Capítulo 5

POV da Vivian

Assim que Jason entrou em cena, os comentários direcionados desapareceram em questão de horas. Cada ligação e mensagem de assédio foi registrada e encaminhada para a polícia.

Os resultados voltaram exatamente como eu esperava — tudo rastreado até uma única “fazenda de trolls”, contratada pela mesma empresa. Eu nem precisava adivinhar quem tinha dado a ordem.

Mas eu ainda não tinha tempo para esse acerto de contas. Os projetos que o Jason tinha me atribuído atravessavam várias áreas avançadas e interdisciplinares, e o ritmo num ambiente novo não deixava espaço para distração. Aquela implacabilidade, à sua maneira, era um presente.


Naquela mesma noite, eu tinha acabado de voltar de uma reunião e mal tinha passado pela porta do apartamento quando a tela do meu celular acendeu.

Allen.

Fiquei olhando o nome dele por um instante, e então atendi.

— Mãe! Onde você tá? Volta pra casa agora e faz um misto-quente pra mim. E os biscoitos em forma de ursinho — a Barbara não consegue acertar e a Hazel não sabe fazer, então você tem que voltar e fazer. Volta!

Ele não estava com saudade de mim. Ele estava com saudade do que eu fazia pra ele.

Encostei na parede fria, com o pôr do sol de Sunlight City queimando em laranja e dourado pela janela — lindo, e completamente fora do meu alcance de onde eu estava.

— Allen, a mamãe tá trabalhando longe agora. Se você quer um misto-quente, pede pra Barbara continuar treinando, ou pede pra Hazel comprar alguma coisa pra você.

— Eu não quero isso! Eu só quero o seu! — a voz dele subiu, estridente. — Volta pra casa agora! A Hazel disse que você tá se escondendo da gente de propósito. Ela disse que você não me ama!

A Hazel disse.

Fechei os olhos. Quando abri, alguma coisa que vinha lutando pra se manter, finalmente se soltou.

— Allen, eu preciso que você me escute. — Minha voz saiu mais baixa do que jamais tinha saído com ele — e mais distante. — As coisas são diferentes agora. Eu não vou estar sempre disponível quando você ligar. Se você precisar de alguma coisa, procure as pessoas que estão aí com você. Eu tenho o meu trabalho. Eu tenho a minha vida.

Houve um silêncio breve do outro lado. Então ele se quebrou — em berros, em choro, num jorro de palavras que vinham rápidas e afiadas, mirando com precisão.

— Mãe ruim! Mãe ruim! Eu não quero você! A Hazel é melhor do que você em tudo! Você não é nada!

Aquelas palavras foram feitas pra acertar. E acertaram.

Eu não desliguei na hora. Apertei para gravar.

Esperei até a voz do Allen ficar rouca, até o grito virar choro e o choro virar um resmungo — só o refrão repetido, exausto, de eu quero a Hazel — e então eu falei.

— Terminou? Então tá. Tchau. Não liga a não ser que tenha acontecido alguma coisa importante.

Encerrei a chamada.

O apartamento ficou completamente silencioso.

Sentei no chão e fiquei ali por um bom tempo, sem me mexer.

Depois abri o WhatsApp, encontrei a conversa do Dylan e enviei o áudio gravado. Uma linha de texto embaixo: Sr. Hudson, a educação do seu filho precisa de atenção. Eu fiz tudo o que pude. Estou me afastando.

Enviar.

A resposta do Dylan veio rápido — um áudio. Eu me preparei para o de sempre: acusações, exigências, aquele tom característico de desprezo mal contido.

Mas a voz dele, quando tocou, estava diferente. Havia urgência nela. Do tipo que atravessa tudo.

— O Allen se machucou. Vem pro hospital. Agora.

Meu peito travou. Eu liguei de volta na hora.

— Onde você tá? — a voz do Dylan estava tensa, com uma fúria controlada. — No hospital infantil. O Allen caiu da escada. Bateu a cabeça.

Por um momento, eu não consegui respirar. — Como ele caiu? Foi grave?

— O que você acha? — o sarcasmo veio cortante. — Ele tá com um corte na testa. Vão manter em observação. O médico disse que não dá pra descartar uma concussão leve. E isso é por sua causa.

— Por minha causa? — eu disse, incrédula. — Dylan, eu tô em Sunlight City há dias. Seu filho caiu da escada. Como é que isso é culpa minha?

— A Hazel disse que, depois que o Allen desligou com você, ele não parava de chorar. Ficava dizendo que a mãe não queria mais ele. Ela não conseguiu acalmar. De repente ele disparou pra escada dizendo que ia te procurar — ela foi atrás, mas ele já tava caindo.

A fúria dele finalmente rompeu a superfície. — Você tá falando sério que vai usar a segurança do seu próprio filho como arma, Vivian? Até onde você consegue ir?

Eu segurei o celular bem imóvel.

— Dylan. Você realmente acredita que eu seria capaz disso?

Um silêncio curto.

"Eu não quero discutir isso. Venha para o hospital. Você é a mãe dele. O seu lugar é aqui."

"Eu estou indo."

Desliguei, procurei o próximo voo disponível e encontrei um que saía em duas horas. Peguei meu casaco e minha bolsa e saí correndo.


Depois de uma noite longa, sem dormir, viajando, cheguei ao Hospital Infantil Oceancrest ao amanhecer.

O corredor estava silencioso, branco e imóvel.

Empurrei a porta do quarto dele.

Allen estava na cama, pálido, a cabeça envolta em curativos, já dormindo — mas, mesmo dormindo, a testinha dele estava levemente franzida. Hazel estava sentada ao lado da cama, com uma mão sobre a dele, que repousava por cima do cobertor; os olhos dela, vermelhos e inchados.

Quando me viu, ela piscou, e então a expressão dela mudou para algo suave. “Vivian. Você veio.”

Dylan estava de pé junto à janela. Ele se virou ao ouvir a porta. A expressão dele não mudou. “Você realmente apareceu.”

Eu não respondi a nenhum dos dois. Fui direto até a beira da cama e deixei meu olhar pousar no rosto de Allen.

A dor veio sem aviso — repentina e aguda, atravessando direto a dormência. Ele ainda era meu filho. Estendi a mão para tocar a testa dele e parei quando vi os curativos. Minha mão ficou suspensa no ar.

“O que o médico disse?” Minha voz saiu áspera.

Hazel respondeu antes que Dylan pudesse. Ela ergueu os olhos avermelhados e disse: “A culpa é toda minha. Eu não estava olhando ele de perto o suficiente. Depois da sua ligação, ele ficou inconsolável — não parava de dizer que a mamãe achava que ele era ruim e que não queria mais ele, e eu não conseguia acalmar ele de jeito nenhum. Aí ele saiu correndo de repente, disse que ia te encontrar — eu fui atrás, mas ele já estava no pé da escada...”

“Concussão leve. Observação por alguns dias. E nada de pancada na cabeça nesse meio-tempo.” Os olhos de Dylan permaneceram fixos nos meus, pesados. “Você ouviu o que ela disse. Está satisfeita?”

Eu me endireitei devagar. Virei para Hazel.

“Hazel.” Minha voz saiu tão baixa que o choro dela parou. “Você disse ao Allen que eu achava que ele era ruim e que eu não queria mais ele?”

Os olhos dela vacilaram. Depois a mágoa voltou, ainda mais forte do que antes. “Eu nunca diria uma coisa dessas. Eu estava tentando tranquilizar ele. Eu disse que você não quis dizer aquilo, que você só estava ocupada.”

“Eu gravei a ligação entre o Allen e eu. O Sr. Hudson já ouviu.” Levei minha atenção a Dylan. “Eu disse uma única palavra maldosa para ele?”

Dylan me analisou por um instante. Algo na expressão dele mudou — não muito, mas o suficiente para dar pra ver. Ele não disse nada.

Depois de um tempo, Dylan falou: “A gente conversa quando o Allen estiver acordado.”


Allen recobrou a consciência perto do meio-dia.

Ele abriu os olhos, me viu sentada ao lado da cama e o rosto dele desabou. “Vai embora. Eu não quero você aqui. Eu quero a Hazel!”

Eu não me mexi. Olhei para Dylan.

“Allen.” A voz de Dylan saiu controlada e firme. “É assim que se fala com a sua mãe?”

Allen recuou um pouco, embora a expressão dele para mim não tivesse mudado.

“Allen.” O tom de Dylan mudou — agora sério. “Eu quero que você me diga exatamente o que aconteceu. Como você se machucou?”

A pergunta caiu, e o olhar de Allen foi para Hazel, que estava bem atrás de mim.

Hazel deu um passo à frente na hora. “Sr. Hudson, ele acabou de acordar. Vamos não assustar ele com isso tão cedo.” Ela se virou para Allen com uma suavidade ensaiada. “Não fica com medo, meu amor. O papai só quer entender o que aconteceu. Você pode contar qualquer coisa pra ele.”

Allen olhou para Dylan e para mim. Então a expressão dele mudou para algo pequeno e digno de pena, e ele começou a chorar.

“Eu... eu só queria que a mamãe reparasse em mim. Ela disse pra eu não ligar a menos que fosse uma coisa importante. Mas se eu me machucasse, ela ia ter que vir. Desculpa, papai, por favor não fica bravo comigo...”

Hazel puxou ele para perto, murmurando palavras baixas e calmantes.

Um frio se espalhou por dentro de mim, afundando até os ossos.

Uma criança de cinco anos não inventa uma coisa dessas sozinha. Eu sabia, com uma certeza que assentou dentro de mim, exatamente de onde aquelas palavras tinham vindo. “Allen, você está dizendo o que a Hazel mandou você dizer?”

“Vivian.” A voz de Dylan cortou meus pensamentos, carregada de raiva. “Você usou a segurança do seu próprio filho pra tentar manipular a situação. Você se ouve? Que tipo de mãe faz isso?”

Eu levantei a cabeça e olhei para ele.

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