Capítulo 1

POV da Vivian

Às seis da tarde, finalmente recebi a mensagem do Dylan — a festa de aniversário tinha sido adiantada para as cinco.

Larguei o trabalho do laboratório e corri sob a chuva forte para buscar o bolo.

Quando empurrei a porta do salão de festas, meu cabelo comprido já estava encharcado, a água pingando das pontas direto no meu vestido.

Lá dentro, o lugar já fervilhava. Risadas e o tilintar de taças vinham de todos os lados. Meu olhar varreu a multidão e parou na mesa principal — Allen estava sentado entre Dylan e uma mulher. A mulher segurava a mão dele, inclinada na direção do Dylan, rindo com intimidade.

Eu congelei.

O sorriso no meu rosto foi sumindo devagar, até desaparecer por completo, deixando só um frio que parecia entrar nos ossos.

A dor daquele parto difícil ainda estava viva na minha memória. Cinco anos. Eu aguentei por cinco anos inteiros. E agora, toda a esperança que me restava se estilhaçou, sobrando apenas um desespero sem fim.

Coloquei a caixa do bolo com naturalidade numa mesa próxima e peguei alguns lenços, secando devagar a água do meu cabelo.

Eu usava um vestido preto simples, de decote quadrado, e o cabelo estava preso de qualquer jeito, deixando à mostra um pescoço elegante, de cisne. Mesmo sem maquiagem, eu não ficava devendo em nada a nenhuma das convidadas ali.

Não demorou e eu ouvi cochichos atrás de mim.

“Não é aquela Wilson?”

“É. A mulher que se enfiou na família Hudson ficando grávida. O Dylan disse que ela não é digna de ser esposa dele.”

Toda vez que eu acompanhava Dylan em eventos públicos, eu ouvia comentários assim. Antes, essas palavras teriam me ferido. Agora, eu já estava anestesiada.

Sorri de leve para as duas pessoas, e elas desviaram o olhar na mesma hora, sem graça.

Peguei a caixa do bolo de novo e fui em direção ao Allen, passo a passo.

“Meu amor, feliz aniversário.” Agachei na frente dele e sorri. “A mamãe trouxe um presente pra você.”

Mas o menino que, instantes antes, estava sorrindo radiante, de repente fez uma expressão de nojo que não combinava com o rosto de uma criança. Ele me encarou e jogou as batatas fritas que estava segurando em mim.

“Quem mandou você vir! Eu não te convidei!”

“Allen.” A voz grave do Dylan veio em seguida, com uma ponta de desaprovação.

Mas foi só isso que ele disse: “Não joga as coisas. Tenha educação.”

Ele não achou que havia nada de errado o Allen ser grosseiro comigo.

Eu tinha passado cinco anos cuidando dele com paciência, fazendo tudo o que podia para seguir os melhores métodos de criação — só para criar uma criança assim. Eu me levantei, com a voz calma: “Allen, eu sou sua mãe.”

“Vivian, criança fala sem pensar. Não leva pro coração.”

A mulher sentada entre Allen e Dylan se levantou. Ela usava um vestido vermelho tomara-que-caia, o cabelo castanho-caoba caindo macio perto das orelhas, e tinha um jeito delicado.

Hazel Hughes — assistente sênior do Dylan na empresa.

“Eu estava só brincando com o Allen antes, dizendo pra ele te provocar um pouquinho. Não leva a sério”, ela disse sorrindo, mas eu vi o desafio no olhar dela.

“Então foi você que mandou meu filho ser mal-educado com a própria mãe.” Eu dei uma risadinha. “Bem a cara de uma funcionária do Grupo Hudson.”

“Vivian.” Dylan se levantou.

Hoje, de forma incomum, ele estava usando um terno prateado claro que se destacava sob as luzes. Os ombros retos dele carregavam uma presença opressiva, e os lábios finos e os olhos profundos eram igualmente distantes.

Quando eu entrei, eu tinha visto de relance um sorriso gentil no rosto dele — dirigido à Hazel. Agora, de frente para mim, ele tinha voltado à frieza de sempre.

—Eu sei que você está chateada —ele começou. —Eu mudei o horário da festa e esqueci de te avisar antes. A culpa é minha. Mas não desconta nos outros.

Hazel era a assistente dele e também amiga de infância, cuidava da agenda dele com uma mão e, no processo, parecia controlar a nossa vida inteira. Na nossa noite de casamento, ela tinha marcado uma reunião internacional para o Dylan, me deixando sozinha num quarto vazio. E o Dylan achou que não tinha nada de errado nisso. Dessa vez, o horário da festa tinha mudado —como não teria sido coisa dela?

Mas eu já não me importava.

—Tudo bem —ergui o queixo para encará-lo. —Eu só acho meio patético.

Dylan franziu levemente a testa, mas não perguntou mais nada.

—Eu não quero esse bolo feio! —Allen reparou de repente na caixa de bolo sobre a mesa e deu um tapa nela. A caixa caiu no chão, e o creme espirrou para todo lado. —Eu quero o bolo que a Hazel comprou! —Ele levantou o olhar, os olhos presos nela com expectativa.

—Aquele bolo tem glúten —olhei para o chão, com a voz sem emoção. —Se você comer, vai ter uma reação alérgica.

—Tá tudo bem, eu comprei tudo orgânico. O Allen com certeza não vai ter alergia —Hazel sorriu para mim, num tom cuidadoso, como quem está sendo atenciosa.

—E o meu presente? Você não disse que ia me dar o carrinho de corrida de edição limitada? —Allen me empurrou com força de novo. —Se você não trouxe presente, então vai embora! Você não serve pra nada, não chega aos pés da Hazel!

O empurrão me fez cambalear para trás, abrindo distância entre mim e aquela “família de três”. As palavras dele foram como uma agulha, enfiando direto no meu coração.

—Você está sendo muito mal-educado comigo, então eu não vou te dar o presente.

Então eu ouvi o Dylan dizer:

—Hoje é aniversário do Allen. Você vai mesmo discutir com uma criança? Não desconta suas emoções nele.

O tom dele era despreocupado, como se a errada fosse eu.

Ele se aproximou, baixando a voz:

—A família da Hazel tem passado por umas coisas ultimamente. Ela precisa sentir o calor de uma família, então eu pedi para ela passar mais tempo com o Allen. Não fica assim.

—Você sabia que isso ia me deixar chateada, mas trouxe ela mesmo assim.

Meu sorriso veio cheio de sarcasmo.

—Dylan, e se eu disser: ou a Hazel vai embora, ou a gente se divorcia —o que você escolhe?

Enquanto eu falava, meus olhos ficaram presos no rosto dele, sem perder nenhuma mínima mudança de expressão.

O choque apareceu por um instante, e logo sumiu atrás daquela expressão dura, substituído por uma impaciência mal disfarçada.

—Vivian, para de fazer cena. Se você tem alguma reclamação, a gente conversa em casa.

—Eu não estou fazendo cena, Dylan. Eu estou falando sério —eu o encarei com calma. —Como sua esposa, eu já tive orgulho de você. É uma pena que, no fim, a gente não consiga dar certo.

Eu queria dizer para ele arrumar um tempo para conversarmos sobre o divórcio, mas a Hazel se aproximou, e aquela voz doce dela embrulhou meu estômago.

Eu me virei e saí direto.

Antes de ir, olhei para o Allen e disse:

—De agora em diante, a Hazel é a sua mãe.

O carrinho de corrida de edição limitada ainda estava na minha bolsa.

Eu saí do salão de banquetes passo a passo, com os passos leves, mas alguma coisa dentro do meu peito ia se esvaziando devagar —eu não sabia se eram lágrimas ou sangue.

Deixar os dois era como arrancar um pedaço do meu coração. Mas ficar só significaria apodrecer aos poucos, no ciclo diário de dar e ser ignorada.

Se é assim, então é hora de soltar.

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