Capítulo 1 IRIS

Existem momentos em que a vida não avisa que está prestes a mudar. Ela simplesmente muda.

Até poucos dias atrás, eu acreditava que meu maior problema era decidir qual faculdade cursar. Eu tinha vinte anos, morava em São Paulo, vivia cercada pelo carinho dos meus pais e nunca precisei me preocupar se teria um teto para dormir ou alguém para me abraçar quando as coisas dessem errado.

Meu pai costumava dizer que a maior riqueza de uma pessoa era o caráter.

Minha mãe sempre completava:

— Dinheiro só tem valor quando é usado para transformar a vida de alguém.

Eles construíram uma empresa respeitada, conquistaram estabilidade e poderiam ter me criado acreditando que o mundo girava ao nosso redor. Mas fizeram exatamente o contrário.

Nunca trataram ninguém com arrogância. Nunca permitiram que eu confundisse dinheiro com superioridade. Desde pequena, aprendi que todas as pessoas mereciam respeito, independentemente do lugar onde morassem, da roupa que vestissem ou da profissão que exercessem.

Esses ensinamentos moldaram quem eu sou.

E talvez tenham sido a única coisa que permaneceu de pé quando o meu mundo desabou.

Naquela manhã, acordei sem imaginar que seria a última vez que ouviria a voz dos meus pais.

Eles tinham uma reunião importante e precisariam viajar. Antes de saírem, minha mãe entrou no meu quarto, sentou na beirada da cama e beijou minha testa.

— Não passa o dia inteiro dormindo, Íris.

— Estou de férias, mãe.

Ela riu.

— Férias não significam hibernar.

Meu pai apareceu na porta logo depois.

— Deixa nossa princesa dormir. Depois ela reclama que eu acordo cedo até nas férias.

Revirei os olhos, fazendo os dois rirem.

— Boa viagem. Quero presentes quando vocês voltarem.

— Fechado — meu pai respondeu, sorrindo.

Eu não sabia que aquela seria a última conversa que teríamos.

Algumas horas depois, meu telefone tocou.

Atendi distraída, imaginando que fosse algum cliente da empresa ou até mesmo Raissa, minha melhor amiga.

Do outro lado da linha estava o advogado da família.

A voz dele estava diferente.

Nervosa.

Trêmula.

— Íris... preciso que você se sente.

Meu coração acelerou.

— O que aconteceu?

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade.

Então ouvi as palavras que mudariam minha vida para sempre.

O avião em que meus pais estavam havia sofrido um acidente.

Não havia sobreviventes.

Por alguns segundos, eu simplesmente não entendi.

Meu cérebro se recusava a aceitar aquilo.

— Não... não pode ser.

O telefone escorregou da minha mão.

Minhas pernas perderam a força e caí de joelhos no meio da sala.

Eles tinham saído poucas horas antes.

Eles tinham prometido voltar.

Minha mãe tinha beijado minha testa.

Meu pai tinha brincado comigo.

Eles não podiam simplesmente ter desaparecido.

Mas tinham.

E eu não estava preparada para descobrir como era viver em um mundo onde meus pais não existiam mais.

Os dias seguintes foram um borrão.

A casa, que antes era cheia de vozes, risadas e passos, tornou-se silenciosa.

O perfume da minha mãe ainda estava no corredor.

A xícara de café do meu pai permanecia sobre a mesa da cozinha.

No escritório, os óculos dele estavam exatamente onde havia deixado.

Tudo parecia esperar que eles voltassem.

Inclusive eu.

Eu passava pelos cômodos procurando qualquer coisa que pudesse me convencer de que aquilo era apenas um pesadelo.

Às vezes pegava o celular e ficava olhando para o nome deles na minha agenda.

Pensava em ligar.

Depois lembrava.

Eles não atenderiam.

No dia do velório, descobri que existe uma dor que não cabe dentro do peito.

O lugar estava cheio.

Funcionários da empresa, amigos, parceiros comerciais e pessoas que meus pais ajudaram ao longo dos anos.

Flores cobriam o ambiente.

Mas eu só conseguia olhar para os dois caixões.

Minha mãe.

Meu pai.

As duas pessoas que eu acreditava que estariam comigo por toda a vida.

Não consegui me aproximar no começo.

Fiquei parada, sentindo as pernas tremerem.

Então alguns funcionários da empresa vieram até mim.

O primeiro deles era um homem que trabalhava com meu pai havia mais de vinte anos.

Ele segurou minha mão e começou a chorar.

— Seu pai mudou a minha vida, Íris. Quando eu não tinha onde morar, ele me ajudou. Quando minha filha ficou doente, ele pagou o tratamento. Nunca fez isso para aparecer. Ele simplesmente dizia que uma empresa só era grande quando cuidava das pessoas que faziam parte dela.

Outro funcionário se aproximou.

— Sua mãe sabia o nome de todos nós. Até dos nossos filhos. Ela nunca passava por alguém sem perguntar como estava.

Aquilo acabou comigo.

Porque, naquele momento, percebi que meus pais não tinham deixado apenas uma empresa.

Eles tinham deixado marcas na vida de muitas pessoas.

Alguns funcionários fizeram uma homenagem simples.

Colocaram ao lado dos caixões fotografias antigas, cartas e pequenas lembranças que guardavam deles.

Uma funcionária colocou uma fotografia da minha mãe participando de uma ação social.

— Ela dizia que ajudar uma pessoa já fazia o dia valer a pena — explicou, chorando.

Outro funcionário deixou uma pequena placa com uma frase que meu pai sempre dizia dentro da empresa:

“Nunca se esqueça de quem estava ao seu lado quando você ainda não tinha chegado a lugar nenhum.”

Toquei aquela placa com os dedos.

E chorei.

Chorei por tudo.

Pela minha mãe.

Pelo meu pai.

Pelos aniversários que não aconteceriam.

Pelos abraços que eu nunca mais receberia.

Pelas conversas que ficaram pela metade.

Pelos planos que morreram junto com eles.

Naquele dia, entendi que o dinheiro não podia comprar absolutamente nada que importasse.

Não podia comprar mais um abraço.

Não podia comprar mais uma conversa.

Não podia comprar mais um dia.

Quando chegou o momento do enterro, minha tia Rosa segurou minha mão.

Ela era irmã da minha mãe e, apesar de morar no Rio de Janeiro, sempre esteve presente na minha vida.

Eu mal conseguia caminhar.

— Eu não consigo, tia.

Ela me abraçou.

— Você não precisa conseguir tudo hoje. Só precisa dar o próximo passo.

Caminhamos juntas.

Quando os caixões começaram a descer, senti meu corpo inteiro estremecer.

— Mãe...

Minha voz saiu quase sem força.

Depois olhei para o caixão do meu pai.

— Pai...

Foi tudo o que consegui dizer.

A chuva começou a cair naquele momento.

Primeiro fraca.

Depois forte.

Mas ninguém saiu.

Os funcionários permaneceram ali.

Os amigos permaneceram.

Minha tia permaneceu ao meu lado.

E eu fiquei olhando para o lugar onde meus pais seriam enterrados, tentando entender como eu voltaria para casa sem eles.

Depois que tudo terminou, me ajoelhei diante das duas sepulturas.

Passei os dedos pela lápide ainda molhada pela chuva.

— Eu amo vocês.

Minha voz falhou.

— Eu não sei como vou fazer isso sem vocês... mas eu prometo que vou tentar.

Fechei os olhos.

— Vou honrar tudo que vocês me ensinaram. Prometo.

Fiquei ali por mais alguns minutos, até minha tia se aproximar novamente.

— Vamos para casa, Íris.

Casa.

Aquela palavra nunca mais teria o mesmo significado.

Naquela noite, quando entrei no meu quarto, sentei no chão e chorei até não ter mais forças.

Foi minha tia quem permaneceu comigo.

Ela não tentou dizer que tudo ficaria bem.

Talvez porque soubesse que não ficaria.

Pelo menos não naquele momento.

Na semana seguinte, ela entrou no meu quarto segurando uma xícara de chá.

Sentou ao meu lado e ficou em silêncio.

Depois segurou minha mão.

— Você não precisa enfrentar isso sozinha.

Olhei para ela.

— Eu não sei mais o que fazer.

Ela respirou fundo.

— Venha morar comigo por um tempo.

A proposta parecia impossível.

Deixar São Paulo significava deixar para trás a casa dos meus pais, minhas lembranças e tudo que eu conhecia.

Mas permanecer ali estava me destruindo.

Cada cômodo apertava meu peito.

Cada fotografia parecia perguntar por que eu ainda estava ali sozinha.

Depois de dois dias pensando, aceitei.

Antes da viagem, participei da leitura do testamento.

Meus pais haviam organizado tudo.

A empresa continuaria funcionando normalmente, e os diretores permaneceriam nos cargos até que eu assumisse oficialmente a administração.

Parte da herança ficaria bloqueada até que eu completasse vinte e um anos, mas eu teria recursos suficientes para viver tranquilamente.

Também havia uma determinação para que todos os funcionários fossem mantidos.

Sorri entre as lágrimas.

Era exatamente o que eu esperava deles.

Nenhuma fortuna seria maior do que a dignidade com que sempre trataram as pessoas.

Na manhã da viagem, caminhei pela casa pela última vez.

Passei pela biblioteca onde meu pai passava horas lendo.

Entrei na cozinha onde minha mãe insistia em preparar o café da manhã mesmo tendo funcionários.

Subi até meu quarto.

Olhei pela janela.

Respirei fundo.

— Prometo que vou honrar tudo o que vocês me ensinaram.

Fechei a porta.

Dessa vez, não olhei para trás.

A estrada até o Rio de Janeiro foi longa.

Passei boa parte do caminho olhando pela janela.

Minha tia tentou conversar algumas vezes, mas percebeu que eu precisava do silêncio.

Minha prima Bianca mandava mensagens dizendo que estava ansiosa para me ver.

Eu respondia com poucas palavras.

Ainda havia um vazio enorme dentro de mim.

Quando finalmente chegamos ao Complexo do Alemão, tudo parecia diferente do que eu lembrava.

As vielas estavam movimentadas.

Os comércios funcionavam normalmente.

Crianças corriam atrás de uma bola.

Mulheres conversavam nas portas das casas.

Homens carregavam mercadorias morro acima.

A vida continuava.

Aquilo me surpreendeu.

Porque, enquanto meu mundo tinha parado, o mundo de todo mundo continuava girando.

Alguns moradores interromperam o que estavam fazendo para cumprimentar minha tia.

Ela parecia conhecer praticamente todo mundo.

— Aqui um cuida do outro — explicou ao perceber meu olhar.

Assenti.

Enquanto o carro subia mais uma rua, notei alguns homens armados observando a movimentação.

Não demonstravam agressividade.

Apenas estavam atentos.

Minha tia percebeu minha tensão.

— Fique tranquila. Existem regras por aqui. Quem respeita essas regras vive em paz.

Voltei a olhar pela janela.

Foi então que o vi.

No alto de um terraço, um homem vestido de preto observava a comunidade.

Mesmo de longe, sua postura chamava atenção.

Não era apenas a arma presa ao corpo.

Era a maneira como todos ao redor pareciam esperar por um simples gesto dele.

Ele não precisava falar.

Sua presença era suficiente.

Por um breve instante, ele virou o rosto.

Nossos olhares se encontraram.

Não consegui enxergar seus traços com clareza.

Mas senti um arrepio percorrer meu corpo.

Desviei os olhos imediatamente.

Eu não fazia ideia de quem ele era.

Muito menos sabia que aquele homem era conhecido por um único nome.

Morte.

O dono daquele morro.

O homem que, sem imaginar, estava prestes a transformar completamente o meu destino.

E o meu recomeço acabava de começar.

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