Capítulo 6

POV da Vivian

Ele estava disposto a acreditar que eu tinha usado a segurança do meu próprio filho como arma.

Esse foi o veredito final do Dylan sobre mim.

Eu fiquei ali parada, e uma onda de náusea subiu sem aviso.

Qualquer último resquício de hesitação que ainda existia se dissolveu completamente naquele instante.

Eu fiz um aceno pequeno e contido — como se estivesse confirmando alguma coisa para mim mesma.

“Você tem razão.” Minha voz saiu fria, totalmente sem entonação. “Você está certíssimo.”

Eu dei um passo para trás, criando distância entre mim e todos eles.

“O acordo de divórcio — eu vou pedir para o meu advogado redigir e mandar para você o mais rápido possível. Eu abro mão da guarda do Allen. A partir de agora, o Allen é só seu filho. Ele não tem nada a ver comigo.”

Eu não olhei para nenhum deles de novo. Virei, empurrei a porta e saí.

As luzes do corredor eram frias e agressivas. As portas do elevador se fecharam ao meu redor e, no metal escovado, eu peguei um vislumbre do meu próprio rosto — pálido, quase irreconhecível e, ainda assim, estranhamente sereno.


De volta ao laboratório, eu liguei para o meu advogado.

“Dr. Johnson, por favor, redija o acordo de divórcio nos termos que nós conversamos antes. Todos os bens do casamento — eu abro mão de qualquer direito a tudo. A guarda da criança fica com o Dylan.”

“Isso mesmo. Eu não quero nada. Por favor, me envie assim que estiver pronto.”

Eu desliguei e fiquei sentada no escuro, sem me mexer. Meu corpo não tinha mais nada. Mas minha mente estava inesperadamente silenciosa — a calmaria de um mar depois que a tempestade passa e leva tudo com ela.


POV do Dylan

Dois dias depois, a Vivian pediu que a gente se encontrasse num café no térreo do prédio do Hudson Group.

Eu cheguei dez minutos atrasado.

Quando eu entrei, ela já estava no lugar junto à janela. Vestia um suéter cor de creme, jeans, e o cabelo preso de um jeito solto. Sem maquiagem. A expressão dela era distante — o jeito como ela me olhava era como alguém encarando um desconhecido.

Eu me sentei na frente dela.

“Seja lá o que for isso, você não podia ter falado por telefone?”, eu disse. “O Allen ainda está no hospital. Eu não tenho muito tempo.”

“Não vai demorar.”

Ela enfiou a mão na bolsa, tirou um envelope de documentos e deslizou até o centro da mesa.

“Acordo de divórcio. Dá uma olhada. Se não tiver problema, assina.”

Eu olhei para o envelope sem pegar, observando o rosto dela como se tentasse ler alguma coisa que não fazia sentido.

“O que exatamente você está tentando fazer aqui, Vivian?”

“Me divorciar.” Direta. Definitiva. “Está tudo aí. Eu não estou pedindo nada do patrimônio dos Hudson. A guarda do Allen é sua. Direito de visita —” Ela fez uma pausa breve. “Se você e o Allen sentirem que há necessidade, vocês combinam alguma coisa. Se não, tudo bem também.”

Eu peguei o envelope e tirei as poucas páginas finas lá dentro. Li rápido.

Quanto mais eu lia, mais sério eu ficava.

Abdicação de todos os bens do casamento. Guarda renunciada. Direito de visita tratado como detalhe.

Eu deixei o acordo sobre a mesa e me recostei na cadeira. “Isso é uma tática nova, Vivian? Você começa com rendição total e depois espera eu me sentir culpado o bastante para ir atrás de você? Você acha que esse teatrinho vai me fazer sair correndo?”

Ela pegou o café, tomou um gole pequeno e pousou a xícara de volta. Quando me encarou, havia algo nos olhos dela que não era raiva, nem mágoa. Era mais perto de pena.

“Dylan, você realmente acredita que o mundo inteiro existe para seguir o roteiro que você escreveu?”

A pergunta me pegou desprevenido de um jeito que eu não esperava.

“Eu não estou brincando com você”, ela disse, com a voz calma, sem pressa, completamente neutra. “Eu não tenho energia pra isso e, sinceramente, não tenho interesse. Eu simplesmente não quero mais nenhum vínculo com você. O Allen gosta de verdade da Hazel agora. Eu assino, você e sua família de três seguem em frente sem o incômodo de mim — não é um desfecho mais limpo pra todo mundo?”

“Família de três?” Minha voz saiu afiada. “Vivian, seja bem clara no que você quer dizer. A Hazel está ajudando a cuidar do Allen. Só isso.”

“Você pode chamar do que quiser.” Ela deu de ombros, de leve. “O que ela é pra você já não é problema meu. Depois que o acordo estiver assinado, fale direto com o meu advogado. As informações estão no documento.”

Ela se levantou e pegou a bolsa.

“Vivian!” Eu me pus de pé e, antes de pensar, minha mão se fechou no pulso dela — com força.

“Quando você vai parar com isso?”

Ela olhou para a minha mão no pulso dela. Quando ergueu os olhos de volta para os meus, o canto da boca se curvou, quase num sorriso.

“Sr. Hudson, fazer escândalo em lugar público não pega bem pra ninguém. Isso pode não importar pra você, mas afeta, sim, a reputação da Hazel e o preço das ações do Grupo Hudson.”

Eu soltei o pulso dela na mesma hora. Meu maxilar estava travado. Meu peito subia e descia mais do que eu queria.

Ela esfregou o pulso onde tinha ficado vermelho, virou as costas pra mim e saiu do café sem olhar para trás.

Eu fiquei ali, vendo a silhueta dela desaparecer pela porta de vidro. Depois, olhei para o acordo de divórcio em cima da mesa.

Ela estava disposta a ir embora e largar tudo. E falava sério.

Eu peguei o documento, amassei numa única movimento e segurei acima da lixeira.

Aí eu parei.

Não desamassei nada, não ajeitei nada. Só fiquei ali, com a folha amassada cerrada no punho.

Então enfiei no bolso do paletó.


Quando voltei para o hospital, o Allen tinha acabado de acordar.

Ele estava emburrado, olhando ao redor do quarto com os olhos vermelhos na borda. “Papai, cadê a mamãe?” A voz dele estava rouca de tanto chorar.

Eu estava sentado ao lado da cama dele, vendo e-mails. Meus dedos pararam sobre o teclado. Eu não levantei o olhar. “Ela tinha coisas pra resolver. Foi embora.”

“Foi embora?” A voz dele virou um choramingo. “Ela… ela realmente não me quer mais?”

Eu não disse nada.

A Hazel se aproximou depressa, com um sorriso suave já no rosto. “A mamãe só foi cuidar de uma coisa importante. O Allen é um menino grande — você entende isso, né? Quando você sair daqui, eu te levo no parque de diversões. Roda-gigante, algodão-doce, tudo. Que tal?”

Os olhos do Allen brilharam na hora. Ele assentiu com força.

Eu assisti a isso sem expressão e voltei os olhos para a tela.

As páginas amassadas no bolso do meu paletó pressionavam minhas costelas.

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