Capítulo 2
POV da Vivian
Eu mal tinha voltado pro laboratório havia duas horas quando meu celular começou a vibrar.
O barulho dos equipamentos era alto demais. Quando eu percebi, já tinha perdido três ligações do Dylan. Ele nunca ligava daquele jeito — uma atrás da outra, sem parar.
Liguei de volta na mesma hora. “Desculpa, eu não ouvi o toque —”
“Vivian.” A voz dele estava controlada, mas inconfundivelmente fria. “O Allen teve uma reação alérgica. Vem pro hospital.”
Apertei o celular com mais força.
As reações do Allen nunca eram leves — respiração difícil, o rostinho dele ficando vermelho-escuro. Uma vez, a língua tinha inchado tanto que chegou a passar dos lábios. Essas imagens estavam gravadas em mim.
“Como ele tá agora?” Eu já estava indo em direção à porta por instinto.
“A Hazel tá com ele. Ele tá estável. Mas você é a mãe dele. Você devia estar aqui.”
Eu parei de andar.
Foi o bolo da Hazel que tinha colocado ele no hospital. E agora o Dylan estava me dizendo que ele já estava estável e usando o meu papel de mãe pra me chamar — pra quê, exatamente? Pra sentar com os três?
“Se ele tá estável, é isso que importa.” Minha voz saiu seca. “A Hazel queria sentir o calor de uma família, não queria? Então deixa ela ficar com ele. O Allen prefere ela mesmo.”
“Vivian!” A raiva veio clara pela linha. “Que história é essa? O que você tá fazendo?”
Eu conseguia ver o rosto dele perfeitamente — furioso, mas contido, com aquela expressão de impaciência de sempre. Eu queria explicar. Mas ele não ia entender. E eu tinha cansado de me moldar ao que ele queria.
Nesse instante, do outro lado da parede de vidro do laboratório, uma luz de erro começou a piscar.
A última amostra que restava. Se desse errado agora, quinze dias de cultivo iriam pro lixo e eu teria que recomeçar do zero. Meu peito apertou. Levei o celular de volta ao ouvido e disse: “Aconteceu uma coisa aqui. Eu tenho que ir.”
Desliguei, coloquei o celular no silencioso e joguei tudo o que eu tinha pra salvar o experimento.
Na manhã seguinte, quando o trabalho finalmente terminou, eu finalmente tive um momento pra ver o que eu tinha perdido.
Dylan tinha ligado mais uma vez. Eu não atendi. Depois disso, ele não deixou mensagem.
Mas o Daniel, meu parceiro de pesquisa, tinha mandado uma enxurrada de mensagens cada vez mais desesperadas — tinha alguma coisa errada.
Liguei pra ele imediatamente. “O que aconteceu?”
“O investidor tá caindo fora.” A voz dele mal se sustentava. “Eles me avisaram ontem à noite. Eu tentei falar com você, mas você não respondia. Eles bateram o martelo hoje de manhã. Acabou. Eles saíram.”
“Por que só avisar com uma noite de antecedência? A gente tinha um acordo. Como é que dá pra simplesmente abandonar assim?”
Houve um silêncio breve e, em seguida, uma risada baixa, sem alegria. “Não se preocupa. Eu resolvo.”
Pra mim, já estava óbvio quem era o investidor. Dylan.
Alguns anos atrás, uma gravidez não planejada tinha me tirado da minha carreira. Eu passei cinco anos como mãe em tempo integral. Agora que o Allen estava quase na idade de entrar no ensino fundamental, eu finalmente tinha decidido recomeçar. Dois meses atrás, eu tinha conversado com o Dylan. Ele tinha concordado — e ainda tinha se oferecido pra bancar tudo do próprio bolso.
Mas agora, porque eu tinha ousado desligar na cara dele pra cuidar do meu trabalho, ele estava me fazendo pagar por isso.
Ele tinha me dado uma noite pra eu voltar atrás. Uma noite pra eu “pensar melhor”, ir pro hospital e voltar pro meu lugar.
Ele sempre soube exatamente como me manter presa.
Eu rolei meus contatos enquanto esperava meu café da manhã chegar, e meu dedo parou num nome que eu não tocava havia muito tempo.
Eu hesitei por alguns segundos, então apertei pra ligar.
Já tinha passado um pouco das sete — não era o horário dele. A gente não se falava havia mais de um ano, e nossa última conversa tinha terminado num desastre. Ele provavelmente ia desligar na minha cara. Ou começar com os insultos.
Dez segundos depois, ele atendeu, a voz carregada de sono.
— A Vivian morreu?
— Jason, eu não morri — eu disse, meio sem graça. — Tô bem viva. Senti sua falta.
— O que você quer? — A voz do outro lado ficou afiada na hora, o sarcasmo voltando pro lugar. — O que foi dessa vez? Seu marido fez alguma coisa? Você finalmente pensou em me ligar primeiro ou tá só com medo de mandar a Mamãe e o Papai pro hospital de novo?
Meus lábios se mexeram por um instante. Aí, baixinho:
— Desculpa.
Eu tinha ignorado todos os avisos e mesmo assim me casei com o Dylan, queimando todas as pontes no caminho. Ao longo dos anos, toda vez que eu procurava minha família era depois de alguma briga com o Dylan — e toda vez eu acabava voltando pro lado dele. Meus pais e meu irmão já tinham se machucado vezes demais.
— Eu não tô aceitando o pedido de desculpas. — Jason soltou um som curto, de desdém, mas a maior parte da irritação já tinha saído da voz. — Me diz o que você precisa.
Aquele tom significava que ele já tinha passado por cima disso. Eu amoleci na hora.
— Meu laboratório precisa de investimento. Alguma coisa entre oitenta e cem milhões. Você consegue me ajudar, Jason?
— Você tá trabalhando? — Ele soou genuinamente surpreso. — Que tipo de laboratório? Pesquisando receitas novas pra fazer seu marido e seu filho gostarem mais de você?
Essa língua afiada.
— Cultivo de redes neurais. É uma área de verdade.
— Finalmente levando sua carreira a sério. — Um traço de aprovação entrou na voz dele. — Cem milhões? Fechado. Mais algum pedido, Sra. Wilson?
O apelido antigo, provocador. Eu ri pela primeira vez em o que pareceram dias.
— Mais uma coisa — você consegue dar um jeito de perguntar, discretamente, pra Mamãe e pro Papai quando eles estariam prontos pra me deixar voltar pra casa? Você acha que eles estariam dispostos a me perdoar?
Jason ficou em silêncio.
Eu achei que ele estava pensando, e eu já ia dizer alguma coisa quando a voz de uma criança explodiu do lado dele, animada e radiante:
— Tia Vivian! Você vai voltar? Eu vou contar pro vovô e pra vovó agora mesmo!
Aí a mesma vozinha de novo:
— Tia, o Allen vem também? Ele quebrou meu carrinho da última vez. Eu posso bater nele dessa vez?
Uma risada me escapou antes que eu conseguisse segurar. A lembrança veio na hora — o Allen correndo pela mansão dos Wilson como se fosse dono do lugar, e o Dylan se colocando na minha frente toda vez que eu tentava intervir e corrigir o menino.
Talvez a Hazel realmente fosse uma mãe melhor pra ele.
— Vai lá, vai brincar. — Jason enxotou o filho e voltou pra mim. — É sério desta vez? Você vai mesmo pedir o divórcio?
Da última vez que tudo desmoronou, minha família me deu uma escolha: ou eu me afastava do Dylan, ou nunca mais voltava.
— Sim. Eu já falei com ele. — Fechei os olhos. — Mas...
O Dylan não parecia ter levado a sério. E ainda tinha o Howard Hudson, o avô do Dylan. Ele não ia me deixar ir embora tão fácil.
Jason entendeu o que eu não estava dizendo.
— Se você já se decidiu, eu vou te ajudar. Tenho alguns projetos agora que iam se dar bem com alguém como você. Vem pra Sunlight City por uns dias — trabalha um pouco, esfria a cabeça, cria distância entre você e o Dylan.
Ele fez uma pausa e acrescentou:
— Ah, e eu vou te arrumar uns encontros enquanto você estiver aqui. Homens jovens, decentes, com a vida financeira em ordem, que vão te tratar direito de verdade.
Eu pigarreei.
— Jason! Eu nem entrei com o pedido oficialmente ainda!
