Capítulo 4

POV da Vivian

Ignorei o Dylan e puxei a porta do depósito, escancarando-a.

Minhas coisas estavam espalhadas pelo espaço apertado — algumas peças de roupa jogadas direto no chão.

Sacudi as roupas limpas, dobrei tudo e coloquei na mala, então me virei para sair.

— Aonde você pensa que vai? — Dylan entrou na porta, bloqueando a passagem.

— Isso não é da sua conta.

Puxei a mala para passar por ele.

— Aonde a Vivian vai? — perguntou Hazel atrás de mim, com a voz pingando preocupação falsa. — Sr. Hudson, o senhor pode falar com ela? Está tão tarde...

A voz do Dylan veio fria, afiada como uma lâmina.

— Se quer ir, vai. Só não se dê ao trabalho de voltar.

Não olhei para trás.

O ar da noite me atingiu assim que pisei para fora da vila. Eu o puxei para os pulmões e, pela primeira vez naquela noite, minha cabeça ficou limpa.


Já tinha passado da meia-noite quando consegui voltar ao laboratório. A moradia temporária era apertada e vazia, mas meu peito afrouxou no instante em que larguei a bolsa. Pelo menos ali eu conseguia respirar.

Meu celular vibrou. Mensagem do Jason:

[Troquei seu voo para a Cidade Sunlight. Você embarca depois de amanhã, bem cedo. Assim você tem um dia para deixar tudo encaminhado no laboratório. Me avise se precisar de alguma coisa.]

Respondi: [Obrigada.] Coloquei o celular de lado. Fiquei na janela e puxei o ar devagar.

Mesmo a essa hora, os pesquisadores lá embaixo ainda entravam e saíam do prédio. Ver o laboratório funcionando, constante e focado, finalmente desfez o nó que estava apertado no meu peito havia horas. Trabalho era a única coisa confiável a que eu sabia recorrer.

Levantei ao amanhecer, cabelo preso e jaleco branco, e atravessei as portas da sala limpa.

As amostras da rede neural nas placas estavam crescendo exatamente como planejado. No microscópio, as conexões sinápticas se formavam com uma complexidade que ainda me pegava de surpresa toda vez que eu olhava. Eu me joguei no trabalho — registrando dados, ajustando parâmetros — e só quando ergui os olhos percebi que a tarde tinha ido embora sem eu notar.

Meu celular vibrou.

Dylan.

Fiquei alguns segundos vendo o nome dele piscando na tela, antes de finalmente atender.

— Onde você está?

— No laboratório.

— Até quando você pretende prolongar isso? — a mesma impaciência. O mesmo tom. Algumas coisas nunca mudavam.

Apertei o celular e mantive a voz firme.

— Dylan, eu quero que você considere o divórcio com seriedade.

— Vivian. — A voz dele subiu um tom. — Já acabou? Essa ameaça de “quero me divorciar” funciona uma ou duas vezes. Depois disso vira só barulho.

Aí estava. Para ele, minhas escolhas eram só humores — birras e joguinhos infantis. Uma onda pesada de cansaço me atravessou de repente.

— Eu tenho coisas para resolver. Tchau.


Os dois dias seguintes na Cidade Sunlight foram intensos do começo ao fim — análise de dados, reuniões de andamento do projeto, ligação atrás de ligação com colaboradores. Minha cabeça mal tinha espaço para qualquer outra coisa. Aquela correria, por enquanto, era uma misericórdia.

Eu estava mergulhada num relatório de dados quando a ligação do Daniel quebrou minha concentração.

— Abre agora o grupo da rede acadêmica de Cidade Oceancrest. Isso aqui tá explodindo.

Abri o chat, e a primeira mensagem me parou na hora.

[Você soube da Vivian? Aquela que conseguiu financiamento pro projeto de cultivo neural? Parece que o casamento dela tá desmoronando.]

[Você tá falando sério? Ela não é casada com o Dylan Hudson?]

[Se é que dá pra chamar isso de casamento. Dizem que ela cansou de ser esposa e mãe, simplesmente foi embora e largou os dois pra trás.]

[Ela saiu de casa? O filho dela é tão pequeno e ela simplesmente abandonou eles? Que tipo de mãe faz isso?]

[É por isso que mulher tem que colocar a família em primeiro lugar...]

Um punhado de postagens anônimas. Ondas se espalhando a partir de uma pedra que eu não vi chegando.

Fiquei encarando a tela, sentindo o sangue escoar devagar das pontas dos meus dedos.

Fora a família, eu não tinha contado a ninguém sobre a separação. Meus colegas do laboratório só sabiam que o projeto estava me sugando e que eu ia dormir no local por alguns dias. O Daniel talvez tivesse percebido que tinha algo errado, mas ele não teria dito uma palavra.

De onde tinha saído aquilo?

Fechei o app e me obriguei a voltar ao trabalho, mas o nó de tensão entre meus ombros não cedia.


O ataque de verdade veio na manhã seguinte.

Antes do amanhecer, fui arrancada de um sono inquieto por uma enxurrada de notificações.

O quarto ainda estava escuro. A tela do celular, na beira do travesseiro, não parava de piscar. Tateei por ele, meio dormindo, desbloqueei — e acordei de vez.

Os ícones dos aplicativos de mensagem estavam abarrotados de números que continuavam subindo. O WhatsApp estava igual — solicitações de amizade de desconhecidos, mensagens não lidas se empilhando uma em cima da outra.

Abri a mensagem mais recente de um número desconhecido. As palavras pareceram um aperto físico no meu peito.

[Abandonar seu marido e seu filho por uma vida egoísta. Nojenta. Você devia ter vergonha de existir.]

[Você se chama de mãe? Você me dá nojo. Vai pro inferno.]

[Pobre Allen. Que coisa miserável, ter que ficar preso a uma mãe como você.]

Cada uma pior que a outra.

Abri o WhatsApp com os dedos tremendo. Dezenas de solicitações de amizade de estranhos, e cada mensagem vinha com alguma variação do mesmo ódio e desprezo.

Minhas redes sociais também tinham sido atacadas.

Alguém tinha postado o endereço do meu laboratório. Tinham desenterrado fotos antigas da minha época de faculdade. Tinham inventado detalhes com uma certeza perturbadora — acusações de negligência com criança, de eu ter me enfiado na família Hudson a qualquer custo. A seção de comentários de uma postagem recente que eu tinha feito sobre o andamento do projeto tinha sido soterrada em sujeira.

[Mulher independente — sei. Ela enjoou de vida de dona de casa e quis sair por aí. É isso.]

[O filho dela foi parar no hospital por causa de uma reação alérgica e ela nem se deu ao trabalho de aparecer. Isso é humano?]

[O Sr. Hudson é um homem bom. Ele não merece isso. Ela merece tudo o que vai cair em cima dela.]

[Gravem esse rosto. Vivian. Esposa e mãe que abandonou a família.]

Sentei na beira da cama, com o celular preso nas duas mãos, enquanto um frio profundo ia se espalhando por dentro de mim.

Puxei um canto da boca num gesto que não chegava a ser um sorriso.

Dylan. Hazel. Bem coordenados.

Forcei minha respiração a se estabilizar e disquei. A ligação engatou antes mesmo de o primeiro toque terminar.

“Vivian?” A voz do Jason tinha aquele tom áspero de começo de manhã, de quem acabou de emergir do sono. “A essa hora. O que aconteceu?”

“Jason.” Minha própria voz, quando eu ouvi, estava mais áspera do que eu tinha percebido. “Eu preciso da sua ajuda com uma coisa.”

“Fala comigo.”

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