sua coxa exposta — a cauda dele. Escamosa, quente, com uma textura ligeiramente rugosa que enviou um choque elétrico direto para seu centro. A ponta da cauda deslizou devagar, quase carinhosamente, pela pele molhada, subindo por baixo da barra do vestido. Não era agressiva... ainda. Era uma exploração. Uma promessa.
— Socorro! Alguém...!
Ninguém ouviu. As luzes douradas intensificaram-se, formando um feixe que os envolveu. Ruth sentiu o mundo girar. O estacionamento desapareceu em um borrão de luz e som.
Quando acordou, estava nua.
O ar era morno, perfumado com algo doce e metálico. Ela piscou várias vezes, tentando focar. Estava deitada em uma superfície macia, como uma cama de gel aquecido, dentro de uma sala luxuosa que não pertencia à Terra. Paredes de cristal dourado translúcido emitiam uma luz suave. Correntes delicadas, também douradas, pendiam do teto como decoração ou ameaça. Não havia janelas, apenas um painel holográfico que mostrava estrelas distantes.
Ruth sentou-se abruptamente, cobrindo os seios com um braço e a intimidade com a outra mão. Seu corpo ainda formigava do transporte. Os mamilos estavam duros por causa do frio repentino da transição, e ela sentia um calor estranho entre as coxas, resquício do toque daquela cauda.
— Onde diabos eu estou? — sussurrou, a voz tremendo.
A porta de energia se dissolveu e ele entrou.
Zayo.
