Capítulo 2 O caso da família Cruz

Daniela

Sento atrás da minha mesa no escritório, o silêncio sendo quebrado apenas pelo som leve do ventilador que gira devagar acima de mim e pelo farfalhar de papéis que organizo com cuidado. À minha frente, pilhas de processos, relatórios de ocorrências e documentos antigos ocupam quase toda a superfície de madeira escura, cada um marcado com carimbos, anotações e datas que contam histórias de casos resolvidos e outros que ainda esperam por uma resposta. Sou , promotora de justiça há 2 anos, e aprendi cedo que os detalhes não estão apenas escritos , eles estão na forma como as palavras são dispostas, nas datas que não coincidem e nas lacunas que ninguém percebe de primeira vista.

Estou a meio de verificar um relatório quando o interfone na mesa emite um sinal curto e firme. A voz do secretário soa clara

Secretário: Daniela, o diretor pede a sua presença imediata na sala de reuniões. Todos os promotores, agentes e detetives já estão a caminho.

Assinto, mesmo que ele não possa ver, fecho a pasta que tenho nas mãos. Levanto, endireito o blazer escuro que visto todos os dias e ajeito os cabelos que prendo num coque firme para não atrapalhar. Caminho pelos corredores do edifício , paredes claras, portas com placas de metal, o cheiro de papel, café e tinta de impressora e percebo que a atmosfera hoje está diferente, não é a rotina tranquila dos casos pequenos, mas sim uma tensão silenciosa que se espalha entre os que passam.

Quando entro na sala de reuniões, todos já estão nos seus lugares. É um espaço amplo, com uma mesa comprida no centro e, na parede da frente, o ecrã de projeção ,é o equipamento onde costumamos exibir todas as informações essenciais para as investigações, para que todos possam ver com clareza. O diretor está de pé, com as mãos apoiadas na borda da mesa, e quando me vê chegar, apenas faz um gesto com a cabeça para eu me sentar.

Sento numa das cadeiras, abro o meu caderno e pego na caneta, preparada para anotar cada palavra. O diretor espera até que todos estejam em silêncio, antes de começar

Diretor: Obrigado a todos por se reunirem com tanta brevidade. O caso que vou apresentar hoje não é um caso comum. Chegou há poucas horas e requer a nossa atenção máxima, pois envolve uma família de grande influência e uma situação que pode complicar-se rapidamente se não agirmos com agilidade e precisão.

Ele aciona o comando e, de imediato, uma imagem aparece no ecrã . A fotografia de uma jovem, com cerca de 23 anos, olhar sereno e um sorriso leve e confiante. Abaixo, surgem os dados completos

Mariana Cruz, 22 anos. Influenciadora digital com milhares de seguidores em todo o país , estudante na Faculdade de Moda e Design da Cidade, uma instituição de prestígio frequentada principalmente por famílias da elite. Residente no bairro Alto das Acácias.

Diretor: Esta é Mariana Cruz. Desapareceu ontem à noite, por volta das 20h30. Segundo o relato da família, ela saiu da sua casa para ir a uma livraria especializada em materiais de moda no centro da cidade , um percurso que fazia regularmente, sempre avisava aonde ia e a que horas esperava regressar. Mas não chegou ao destino, não respondeu a mensagens nem atendeu chamadas. O telemóvel está desligado desde as 20h42, e não há registo de movimentos no seu cartão bancário nem atividade nas suas redes sociais desde a hora da saída.

Ele muda a imagem no ecrã para um mapa detalhado da cidade, com linhas marcando o caminho que ela deveria ter seguido, e depois para fotografias dos locais que visitou nos últimos dias, a universidade, um café frequentado por estudantes e profissionais da área, a casa de amigos e espaços onde costumava gravar conteúdo para as suas redes.

Diretor: Os últimos passos confirmados dela foram na porta da sua casa e na esquina principal da rua, onde as câmaras de segurança a captaram a caminhar sozinha, com a sua mochila e alguns livros. Depois disso, não há mais imagens. Por ser uma figura pública, o seu desaparecimento pode ganhar rapidamente repercussão na imprensa e nas redes, o que aumenta ainda mais a nossa responsabilidade.

Ele faz uma pausa e continuou

Diretor: A família Cruz está desesperada já pediram ajuda a outras entidades, o que significa que teremos de trabalhar não só com a nossa própria equipa, mas também em coordenação com outras agências. O tempo é o nosso maior inimigo aqui.

Ele olha para todos os presentes, e depois fixa os olhos diretamente em mim. Sinto o peso da sua atenção, mas mantenho calma, como aprendi a fazer ao longo dos anos.

Diretor: Daniela, este caso fica sob a sua coordenação. Observo o seu trabalho há tempo. Tens um olhar atento, não se deixa levar pelas primeiras impressões e consegue encontrar detalhes que outros ignoram. É precisamente isso que precisamos para perceber o que se passou com Mariana e com a família Cruz.

Faço um movimento afirmativo com a cabeça, sem interromper.

Diretor: Saiba que a família está muito ansiosa. Qualquer atraso ou informação mal explicada pode gerar desconfiança e dificultar o trabalho. Além disso, como outras equipas também estão envolvidas, temos de ser claros, organizados e rápidos. O objetivo principal é encontrar Mariana sã e salva, e descobrir a verdade sem pressa precipitada nem descuido. Conte com todos os recursos que precisar, com os detetives e agentes aqui presentes. Desejo sucesso a todos ,e lembrem-se , cada minuto conta.

Ele faz um sinal para encerrar a reunião. As pessoas começam a levantar, a trocar comentários baixos e a dividir tarefas, mas eu fico mais um momento, olhando ainda para a fotografia de Mariana no ecrã. Há algo no seu olhar que me faz sentir que este caso não vai ser simples. Famílias com influência, jovens com visibilidade pública e ambientes da elite muitas vezes guardam segredos, e segredos são o terreno onde as investigações mais complicadas se constroem.

Volto ao meu escritório com passos firmes, mas com a mente já a trabalhar. Fecho a porta atrás de mim, sento novamente e começo a organizar tudo que recebi . O relatório inicial, os dados pessoais, o trajeto percorrido, a lista de contactos próximos e até alguns dados sobre a sua atividade digital e a vida académica. Abro os arquivos digitais e papéis que já foram enviados para mim, folheando cada página com calma. Anoto no meu caderno as primeiras perguntas . Por que motivo o telemóvel desligou tão rapidamente? Teria ela recebido alguma mensagem ou encontro inesperado? Na sua vida de influenciadora e estudante, existia alguma rivalidade, dívida ou conflito que a família não mencionou?

Depois de reunir todos os documentos, as chaves do carro e o equipamento necessário para a investigação , máquina fotográfica, caderno, lanterna, cartão de identificação oficial e uma lista de perguntas para os familiares , guardo tudo numa pasta resistente. Sei que o primeiro passo, antes de ouvir qualquer versão, é ver com os meus próprios olhos. Não há melhor ponto de partida do que o último lugar onde a vítima esteve em segurança ,a sua casa.

Saio do edifício, o sol da tarde já menos intenso, mas o calor ainda presente. Entro no carro, coloco a pasta no banco do passageiro e ligo o motor. Enquanto conduzo em direção ao bairro Alto das Acácias, o pensamento não sai da minha cabeça . A família Cruz é conhecida na cidade, tem negócios importantes e uma reputação construída ao longo de gerações. Mariana, por sua vez, parecia ter uma vida pública organizada e bem sucedida. Mas em casos de desaparecimento, a verdade raramente está na superfície. Muitas vezes, ela está escondida nos pequenos detalhes, nos silêncios e nas contradições que só aparecem quando olhamos para além do que nos mostram ou contam.

Chego ao bairro, uma zona de ruas largas, casas com jardins bem cuidados e muita tranquilidade. A casa da família Cruz destaca-se entre as outras. Uma construção ampla, com muros altos, portões de ferro trabalhado e árvores que dão sombra a toda a entrada. Mostro a minha identificação ao segurança na portaria, e o portão abre-se lentamente. Estaciono o carro em frente à porta principal e saio, respirando fundo. Aqui começa a minha investigação. Aqui é onde vou procurar as primeiras pistas que possam me levar a Mariana e desvendar o que realmente aconteceu.

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