Capítulo 2 — O Que Chegou Antes Dele
A notícia chegou através de Fernanda, que havia chegado através de Lucas, que trabalhava na mesma academia que o primo de Thiago.
Esse era o tipo de rota que a informação percorria quando você crescia numa cidade de tamanho médio — grande o suficiente para que as pessoas acreditassem que podiam guardar segredos, pequena o suficiente para que os segredos viajassem mais rápido do que as pessoas esperavam. Eu havia crescido aqui. Conhecia o funcionamento desse sistema de transmissão informal tão bem quanto conhecia os mapas da cidade.
— Ele está de volta em definitivo — disse Fernanda, numa tarde de sexta-feira em que a gente estava dividindo uma pizza margherita no meu apartamento, da mesma forma que fazíamos há quase dez anos. Ela disse assim, sem construção de cena, sem o preâmbulo que a maioria das pessoas usaria — porque ela me conhecia o suficiente para saber que eu preferia a informação direta à informação embalada com cuidado. — Voltou há três semanas. Você sabia?
— Não sabia.
— E as flores?
— Deduzi.
Fernanda me olhou com aquela expressão que ela tem — uma mistura de admiração genuína e exasperação leve, como quem reconhece um padrão que admira e acha ligeiramente misterioso ao mesmo tempo. — Mari.
— Fernanda.
— Você não vai me dizer como se sentiu?
Pensei nisso com honestidade. Não o tipo de honestidade performática que a gente usa quando quer parecer que está bem — o tipo que serve para uma plateia, que tem o entonação levemente ensaiada de quem sabe que vai ser observado. A honestidade real, que às vezes demora um segundo a mais para achar as palavras certas porque está procurando no lugar certo.
— Senti curiosidade — disse. — E um pouco de irritação. E depois curiosidade de novo.
— Não saudade?
— Não na forma que você está imaginando.
O que eu não disse para a Fernanda — porque ainda estava processando, e eu não costumava falar das coisas antes de entendê-las pelo menos parcialmente — era que a saudade que eu havia sentido de Thiago Cavalcanti tinha ido embora muito antes de eu imaginar. Ela não foi de uma vez. Foi saindo aos poucos, como água pelo ralo — imperceptível a cada momento, visível só quando você olha e percebe que o nível está mais baixo do que estava antes. Ela foi enquanto eu estava ocupada construindo outras coisas, enquanto eu estava escolhendo outras prioridades, enquanto eu estava me tornando mais presente na minha própria vida e consequentemente menos disponível para a ausência de outra pessoa.
Um dia eu percebi que havia passado uma semana inteira sem pensar nele. Depois duas semanas. Depois deixou de ser uma contagem — o sinal de que algo havia realmente mudado, porque contamos apenas o que ainda importa medir.
O que ficou não era saudade. Era uma espécie de arquivo bem organizado — a memória de alguém que um dia importou muito, guardada com cuidado e respeito pela experiência que havia sido, mas não acessada com frequência. Como uma gaveta que você sabe que existe, que sabe o que tem dentro, mas que não precisa abrir todo dia.
— O que você vai fazer? — perguntou Fernanda, pegando mais uma fatia de pizza com a naturalidade de quem faz duas coisas ao mesmo tempo sem esforço.
— Nada, por enquanto. Ainda não há nada para fazer — disse. — Se ele quiser alguma coisa, ele vai aparecer de um jeito que requeira uma resposta. Até lá, é só informação.
— Ele vai aparecer.
— Provavelmente.
— E você não está... nervosa?
Considerei a palavra com cuidado. Nervosa sugeria que eu tinha algo a perder. Que havia uma versão de mim que dependia de como ele se comportaria — que meu estado emocional era uma função da ação dele. Era exatamente o tipo de configuração que eu havia desmontado nos últimos dois anos.
— Não — disse. — Estou curiosa. É diferente.
Fernanda ficou me olhando por um momento, e então sorriu de um jeito que eu não consegui decifrar completamente — tinha alguma coisa naquele sorriso que eu não tinha dados suficientes para interpretar.
— Você mudou muito — disse ela.
— Todo mundo muda.
— Não desse jeito — disse ela. Colocou a fatia de volta no prato por um segundo, o que significava que ia dizer algo que queria que eu ouvisse sem distração. — Na maioria das vezes, as pessoas ficam mais fechadas depois de uma coisa dessa. Colocam paredes. Ficam desconfiadas de um jeito que aparece antes mesmo de você chegar perto. Você ficou diferente. Mais... centrada.
Pensei nessa palavra mais tarde, quando ela foi embora e eu fiquei sozinha arrumando a cozinha com o som da cidade lá fora.
Centrada. Era uma palavra boa. Não blindada, não fechada, não protegida. Centrada. Que significava que havia um centro — uma estrutura interna que não dependia de fatores externos para se manter.
Havia uma diferença fundamental entre muros e fundações, que eu havia aprendido tanto na arquitetura quanto na vida: muros protegem do exterior, mas muros não sustentam nada. Eles ficam de pé enquanto nenhuma força grande o suficiente aparecer. Fundações sustentam de dentro para fora. Fundações são invisíveis, estão embaixo, mas são o que torna possível que tudo o mais exista acima.
Dois anos antes, quando Thiago me ligou, eu havia percebido — não imediatamente, mas com o tempo — que havia construído minha vida ao redor de alguém em vez de construí-la com alguém. A distinção era sutil na prática diária, mas era enorme nas consequências. Ao redor significava que o eixo central era externo. Com significava que os dois tinham eixos próprios que se escolhiam. Quando ele saiu, o que desmoronou foi a parte da estrutura que dependia da presença dele. A parte que era minha — a que eu havia construído em relação a mim mesma — estava intacta. Precisou de quarenta minutos para eu encontrá-la de novo, ali, quieta, esperando.
Nos dois anos seguintes, eu havia ampliado essa parte. Dado a ela mais cômodos, mais janelas, mais estrutura, mais clareza sobre o que ela precisava.
Ele poderia aparecer. Poderia tentar o que quisesse tentar.
E eu ia ouvi-lo com os dois pés firmados no chão que eu mesma havia construído — o que era diferente de ouvi-lo defensivamente. Era ouvi-lo de um lugar sólido.
