Capítulo 4 CAPÍTULO 4 - LEILA
Meu despertador tocou às seis da manhã, fazendo um som suave, mas insistente que quebrou o silêncio do quarto de uma vez. Abri os olhos devagar e fiquei alguns segundos olhando para o teto branco, ainda meio perdida entre o sono e o dia que começava.
Hoje.
A entrevista era hoje.
Sentei na cama e respirei fundo, enchendo o peito de ar, tentando acalmar o coração que já começava a bater mais depressa. Eu precisava daquele emprego. Não apenas porque o salário era muito bom, bom o suficiente para me fazer parar de contar cada moeda antes de comprar pão ou remédio. Precisava porque, pela primeira vez em meses, eu estava cansada de apertar cada centavo, de escolher entre pagar uma conta ou comprar algo que Belly gostava, de dormir pensando no que viria amanhã.
Levantei rápido, calcei os chinelos macios e fui até o quarto de Belly. A porta estava entreaberta, e uma luz cinza e fraca entrava pelo vão. Empurrei devagar e entrei.
Minha filha estava enrolada no cobertor azul, parecendo uma bolinha quentinha, com apenas o rosto aparecendo por cima do tecido. Os olhinhos ainda estavam fechados.
— Bom dia, meu amor. — Falei baixinho, chegando perto da cama.
Ela mexeu o nariz, abriu os olhos devagar e olhou para mim, meio sonolenta.
— Mamãe, ainda está escuro.
Olhei pela janela grande do quarto.
Ela tinha razão. O céu de Londres estava cheio de nuvens escuras, daquela cor cinza que parece nunca acabar, e o sol ainda não tinha aparecido. Tudo lá fora parecia quieto e frio.
— É bem cedo, sim. — Concordei, acariciando seu cabelo macio.
— Então por que você está acordada?
— Perguntou ela, com a voz ainda grossa de sono.
Sorri, sentindo um calor gostoso no peito só de ver aquele rostinho.
— Porque tenho uma entrevista de emprego hoje.
Belly abriu os olhos de uma vez só, como se tivesse despertado completamente.
— Para aquele trabalho grande, mamãe?
— Isso mesmo. — Confirmei, sorrindo.
Ela se sentou na cama, puxando o cobertor até a cintura, e franziu a testa de um jeito sério.
— Seu chefe vai ser bravo?
Soltei uma risada baixa, sentindo o coração se aquecer.
— Eu ainda não sei, filhinha. Nunca vi ele.
— Se ele for bravo, você pode mandar ele embora. — Disse ela, com toda a certeza do mundo, balançando a cabeça.
— Não funciona assim, Belly. — Falei, rindo de novo.
— Por quê? — Perguntou ela, abrindo bem os olhos.
— Porque ele é o chefe. É ele quem manda na empresa.
Belly pensou por alguns segundos, mordendo o lábio de um jeito que era todo dela.
— Então ele manda em você?
— Só lá no trabalho, só nas coisas de lá. Aqui em casa, quem manda sou eu. — Respondi, apertando de leve seu nariz.
Ela fez uma careta séria.
— Pois é, eu não gosto dele.
Ri de verdade agora, sentindo os olhos brilharem.
— Mas você nem conhece o homem!
— Não preciso conhecer. — Disse ela, cruzando os bracinhos.
— E por quê?
— Porque ele vai fazer você trabalhar muito e ficar longe de mim.
Balancei a cabeça, rindo, e me inclinei para beijar sua testa quentinha.
— Você é muito esperta, sabia? Agora volte a dormir. Ainda dá tempo de descansar mais um pouquinho.
Ela se deitou devagar, mas antes de se cobrir, olhou para mim com aqueles olhos grandes e brilhantes.
— Você vai ficar bonita hoje?
— Espero que sim. — Respondi, sorrindo.
— Então coloca aquele vestido azul. — Pediu ela, com suavidade.
— Talvez eu coloque.
— Coloca, mamãe. Fica linda.
— Está bem, senhora. Vou pensar. — Falei, fazendo uma reverência brincalhona.
Ela sorriu, satisfeita, e se encolheu debaixo do cobertor outra vez. Fiquei ali parada alguns segundos, olhando para ela. Belly era minha razão para continuar. Tudo o que eu fazia, cada esforço, cada dia difícil, era por ela. Se não fosse por aquele rostinho, talvez eu já tivesse desistido. Mas eu não podia. Ela precisava de mim. E eu
precisava dela.
Respirei fundo e saí do quarto, fechando a porta devagar. Voltei para o meu quarto e fui me arrumar com calma.
Escolhi uma calça preta que caía bem, uma blusa clara e macia que não chamava atenção, e um blazer de tom suave por cima. Prendi o cabelo de um jeito simples, sem deixar fios soltos atrapalharem, e passei só um pouquinho de maquiagem, o suficiente para esconder um pouco o cansaço, nada mais.
Fui até o espelho e olhei meu reflexo. Vi uma mulher de rosto suave, olhos claros e aparência cuidada. Mas também vi que eu parecia cansada. Talvez porque estivesse mesmo. Nos últimos meses, minha vida tinha sido uma mistura de trabalho extra, contas que chegavam sem parar, visitas ao médico e noites mal dormidas. E havia um motivo para tudo isso.
Belly precisava de cuidados constantes. Ela nasceu com um problema no coração, algo pequeno, mas que precisava de atenção o tempo todo. Os médicos diziam que precisávamos acompanhar tudo de perto, fazer exames com frequência, evitar esforços demais e cuidar para que ela nunca ficasse doente. Alguns dias eram bons, ela corria, brincava, ria o dia inteiro. Outros dias, nem tanto, ficava quieta, com a respiração mais leve, e eu precisava ficar ao lado dela, de olho em cada movimento, com o coração apertado. Eu tentava não pensar no pior. Tentava não deixar o medo tomar conta de mim. Mas como mãe, eu havia aprendido uma coisa dura: que o medo podia morar dentro da gente, quietinho, o tempo todo, e mesmo assim a gente precisava continuar sorrindo, trabalhando, cuidando e seguindo em frente. Não havia outra escolha.
Terminei de me arrumar, peguei minha bolsa simples e voltei até o quarto de Belly mais uma vez, antes de sair.
Ela estava de olho meio aberto, me olhando.
— Eu volto logo, meu amor. — Falei, chegando perto. — A senhora Dolores já chegou para ficar com você. Se comporte.
Ela sorriu, uma risada pequena e doce.
— Boa sorte, mamãe.
— Obrigada, querida.
— E não deixe o chefe bravo te assustar. — Pediu ela, com voz suave.
Sorri, sentindo os olhos se encherem de lágrimas doces.
— Vou tentar.
