Capítulo 2 O peso da traição
Eles se beijaram.
Como assim eles se beijaram?
Não pode ser!
Eles não fariam isso? Fariam? Mas, infelizmente, por mais que eu não quisesse acreditar no que meus olhos viam, não havia como negar. Era isso mesmo. Um beijo.
Não foi um esbarrão. Não foi um selinho ingênuo, um desequilíbrio ou um desentendimento que durou apenas um segundo. Foi um beijo e parecia intenso.
Um beijo que aconteceu à margem da piscina, onde a luz azul refletia na água, criando um brilho quase hipnótico, enquanto a voz de Ed Sheeran cantava "Photograph", parecendo zombar da minha cara a cada verso afinado.
O mundo ao meu redor simplesmente desapareceu por completo. Tudo sumiu.
Foi como se o barulho das conversas virasse um zumbido distante. Nada estava mais à minha volta. Só existiam eles dois… e aquele beijo destruidor.
Eu queria gritar.
Queria avançar sobre eles, exigir explicações, bater no peito do Anthony, empurrar a Jennifer, aquela traíra, na piscina, mas o ar fugiu completamente dos meus pulmões e minhas pernas viraram chumbo.
Mas eu era incapaz de dar um único passo à frente. Meus pés estavam cravados no chão.
Como ele pôde fazer isso comigo? E, meu Deus… a Jennifer?
Ela era minha amiga.
Ela sempre soube de tudo.
Sabia o quanto eu era apaixonada por ele, apoiava meus surtos, escutava meus desabafos e conhecia cada detalhe das poucas vezes que fiquei com o Anthony.
Ela sabia de cada medo, de cada esperança e de cada sonho que eu tinha. E simplesmente roubou para si, sem o menor remorso, a única coisa que mais importava para mim.
Uma lágrima quente e ardida escorreu pela minha bochecha, mas a limpei rapidamente com as costas da mão e acabei acordando para a realidade. Eu me senti quebrada em mil pedaços. Rasgada, estraçalhada por dentro, mas eu não daria o gostinho para eles rirem ainda mais de mim; eles não iriam ver a minha dor.
Virei as costas de vez e comecei a caminhar de volta pelo mesmo caminho, o mais rápido que consegui, sem correr, para não chamar atenção, tentando desesperadamente manter o pouco de dignidade que ainda me restava. Minhas pernas tremiam tanto que parecia que eu ia desabar no chão a qualquer segundo no gramado.
Só faltava isso para minha derrota se tornar maior ainda.
Alcancei o portão de madeira, saí para a rua deserta e corri, até que me enfiei dentro do velho carro. Bati a porta e tentei colocar a chave na ignição, mas minhas mãos tremiam tanto que errei o buraco três vezes seguidas até que as chaves caíram no meu colo.
Apoiei a testa no volante, fechei os olhos e tentei respirar fundo. O silêncio abafado de dentro do carro fechado me sufocava. Sem a música da festa e sem os gritos das pessoas lá fora, o único som que preenchia o veículo era o som desordenado e entrecortado da minha própria respiração sofrida.
E ali sozinha, deixei que as lágrimas, finalmente, caíssem sem que eu precisasse escondê-las de ninguém.
Minutos depois, o celular sobre o banco do passageiro vibrou, fazendo um barulho alto contra o couro do estofado. O visor acendeu, revelando a notificação.
Jenni: Ei, cadê você, gostosa? Não vem? Responde, tô te esperando.
Li aquela mensagem uma, duas, três vezes. A ironia daquelas palavras era quase insuportável.
Hipócrita. Falsa. Nojenta.
Uma onda avassaladora de raiva me atingiu em cheio, vinda de todos os lados e queimando em minhas veias.
Estava com raiva dela por ser tão cínica e fingir que nada tinha acontecido. Raiva dele por me usar, brincar com os meus sentimentos e me iludir. E, principalmente, raiva de mim mesma por ter sido tão estúpida, tão cega e tão ingênua a ponto de acreditar em contos de fadas.
Eu não a respondi. Nem naquela noite, nem no dia seguinte, nem em momento algum.
Não respondi.
Por sorte, o ano letivo do High School terminou naquela mesma semana. Recusei as outras propostas, arrumei minhas poucas malas de mudança e me mudei definitivamente para a casa da minha avó em Cambridge, Massachusetts. Entrar em Harvard não foi apenas um passo acadêmico enorme para a minha vida; foi o meu passaporte de fuga, meu bilhete de saída de Narragansett e a justificativa perfeita para deletar os dois para sempre da minha existência.
Jennifer tentou me procurar nos primeiros dias. Ligou várias vezes, enviou dezenas de mensagens e até foi até a casa dos meus pais me procurar, mas eu a ignorei completamente até que ela finalmente entendeu o recado e desistiu. Não havia absolutamente nada no mundo que ela pudesse dizer para justificar aquilo. Nossa amizade — que eu um dia jurei ser inquebrável — morreu ali.
Anthony nunca me procurou.
Não mandou uma única mensagem. Ele agiu como se eu jamais tivesse existido na vida dele. Ficou dolorosamente claro que, para ele, eu nunca passei de um passatempo divertido. A nerd apaixonada pelo atleta.
Na época, eu entendi aquele silêncio devastador como a confirmação de tudo o que eu mais temia: eu nunca significara nada pra ele. Me convenci de que tinha sido melhor assim, que fugir e me enterrar nos livros de Direito era a única escolha lógica para não enlouquecer.
Talvez isso tenha sido apenas mais uma mentira confortável que contei a mim mesma durante anos para conseguir levantar da cama e seguir em frente… Eu realmente não sei.
A única certeza que carrego no peito é que aquela noite fresca em Rhode Island abriu uma ferida tão profunda que nunca cicatrizou de verdade, mesmo que eu finja que sim. Uma lembrança amarga e tão dolorosa que, mesmo dez anos depois, ainda queima no fundo da alma como se tivesse acontecido ontem.
