Capítulo 1 Olivia Campbell - anos antes

Eu nunca vou esquecer aquela noite.

Era uma sexta-feira, e Jennifer havia organizado uma festa em sua casa, aproveitando, como sempre fazia, quando o pai viajava.

Ela morava em um dos condomínios de alto padrão em Narragansett, com uma vista deslumbrante para a praia, uma piscina enorme nos fundos e um jardim bem iluminado que, à noite, parecia saído direto do cenário de um filme, sério.

O pai dela, o prefeito da cidade, quase nunca estava por lá, o que significava que aquela mansão luxuosa e toda a sua liberdade estavam por nossa conta.

Eu estava nervosa. Não… nervosa não descrevia nem de longe o turbilhão que revirava o meu estômago.

Eu estava apavorada.

Havia semanas que eu ensaiava na frente do espelho o que dizer para o Anthony quando finalmente tivesse coragem.

Jennifer sabia de tudo, claro. Eu confiava nela como se fosse uma irmã. Afinal, desde que a Claire, minha outra melhor amiga, tinha se mudado de estado, Jennifer se tornou meu único porto seguro. Ela era a única que sabia de cada segredo meu, de cada mensagem que eu trocava com ele, de cada suspiro e de cada encontro às escondidas.

E Anthony…

Anthony era o garoto por quem eu me apaixonei sem conseguir evitar. Extrovertido, cuidadoso, popular e confiante.

Quando penso naquela época, sinto uma mistura de nostalgia e pena da garota que fui. Eu achava que o mundo era perfeito; acreditava genuinamente que algumas histórias de amor simplesmente estavam destinadas a dar certo. Que príncipes encantados e finais felizes existiam fora dos livros; que bastava querer muito para que a vida encontrasse um jeito de fazer tudo acontecer.

Mas eu estava redondamente errada. Hoje sei que bastam alguns segundos para um castelo inteiro desmoronar e virar pó.

Naquela noite, porém, eu ainda não fazia ideia de que minha vida estava prestes a ruir.

Enquanto eu dirigia o velho Honda Civic da minha mãe pelas ruas de Narragansett até a casa da Jennifer, minhas mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos meus dedos ficavam brancos. O coração batia tão forte contra o peito que parecia prestes a explodir. Eu alternava entre sorrir sozinha para o para-brisa e imaginar todos os cenários possíveis para a conversa que Anthony disse que queria ter comigo.

Nas últimas semanas, o clima entre nós tinha mudado completamente. Tudo começou com uma brincadeira boba, de verdade ou desafio, e terminou no nosso primeiro beijo — o meu primeiro beijo da vida. Fiquei nas nuvens…

Depois daquele dia, nos vimos mais algumas vezes e, em todas elas, Anthony me encheu de carinho e beijos roubados. Aos poucos, comecei a me convencer de que ele realmente gostava de mim, mesmo sem conseguir entender o porquê. Ele era maravilhoso, o garoto que atraía olhares por onde passava, e eu… eu era apenas a nerd tímida e sem graça.

Mas a cada toque sutil, a cada vez que ele encostava em mim por tempo suficiente para fazer meu corpo inteiro acender, e a cada sorriso torto que direcionava para mim, tudo me fazia sonhar.

Eu já estava até me pegando a imaginar o dia do pedido de namoro, noivado, casamento, filhos…

Cheguei ao ponto de fantasiar como seria a carinha dos nossos futuros pirralhos.

“Ele está caidinho por você, amiga. Os olhos dele brilham de um jeito diferente quando você passa", era o que Jennifer vivia me dizendo.

E, por mais que minha mente tentasse me frear, meu coração abraçava cada palavra, porque eu queria desesperadamente que fosse verdade.

Mais cedo, ele tinha me mandado uma mensagem que quase me fez infartar no meio do dia:

“Preciso falar com você hoje, Olie. Tô morrendo de saudade. Tô chegando na Jenni, não demora.”

Aquilo era tudo o que eu precisava para acreditar que, naquela noite, deixaríamos de ser apenas "um lance" para nos tornarmos algo real e oficial.

Eu me tornaria a namorada dele. Ou, pelo menos, era o que eu torcia com todas as minhas forças.

Talvez… só talvez, ele também estivesse sentindo exatamente o mesmo que eu.

Enquanto manobrava o carro no trânsito leve do condomínio, percebi que estava com uma sensação estranha e amarga no peito, mas culpei a ansiedade inocente.

Quando estacionei o Civic próximo ao portão lateral, escutei as risadas altas e a música vinda do fundo da mansão. Estranhei.

Chequei a última mensagem que minha amiga tinha mandado mais cedo, combinando o horário, e vi que não estava atrasada; na verdade, estava alguns minutos adiantada. Mas, pelo som que vinha dos jardins — uma música que, por sinal, estava alta demais —, ficava claro que a festa já estava rolando a todo vapor.

Tomara que nenhum vizinho chame a polícia, ou a Jennifer vai se encrencar feio com o pai, pensei comigo mesma.

Respirei fundo, abaixei o quebra-sol e me olhei no espelho por alguns segundos, arrumando desnecessariamente os fios de cabelo que nem estavam fora do lugar e retoquei o gloss. Assim que desci do carro, acabei sentindo a brisa úmida do mar bater no meu rosto, e caminhei em direção ao portão de madeira que estava encostado.

Enxuguei minhas mãos na saia do vestido; elas estavam tão suadas ao ponto de eu me sentir muito ridícula por estar tão nervosa. Mas era simplesmente impossível me controlar.

Entrei pelo acesso lateral, que me levaria direto ao jardim e, de lá, para o fundo da casa. Comecei a cruzar com o pessoal da nossa sala. Acenei para alguns, dei sorrisos amarelos para outros e tentei ao máximo passar despercebida; eu não queria parar para conversar sobre o fim das aulas com ninguém. Eu só tinha um objetivo: encontrar o Anthony.

Olhei para todos os lados, procurando por ele entre as rodas de conversa espalhadas pelo gramado bem cortado. Não sabia que teria tantas pessoas assim. Tinha gente perto da churrasqueira comendo e conversando, outros ao lado da mesa de bebidas…

Fui me esgueirando suavemente enquanto subia os poucos degraus de pedra que levavam à área principal da piscina.

E então eu o vi.

Cabelos castanhos bagunçados e rebeldes, ombros largos e aquela postura inconfundível, com os braços cruzados. Calça jeans preta desbotada, que com certeza está rasgada na altura das coxas, e uma camiseta preta, que deve ostentar uma estampa gigante de uma banda de rock.

Meu coração deu um salto gigante de alegria e, no segundo seguinte, murchou completamente.

Anthony estava de costas para mim, encostado próximo à mureta da piscina. E Jennifer estava parada bem na frente dele.

Eles estavam próximos.

Próximos demais para duas pessoas que deveriam ser apenas amigos.

Meus pés simplesmente congelaram na grama molhada.

Fiquei paralisada observando aquela cena.

Tentei desesperadamente inventar uma desculpa aceitável na minha cabeça — talvez eles estejam só conversando alto por causa do som, talvez ela esteja me defendendo, talvez seja só uma brincadeira boba de bêbado —, mas a realidade crua me atingiu no peito como um soco direto no estômago, tirando todo o meu ar.

Jennifer deu um passo à frente, aproximando-se ainda mais, colando o corpo no dele, e levou as duas mãos até a nuca de Anthony, acariciando seus cabelos.

Antes que eu pudesse piscar ou desviar o olhar.

Aconteceu...

Próximo Capítulo