Capítulo 3 Nova cidade, novo recomeço.
Olívia Campbell
Piso no freio com um pouco mais de força do que pretendia quando o semáforo ficou vermelho e as luzes traseiras dos carros à minha frente se acendem de repente. Enquanto espero, encosto a cabeça no apoio do banco por um segundo, soltando um suspiro longo. Meus ombros estão rígidos e sinto uma pontada começando a me incômodar na base da coluna — fruto das horas seguidas atrás deste volante e do cansaço acumulado; venho dormindo mal há dias.
Estico o pescoço para um lado e para o outro, escutando um estalo leve antes de voltar a focar no trânsito, quando o sinal fica verde.
Sorrio, quando uma garoa fina e persistente começa a cobrir o para-brisa. Pelo que li sobre a cidade, até estranhei não estar chuviscando.
Aciono a alavanca do limpador de para-brisa, que solta aquele rangido incômodo contra o vidro ainda meio seco, limpando a névoa e revelando a silhueta dos prédios altos e imponentes surgindo na neblina cinzenta.
Seattle.
Meu novo lar.
Estou bem confiante. É como se, pela primeira vez em dez anos — desde que juntei meus cacos e fugi pra casa da vovó Martha —, eu finalmente sentisse isso. A verdade é que tenho um pressentimento bom .
Ligo o desembaçador no máximo e passo a palma da mão no vidro lateral para limpar o vapor acumulado antes de trocar de faixa. Dou uma olhada rápida para a tela do GPS no painel. Não falta muito para o endereço do meu novo apartamento, cerca de vinte minutos, que eu poderia fazer em menos tempo se o trânsito e as ladeiras do centro de Seattle não exigissem tanta atenção.
As ruas vão cortando entre prédios espelhados, gigantes de cimento e aço, e as árvores que já começam a ganhar aquele tom alaranjado do outono. É lindo.
A primeira percepção que tenho é que aqui o ritmo é acelerado. Pessoas apressadas cruzam a faixa de pedestre, desviando-se da chuva fina, com passos rápidos e corpos curvados contra o vento. Uns poucos se protegem debaixo de guarda-chuvas, mas o que me chama a atenção é que a maioria parece estar acostumada: anda de cabeça descoberta mesmo, com as mãos afundadas nos bolsos dos casacos pesados.
Curiosamente… gosto disso.
Assim que contorno a esquina devagar, paro os olhos em uma placa e, pela primeira vez, vejo o nome: Queen Anne.
Um sorriso involuntário escapa dos meus lábios.
É aqui.
Com o trânsito um pouco mais leve, piso um pouco mais fundo no acelerador para vencer a primeira subida íngreme e escuto o motor roncar suave enquanto o carro ganha a ladeira.
Olho pelo retrovisor, vendo as caixas de concreto e o caos do centro simplesmente ficarem para trás. Em seu lugar, ruas arborizadas, folhas alaranjadas acumuladas no meio-fio, contornando calçadas floridas e fachadas antigas de tijolos. Abaixo um dedinho da janela, só para sentir o ar novo soprar no meu rosto. Nem parece a mesma cidade.
Não é a primeira vez que me mudo de cidade — na verdade, é a segunda —, mas é a primeira vez em vinte e sete anos que vou morar completamente sozinha. Não vão ter meus pais, nem a minha avó. Somente eu.
Quem sabe eu até adote um gato.
Um sorriso espontâneo surge no meu rosto.
Você é mesmo uma fraude, Olívia.
Por mais que eu tente parecer a mulher super decidida e dona de si… a verdade é que estou assustada pra caramba.
Quando deixei minha cidade natal para trás pela primeira vez, eu não estava apenas cruzando a fronteira do estado. Eu estava tentando desesperadamente matar a garota ingênua e boba que fui.
Massachusetts me acolheu quando eu estava em cacos. Minha avó fez muito mais do que abrir a porta do quarto de hóspedes da casa dela em Cambridge para mim; ela me ofereceu o abrigo mais valioso que alguém poderia me dar naquele momento: o direito ao silêncio.
Foi ao lado dela que atravessei os anos intensos do curso de Direito em Harvard. Enquanto meus colegas de turma organizavam viagens nos fins de semana prolongados, frequentavam os pubs universitários, iam a festas em fraternidades e acumulavam amores e histórias ruidosas para contar nas manhãs de segunda-feira, eu passava minhas noites isolada nos andares mais altos da biblioteca da faculdade.
Fiquei perita em me cercar de pilhas de códigos, doutrinas pesadas e jurisprudências complexas.
Mergulhar nas leis era infinitamente mais fácil do que encarar os sentimentos que queimavam no meu peito. Construir uma barreira profissional sólida e impecável parecia muito menos aterrorizante do que correr o risco de me vulnerabilizar e deixar qualquer pessoa se aproximar o suficiente para me quebrar outra vez.
Pisco algumas vezes, afastando as lembranças e voltando a focar na rua à minha frente. Há um charme sóbrio, quase aristocrático, naquele bairro. Queen Anne é aquele lugar elegante sem precisar se esforçar para impressionar ninguém, justamente como a mulher que lhe empresta o nome.
Gosto disso. Muito.
Poucos minutos depois, reduzo a velocidade e encosto a calçada em frente ao edifício de tijolos avermelhados que, a partir de hoje, é o meu novo endereço.
Desligo o motor. O silêncio que se instala dentro do carro é imediato. Seguro o volante por longos segundos, apenas observando a fachada do prédio através das gotículas de chuva que começam a se acumular no para-brisa.
O edifício não tem a ostentação dos arranha-céus espelhados do centro, mas transborda personalidade. As janelas têm molduras brancas impecáveis e duas grandes floreiras de lavanda ladeiam os degraus da entrada. Uma elegante marquise de ferro trabalhado em tom preto fosco se projeta sobre o acesso principal, protegendo a pesada porta de madeira e vidro.
Meu coração dá um salto desordenado contra as costelas e sinto as palmas das mãos suarem levemente. É até difícil acreditar que estou realmente aqui. Passei os últimos dois meses engolida por burocracias: assinando contrato de aluguel, conferindo documentos da admissão, agendando a transportadora e organizando minhas coisas em dezenas de caixas de papelão. Mas só agora, encarando aquela entrada, a ficha finalmente cai.
Meu apartamento. Meu novo emprego no escritório Meurer Advocacia. Minha vida inteira pela frente, escrita em uma página totalmente em branco.
Respiro fundo, sentindo o ar gelado preencher meu peito.
— Vamos lá, Olívia. — murmuro, encarando meus próprios olhos verdes pelo espelho retrovisor.
Ajusto a bolsa no ombro, visto o casaco e empurro a porta do carro. O vento gelado de Seattle bate direto contra o meu pescoço, cortando a pele e arrepiando os pelinhos dos meus braços de imediato. Fecho os olhos por um segundo, sentindo o ar úmido queimar meus pulmões, e vou direto ao porta-malas.
Pego a mala de mão que trouxe com o essencial para uma ou duas noites, já que o restante das minhas coisas vem por transportadora e fiquei com medo de atrasar, e bato a tampa do carro.
Caminho a passos rápidos até os degraus de acesso ao prédio charmoso. Ao fechar a pesada porta de madeira e vidro atrás de mim, o ar morno do aquecedor central me atinge em cheio, fazendo a pele do meu rosto arder de leve no contraste com o frio da rua.
