Capítulo III

Naquela noite, todos se reuniram conforme Cledir havia instruído. Crianças, idosos, adultos e adolescentes aguardavam ansiosamente para ouvir a lenda que Cledir estava prestes a contar, especialmente porque ele mencionou que seria algo um pouco perturbador, mesmo para aqueles que viviam naquela vila.

Cledir estava sentado em uma pedra, com uma fogueira acesa para que todos pudessem vê-lo e ele pudesse continuar a lenda que estava prestes a contar. Ele olhou ao redor e viu que todos estavam atentos e ansiosos para ouvir o que sairia de sua boca, qual lenda ele contaria.

A noite estava linda, com estrelas brilhantes e a lua em sua fase cheia, cintilando, e o som de corujas próximas podia ser ouvido.

"Bem, vamos começar a falar sobre a lenda," disse Cledir.

Heloísa e eu estávamos sentados juntos no chão, enquanto Elizabeth e Vicente estavam sentados em cadeiras atrás de nós.

Ele continuou:

"Há muito tempo, durante o período em que os portugueses colonizaram nosso país, em nossa região, sempre ocorria um fenômeno a cada cinquenta anos, ligado à lua. Este evento traria uma criatura à noite, atacando todos, e é muito perigosa. Todos sabemos que estou falando do lobisomem, é claro, e é por isso que devemos ser cautelosos.

A cada cinquenta anos, a lua muda de cor, não para vermelho ou azul, mas para um tom carmesim. Segundo o que os anciãos costumavam dizer, isso acontecia quando a lua desejava libertar algo ou alguém de uma maldição, e assim ela se tornava carmesim para acabar com a maldição.

Vocês podem pensar que não estou dizendo nada de especial, mas estariam enganados. A Lua Carmesim ocorre a cada cinquenta anos, e posso dizer que sempre acontece na Amazônia. Está prestes a acontecer agora, em 2020, e todos os sinais apontam que será amanhã. A última vez que ocorreu foi em 1979, então estejam preparados, porque se o lobisomem aparecer, vocês devem fugir dele, pois se forem mordidos ou arranhados por um, podem acabar se transformando em lobisomem também.

Suspirei um pouco e continuei, pois tinha a atenção de todos.

Quanto ao lobisomem, não é qualquer lobisomem, muito pelo contrário. A lenda diz que ele tem olhos e pele carmesim, pois a lua deseja purificar a alma deste lobisomem, e isso só acontecerá se ele se livrar de uma maldição através de algum ritual, seja qual for."

Todos ficaram surpresos com a lenda que Cledir havia contado. Começaram a se perguntar se isso realmente aconteceria ou se era apenas mais uma das histórias do velho.

"Você já encontrou um lobisomem assim?" Vicente perguntou.

"Claro, Vicente, eu já. Foi em 1970. Veja, eu nasci em 1940, então não presenciei o evento da Lua Carmesim naquela época. Só aconteceu quando eu já tinha 30 anos. Agora, aos 80 anos, posso garantir que vai acontecer porque eu vi."

Enquanto ele respondia a Vicente, eu estava imerso em pensamentos. Talvez tal evento realmente ocorresse, mas e se fosse apenas mais uma das histórias do velho?

Mais tarde, eu estava sentado na beira da casa dela, olhando atentamente para a lua, que continuava a brilhar intensamente. Notei que sua cor era prateada, puro prata, e isso me surpreendeu. Deve ser por causa da lenda que ele contou que eu não conseguia tirá-la da cabeça. Tentei imaginar a lua em um tom carmesim, mas nunca consegui visualizá-la completamente.

Minha avó, Elizabeth, se aproximou de mim e perguntou, "Você está bem, querido?"

"Sim, estou bem," respondi. "Só estou tentando imaginar como a lua ficaria em um tom carmesim."

A idosa sorriu e respondeu, "Bem, é só uma das histórias do Cledir. A lua não pode mudar de repente para um tom carmesim. Você entende o que quero dizer?"

Olhei para minha avó e assenti, exibindo um sorriso sutil.

Elizabeth retribuiu o sorriso e se afastou de mim.

Voltei meu olhar para a lua enquanto ouvia os sons dos grilos e cigarras, que cantavam cada vez mais alto. Os sapos se juntaram com seus coaxares, e senti uma sensação de paz no meu coração. Não sabia por que ou como, mas senti.

Amanhã, tiraria mais fotos. Sentia a necessidade de encontrar algo raro, e de alguma forma, conectei essa necessidade à lenda que ouvi de Cledir. Não sabia o que estava acontecendo, mas pensei que poderia encontrar algo inesperado na noite da Lua Carmesim. Pensei em sair à noite; talvez o lobisomem fosse algo que eu procuraria. Não contaria a ninguém para evitar preocupá-los e faria exatamente o que acabei de pensar. Sairia de casa à noite para procurar o lobisomem. Imagine se eu realmente conseguisse encontrá-lo. Seria uma tarefa árdua me livrar dele depois, mas eu faria, custe o que custar.

"Quem sabe, talvez eu consiga encontrar aquele lobisomem que Cledir mencionou," disse.

Faria esse sacrifício a todo custo. Conseguiria a foto que queria, mas também teria que tomar precauções. Ouvi dizer que objetos de prata poderiam facilmente matar um lobisomem. Eu odiava matar qualquer coisa viva, mas nesse caso, teria que ir contra minha própria filosofia.

Senti-me cansado e decidi me preparar para dormir. Amanhã seria um dia calmo, mas a noite estaria cheia de expectativas e possibilidades do que poderia ou não acontecer. Estava ansioso, mas encontraria uma maneira de controlar essa ansiedade.

Agora, mais do que nunca, queria encontrar aquele lobisomem, e até lá, teria um plano para me proteger de ser ferido ou até mesmo morto. Tinha que pensar em algo, mas sabia que encontraria uma solução.

E assim, adormeci na minha cama, esperando encontrar o lobisomem.

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