Capítulo 3 CAPÍTULO 3 - JASON

Fechei os olhos com força até ver estrelas. Não. Eu não faria aquilo novamente. Não deixaria o passado entrar. Não permitiria que aquela dor voltasse a invadir meu peito como fez todos os dias durante aquele primeiro ano sem ela. Eu havia aprendido a fechar as portas. Havia aprendido a viver sem sentir. E nada, nem ninguém, conseguiria me fazer voltar a ser o homem que eu era antes.

Abri a última gaveta, aquela que eu raramente tocava, e encontrei uma pequena foto. Eu e ela. Éramos jovens. Estávamos na praia, ao entardecer, ela apoiada em meu peito, os dois sorrindo para a câmera. Felizes. Ou pelo menos parecíamos. Naquela época eu acreditava que a felicidade era algo que se conquistava e se guardava para sempre. Eu não sabia que era apenas um instante.

Peguei a foto e fiquei olhando por alguns segundos, sentindo o coração doer como se alguém o estivesse

apertando com força. Depois a virei para baixo, escondendo aquele rosto que ainda me perseguia nos sonhos.

Cinco anos desde aquela noite, o telefone tocando de madrugada, a voz fria e formal do policial do outro lado da

linha, dizendo que ela havia partido.

Cinco anos desde que minha vida se partiu em dois.

Cinco anos desde que aprendi que amar alguém era dar a essa pessoa o poder de destruir você. E que quando ela se

vai, leva consigo tudo o que você era.

Nunca mais!

Guardei a fotografia no fundo da gaveta e fechei tudo com um clique firme. Respirei fundo, afastando a memória, endireitando os ombros, voltando a ser o homem que

todos conheciam: frio, controlado, imbatível.

Meu celular tocou. Olhei a tela.

Era minha secretária.

— Sim? — Atendi.

— Senhor Carter, encontramos uma candidata.

— Já? — Estranhei. A busca mal havia começado.

— O currículo dela é excelente. Diferente de tudo o que vimos. Se encaixa perfeitamente no perfil que o senhor descreveu.

— Nome?

— Leila Miller.

Anotei mentalmente.

— Experiência?

— Cinco anos na área. Trabalhou em empresas grandes, projetos de porte internacional e tem ótimas referências. Dizem que é dedicada, precisa, e que não perde prazos nunca.

— Idade?

Houve uma pequena pausa.

— Vinte e sete.

Jovem, pensei. Mas se o currículo era tão bom assim…

— Quero uma entrevista amanhã.

— Às nove?

— Oito e meia. Antes de todos chegarem. Quero conversar com ela sem interrupções.

— Certo, senhor. Vou agendar.

Desliguei o telefone e abri o arquivo que ela havia enviado por e-mail. Li rapidamente, saltando de um tópico a outro. Formação excelente, nas melhores universidades. Cursos de especialização. Idiomas. Experiência suficiente. Boas referências. Nada chamava minha atenção de forma especial. Era apenas uma profissional competente, como tantas outras.

Até chegar ao final da página.

Estado civil: solteira.

Fechei o arquivo de repente, como se aquelas palavras tivessem me tocado. Franzi a testa, sem entender por que aquele detalhe havia ficado cravado na minha cabeça. Sacudi minha cabeça para os lados, afastando o pensamento tolo. Talvez porque eu estivesse acostumado a analisar tudo. Pessoas. Números. Contratos. Riscos. Eu avaliava cada detalhe, cada traço, cada informação. Era assim que eu mantinha minha vida sob controle. Ou pelo menos era o que eu acreditava.

Naquela noite, cheguei em casa pouco depois das dez. A mansão ficava no alto de um bairro elegante, com vista para o rio Tâmisa, rodeada de jardins que eu raramente via. As janelas escuras pareciam olhos grandes e vazios observando a noite. Entrei e fechei a porta, e o silêncio me recebeu de imediato, um silêncio profundo, absoluto, que eu deveria estar acostumado, mas que às vezes me pesava como uma tonelada.

Acendi apenas algumas luzes, o suficiente para não tropeçar, e deixei o celular sobre a bancada da cozinha, sem olhar as mensagens. A casa era grande demais para um só homem. Corredores compridos, salas amplas, escadas que levavam a quartos que ninguém usava. Durante muito tempo, isso me incomodou. Agora, era apenas parte da rotina.

Peguei uma garrafa de água e fui até a sala de estar. O fogo da lareira estava apagado, mas sobre a prateleira, emoldurada, havia outra fotografia. Nós dois outra vez. Ela sorrindo, de pé ao meu lado, as mãos entrelaçadas. Parecia outra vida. Talvez fosse. Aquela vida havia terminado naquela madrugada chuvosa, há cinco anos.

Peguei a fotografia com ambas as mãos, sentindo o vidro frio contra os dedos.

— Eu segui em frente. — Murmurei, para ninguém, para o silêncio, para ela.

Mas não sabia se era verdade. Eu continuava vivo, trabalhando, respirando, seguindo os dias. Mas segui em frente? Havia alguma parte de mim que ainda permanecia ali, parada naquela noite, esperando que ela voltasse para casa.

Coloquei a foto no lugar com cuidado, como se temesse quebrá-la, e me afastei.

Meu celular tocou novamente, sobre a bancada. Fui até lá e li a mensagem da minha secretária:

Entrevista confirmada. Leila Miller estará aqui às 8h30. Documentos enviados.

Bloqueei a tela e me afastei, indo até a janela da sala. Lá fora, as luzes de Londres brilhavam sob a chuva, formando um mar de pontos dourados e prateados.

Leila Miller.

Amanhã eu conheceria a nova profissional que talvez salvasse um dos projetos mais importantes da minha empresa. Conversaríamos sobre metas, prazos, responsabilidades. Avaliaria sua inteligência, sua postura, sua capacidade de entregar o que prometia. E depois, se fosse boa, a contrataria.

Naquela noite, me deitei cedo, apaguei a luz, e fechei os olhos acreditando que ainda controlava tudo. Minha vida, meus sentimentos, meu coração.

Eu estava errado.

Às oito e vinte da manhã seguinte, eu já estava no escritório. A chuva continuava caindo, teimosa, cobrindo Londres de um manto cinza. Revisei novamente o currículo de Leila, memorizando cada detalhe, cada experiência, cada especialidade. Era impressionante para uma mulher de vinte e sete anos. Algo nela parecia diferente. Ainda não sabia dizer o quê.

Às 8h28, minha secretária bateu à porta.

— Senhor Carter, ela chegou.

Respirei fundo, endireitando a postura, voltando a vestir a armadura que eu usava todos os dias.

— Que entre.

A porta se abriu e ela entrou.

E naquele instante, o mundo pareceu parar.

Levei alguns segundos para me recompor.

Ela não era nada do que eu esperava. Não havia nos seus gestos a insegurança dos que buscam aprovação, nem a arrogância dos que confiam demais no próprio

brilho. Entrou com passos firmes, mas leves, carregando uma pasta de couro, vestida com elegância discreta, e quando seus olhos encontraram os meus, não

baixou o olhar. Não se intimidou. Ficou ali, ereta, serena, e sorriu, um sorriso calmo, sincero, que de repente fez meu peito doer de um jeito que eu não sentia há anos.

E então ela falou.

— Bom dia, senhor Carter. Sou Leila Miller.

Sua voz era suave, clara, e ao ouvi-la, senti um arrepio percorrer a espinha. Aquele timbre, aquela maneira de pronunciar as palavras era como se eu já a conhecesse. Como se aquela voz tivesse estado comigo nos meus sonhos durante todo esse tempo.

A encarei em silêncio por um instante a mais do que seria educado. E então percebi algo que me deixou sem ar.

Ela não era apenas competente. Ela era linda!

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