Capítulo 5 O melhor café da cidade!

Pego o aparelho e o nome da Claire pisca na tela insistentemente.

— Oiê? — atendo, colocando no viva-voz, deixo o celular em cima do sofá mais próximo e volto a abrir a próxima caixa.

— Olá, minha advogada favorita! Você já chegou? Pelo amor de Deus, me diz que você não se perdeu! — A voz de Claire sai meio abafada, cochichada. Já até imagino que deve estar trabalhando, porém transborda aquela energia caótica e calorosa de sempre, o que me arranca um sorriso instantâneo.

— Cheguei inteira, Claire! E fique tranquila que não me perdi. Não sei se você sabe, mas já inventaram o GPS e eu sei usar. — respondo, soltando uma risada curta enquanto tiro um porta-retrato embrulhado em plástico-bolha e sinto o estalo dos plásticos estourando sob meus dedos.

— Que orgulho! — desdenha e imagino seus olhos revirando. — Agora me fala… o que está achando? Gostou do bairro? Escolhi-o como se fosse para mim. Já te falei mil vezes que Queen Anne é meu bairro favorito na cidade, né? Tô até com um pouquinho de inveja.

— Há, há, boba! — brinco, afastando uma mecha de cabelo do rosto. — O pouco que vi do bairro, eu gostei, e outra, pode ir tirando essa inveja do peito, porque, além de ser um sentimento que não combina contigo, você sabe muito bem que esse sofá na minha frente é metade seu. Se quiser a cama, também posso pensar em dividi-la, se você for uma boa menina.

Levo a mão aos cabelos, jogando-os de lado e sorrio para o nada, sentindo um quentinho bom dentro do meu peito e, além de gratidão, por tê-la de volta em minha vida. Depois de anos separadas, nós nos reencontramos na faculdade e nos reconectamos instantaneamente; foi como se todos os anos e a distância nunca tivessem existido. Prometemos nunca mais nos distanciar, uma promessa que fizemos questão de cumprir, mesmo quando Claire se mudou para Seattle no ano passado.

— Ah, mas que honra, muito obrigada, queridinha! — ri. — Mas, me conta, que horas você chegou? Já foi dar umas voltas e ver onde fica o escritório?

— Voltas? Eu capotei no sofá assim que pisei aqui e agora estou afundada num mar de caixas de papelão — respondo, soltando um suspiro pesado. Passo os dedos pelo contorno de madeira da moldura da foto, olhando ao redor para a sala bem iluminada, sem nada ainda que grite o meu nome. Meus olhos são atraídos para a janela e sorrio. — Tenho que te agradecer, você acertou em cheio… Claire, isso aqui é tão lindo. Nossa, a vista é incrível… apesar de que, toda vez que encaro a janela, fico um pouco intimidada. Essa cidade é enorme.

— No começo me senti assim também, mas me acostumei e você também irá se acostumar, Olívia! É tudo muito novo para você, mas tenho certeza de que logo você perceberá que Seattle é perfeita.

— Acho que só estou um pouco cansada da viagem. — suspiro, sentindo-me uma boba.

— Pode ser… Mas, olha, para te deixar mais animadinha, vou montar um roteiro para te ajudar a aproveitar a cidade. Quem sabe, conhecer alguém…

Solto uma risadinha nervosa, balançando a cabeça.

— Isso parece ótimo, Claire… — respondo, com um toque de ironia. — Se meu foco fosse esse, e não o trabalho.

— Ah, para, Olívia! Vamos ser realistas aqui. Você vai encontrar um monte de homens interessantes. Acredite em mim, moro na cidade há bastante tempo e tenho certeza que…

Sinto o músculo do meu peito contrair. O “muro” que construí sobe no mesmo instante.

— Vamos pisar no freio, Claire — interrompo-a. — Eu mal cheguei. Vamos com calma.

— Pisar no freio? Olívia, desculpa te falar isso, mas você precisa começar a viver, não só sobreviver como vem fazendo todos esses anos.

Paro o que estava fazendo, deixando o porta-retrato de lado, e me encosto na parede fria. Suspiro, sentindo as palavras dela reacenderem lembranças que eu preferia manter bem longe... bem esquecidas... bem lá no fundo.

— Eu só... não sei, Claire — murmuro hesitante. — Mas não quero nunca mais passar por aquilo.

Desde Anthony, nunca mais consegui abrir meu coração para alguém. E eu tentei, juro que tentei.

Até tive um namorado na faculdade, mas não durou muito. Ele era um príncipe, um doce, e o problema era que eu o via mais como amigo do que como amante. Eu não sabia confiar e ainda acredito que não sei. E, apesar de ele ser um rapaz legal, a simples ideia de me apaixonar de novo me dava um nó no estômago. A falta de conexão entre nós era tão frustrante para mim que decidi que o esforço não valia a pena.

Foi ali que decidi fechar as portas de vez. Eu simplesmente parei de tentar. Decidi fechar meu coração e focar só no que realmente eu pudesse controlar: meus estudos e, mais tarde, meu trabalho.

— Eu sei, amiga… — Claire suspira do outro lado. — Eu sei o quanto doeu. Mas não deixa o fantasma do passado roubar o seu presente. Você precisa pelo menos tentar, ou no fim eles terão vencido. Você. Isso não é justo com você.

— Vamos ver… — digo, levo o dedo à boca, mordendo o cantinho da cutícula, enquanto penso no que ela falou. E realmente não é justo comigo. — Não te prometo nada, a não ser tentar.

— Já é um começo! — diz e escuto o som de palmas. — Agora deixa essas caixas para depois, garota, e vai descansar ou passear, ou... sei lá, vai fazer qualquer outra coisa que não seja isso… Quanto a mim, já vou começar a preparar o nosso roteiro para amanhã, tá bom?... E já vou te avisando que não quero desculpas! Devo chegar à cidade pela manhã.

Após desligarmos, o silêncio volta a tomar conta do apartamento, mas a conversa que tivemos acabou deixando meus pensamentos um tanto agitados. Olho ao redor e me espreguiço. Decido seguir o conselho de Claire e fazer uma pausa nas caixas. A TV a cabo e a internet ainda não estavam disponíveis, então não há muito o que fazer aqui dentro.

Precisando respirar um pouco de ar puro. Visto uma jaqueta de couro leve, jeans e um par de tênis confortáveis e saio levando apenas meu celular.

Queen Anne é diferente do que se espera de um bairro da cidade grande. Em vez do cheiro de gasolina e fumaça, o que sinto é o perfume suave de flores misturado ao das folhas das árvores, que já começam a ganhar tons alaranjados do outono. As calçadas são largas, limpas e arborizadas.

Canteiros de flores coloridas acompanham o caminho, e a cada poucos metros encontro bancos de madeira pintados de branco. O trânsito aqui não é tão intenso quanto nas áreas mais centrais da cidade, mas ainda há um fluxo constante de carros.

Ao chegar à esquina, meus olhos vão até uma confeitaria charmosa que chama minha atenção. Uma pequena placa de madeira, com uma caligrafia clássica e impecável, daquelas que vemos em filmes antigos, promete: "O melhor café da cidade!"

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