Capítulo 2 CAPÍTULO 2 - JASON

O corredor estava cheio de funcionários que fingiam estar ocupados com papéis e telas, mas que na verdade esperavam, com o coração na mão, saber quando eu passaria. Assim que apareci, todos voltaram ao trabalho depressa, teclando com força, lendo documentos com atenção fingida. Ninguém cruzava meu caminho sem necessidade. Ninguém detinha meu olhar por mais de um segundo. Eu estava acostumado. As pessoas tinham medo de mim. Não era algo que eu buscava. Eu não gostava de ver pessoas temerem minha aproximação, de saber que meu nome era pronunciado em voz baixa pelos corredores, de perceber que ninguém se aproximava de mim por prazer. Mas também não fazia questão de mudar. O respeito podia ser conquistado com carinho e bondade, sim, mas a obediência, a dedicação absoluta, o cuidado meticuloso que mantinham minha empresa entre as mais poderosas da Europa, isso vinha do temor. E eu precisava que tudo funcionasse. Precisava de controle. Porque quando se perdia o controle, as coisas se quebravam. E eu já tinha visto o suficiente de ruínas para uma vida.

Entrei no meu escritório e fechei a porta. O silêncio veio me receber, como um amigo antigo. Do lado de fora, Londres estava cinzenta. A chuva fina cobria os prédios de vidro e concreto, deixando as ruas brilhando sob as luzes amarelas dos postes e os néons dos anúncios. Os carros cortavam a cidade como veias de um corpo que nunca adormecia. Fiquei alguns segundos olhando pela janela, de pé, as mãos nos bolsos.

Londres nunca parava.

Eu gostava disso. Talvez porque também não soubesse parar. Desde aquela noite, desde que tudo se partiu em mil pedaços, eu havia aprendido a me manter em movimento. O trabalho, as metas, as decisões, as viagens, as reuniões, uma atrás da outra, sem pausa, sem espaço para que o silêncio me lembrasse o que eu havia perdido. Se eu parasse, se eu ficasse um instante ocioso, os pensamentos vinham. E eles doíam.

Peguei meu celular. Havia quinze mensagens. Ignorei todas. Depois me sentei, abri o notebook, e tentei me concentrar em contratos e orçamentos. Mas as palavras pareciam deslizar diante dos meus olhos sem deixar rastro. Minha cabeça estava em outro lugar.

Minha secretária bateu na porta.

Três batidas leves, ritmadas, o sinal que ela mesma havia criado depois de entrar para minha equipe, sabendo que eu detestava interrupções surpresas.

— Entre! — Falei olhando para a porta.

Ela entrou segurando uma pasta de couro escuro, os passos silenciosos, a postura reta. Sempre impecável, sempre pontual, sempre sabendo exatamente quando falar e quando calar-se. Havia três anos trabalhava comigo e raramente cometia erros.

— Senhor Carter, tenho algumas coisas para o senhor assinar. Contratos de parceria, autorizações de pagamento e um comunicado para o conselho.

— Deixe na mesa. — Indiquei, sem tirar os olhos da janela.

Ela colocou os documentos diante de mim, arrumando-os com cuidado, marcando com post-its amarelos os locais onde minha assinatura era necessária. Hesitou um instante antes de falar de novo.

— E também temos um problema com a nova contratação.

Levantei os olhos devagar.

— Que problema?

— A profissional que deveria assumir o projeto recusou a proposta.

Minha mandíbula travou. Senti o maxilar endurecer, os dedos se fecharem em punho sobre a mesa. Aquele projeto era importante. Muito importante. Uma parceria internacional que poderia nos colocar à frente de todos os concorrentes, e cujo sucesso dependia de alguém que dominasse cada detalhe, que antecipasse riscos, que não deixasse espaço para falhas. Eu havia escolhido pessoalmente aquela mulher. E ela havia dito não.

— Quando? — Perguntei, e minha voz saiu mais baixa do que pretendia.

— Esta manhã. Enviou um e-mail agradecendo a oferta, dizendo que foi uma decisão difícil, mas que não podia aceitar.

— Por quê?

— Ela recebeu uma oferta de outra empresa. Pagamento maior, cargo de diretora, benefícios que não conseguimos igualar.

Soltei o ar devagar, contando até dez, esforçando-me para manter a calma. Não era a primeira vez que alguém recusava uma proposta minha. Dinheiro falava alto, e sempre havia quem escolhesse o lucro imediato em vez de fazer parte de algo maior. Mas aquele projeto não podia esperar. Não podia sofrer atrasos. Tudo precisava estar perfeito.

— Quero outra pessoa. Alguém com experiência comprovada, alguém que não precise de treinamento, alguém que entre e comece a trabalhar no dia seguinte.

— Já estamos procurando. — Respondeu ela. — Mas perfis com esse nível de qualificação são raros, e muitos já têm compromissos…

— Não estamos. — Interrompi-a. Ela calou-se de imediato. — Eu quero o melhor nome disponível no mercado. Não me importa se está trabalhando em outra empresa. Não me importa quanto vai custar. Ofereça o dobro. O triplo, se for preciso. Dê o cargo que quiser. Dê garantias, benefícios, o que for necessário. Mas eu quero alguém aqui na próxima semana. Alguém capaz de entregar resultados. Alguém que não diga não.

Ela assentiu, firme, anotando mentalmente cada ordem.

— Entendido. Vou começar a busca agora mesmo.

Quando ela saiu, voltei a olhar pela janela. A chuva engrossava agora, escorrendo pelo vidro em fileiras tortas. Londres parecia desfocar-se no cinza. Por alguns segundos, sem que eu pudesse evitar, uma lembrança atravessou minha cabeça.

Um rosto. Olhos claros, brilhantes, cheios de vida. Um sorriso. Que se abria devagar, como se tivesse acabado de descobrir algo maravilhoso. Uma voz. Suave, calorosa, que eu não ouvia havia cinco anos.

Minha esposa.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo