Capítulo 4 Meu novo lar
Levo os dedos, afrouxando a gola do casaco, e dou o primeiro passo antes de aparar e absorver a minha volta. Meus olhos correm pelo piso de madeira escura, tão polido que reflete a iluminação amarelada do teto; acho que eu poderia até me maquiar nele — e o cheiro de cera recente sobe no mesmo instante. Um pouco mais à frente, sobre o balcão da recepção, tem um arranjo alto de lírios brancos que chama a atenção; o perfume fresco das flores é tão marcante que consigo senti-lo daqui mesmo, misturado ao calor gostoso do ambiente.
Respiro fundo e volto a caminhar.
Toc. Toc. Toc.
O som ritmado do salto da minha bota estala pelo hall, estalando contra o piso de madeira. Tudo aqui é de uma elegância. Paredes de tom creme, os quadros de moldura dourada e a iluminação amarelada.
Conforme avanço em direção ao balcão, um senhor de cabelos grisalhos e óculos de leitura na ponta do nariz ergue os olhos de uma TV. Ele me observa aproximar, ajeita as lentes e abre um sorriso gentil.
— Boa tarde, senhorita! Posso ajudá-la?
— Boa tarde. Sou a Olívia Campbell. Vim buscar as chaves do meu apartamento.
— Ah, sim! A nova moradora — ele diz, ajustando os óculos e abrindo uma pequena gaveta de madeira. Ele confere meus documentos com atenção e me estende um envelope de papel kraft pesado. — Apartamento 1003. Seja muito bem-vinda ao prédio, senhorita Campbell.
— Por favor, me chame só de Olívia — respondo, fechando os dedos ao redor do envelope. É impressionante como a textura simples de um pedaço de papel com duas chaves de metal dentro pode carregar um peso emocional tão esmagador.
Agradeço com um aceno e sigo em direção ao elevador. Mais tarde guardo o carro.
Aperto o botão para chamar o elevador e respiro fundo.
As portas de metal se fecham devagar, me isolando do hall. Ergo o olhar e encaro o espelho que cobre a parede do elevador e faço uma careta: estou uma bagunça. Uma bagunça cansada.
Tem duas olheiras profundas em meus olhos, a minha pele está mais avermelhada que o normal e meu cabelo parece ter travado uma batalha contra um ciclone. Minha boca está pálida, e minhas sardas parecem que estão ainda mais escuras. Para completar o caos, minha roupa está toda amassada.
Ajeito meus óculos, passo as mãos pelos cabelos, tentando domar os fios, e termino de prendê-los em um coque.
Se minha mãe me visse nesse estado, com certeza eu iria apanhar. Solto uma risada curta e balanço a cabeça.
O elevador avisa a chegada com um bip suave e as portas se abrem. Em poucos passos, paro na frente da porta. Da minha porta.
Passei anos engolindo noites em claro em Harvard, devorei a prova da ABA, consegui meu primeiro emprego, encarei juiz de cara fechada e comemorei a primeira vitória em um tribunal sem piscar… E agora é a porta de um apartamento novo que faz meu estômago dar nós?
— Você é inacreditável, Olívia — murmuro, encarando a madeira.
Por alguns segundos, apenas observo aqueles números. É curioso como uma simples porta pode separar duas versões da mesma pessoa.
De um lado, a Olivia, que passou anos reconstruindo a própria vida.
Do outro…
A mulher que finalmente terá a chance de descobrir quem se tornou. Solto um sorriso, faço um sinal da cruz e enfio a chave na fechadura e a giro até ouvir o estalo. Levo a mão à maçaneta, sentindo o metal frio, e empurro a porta.
O ar abafado do apartamento me recebe. Entro e fecho a porta com o calcanhar. O baque surdo do trinco dá uma sensação de estranhamento. Mas é um estranhamento bom.
Largo a mala no chão, próxima à porta, me abaixo ali mesmo, tiro as botas de salto e deixo num cantinho. Quando meus pés, ainda de meia, tocam o chão frio de madeira, sinto imediatamente um alívio.
Caminho sem pressa pela sala; estou tão exausta que quase me arrasto, mas, mesmo assim, passo os próximos minutos conhecendo o apartamento. Não é grande, como a casa da minha avó ou a dos meus pais, mas é bem mobiliado e prático, possui tudo que eu possa precisar, o que foi uma verdadeira sorte.
Volto para a sala e não resisto; sigo até a imensa janela na sala, abro as cortinas claras e fico embasbacada. A vista que se desenrola à minha frente é arrebatadora; é possível ver o parque do bairro, suas construções e, no horizonte, os prédios do centro de Seattle.
Eu simplesmente amei esse lugar.
Poderia passar horas nessa janela só contemplando, mas acabo bocejando, sentindo o peso da exaustão finalmente vencer a adrenalina da viagem. Meus olhos pesam automaticamente e, de repente, o sofá se torna muito atrativo. Me jogo nele, afundando no estofado que parece me abraçar.
Jogo a cabeça para trás e encaro o teto, apreciando o silêncio absoluto ao meu redor.
Um cochilo de uma hora e um banho quente fizeram minha alma voltar para o corpo. Ainda de cabelo úmido, visto-me de uma camiseta e legging. Na sala, sento-me no chão e começo a puxar as caixas, dando uma organizada, pois a transportadora havia trazido tudo há cerca de meia hora e parecia que a bagunça estava querendo me engolir.
Abro a primeira caixa e começo a retirar as coisas de dentro, separando-as à minha volta. É quando o toque estridente do celular rasga o silêncio do ambiente, me causando um susto. Pego o aparelho e vejo o nome da Claire piscando incessantemente na tela.
