Capítulo 2 Cap 1 - Conhecendo o Mário
O dia começou cedo na casa dos Mendonça. Nessa casa ninguém fica com tempo ocioso, por isso sempre acordo cedo para dar conta de tudo o que preciso fazer durante o meu dia.
Como sempre, já estava de pé antes das 6h colocando minha roupa de treino. Tenho uma academia montada em casa para facilitar a minha vida e isso garante a minha boa forma, já que possuo uma tendência natural a ganhar peso — coisa que tento evitar a todo custo pois, além de querer manter o shape, me preocupo muito com a saúde. Como médico, sei bem os benefícios que o exercício traz à nossa vida e por isso faço disso uma prioridade constante.
Depois de ter treinado por 40 minutos de forma intensa, caminhei para o banheiro, onde tomei um banho minucioso, aparando a minha barba e colocando o meu terno sob medida.
Cheiroso e satisfeito com o que via no espelho, saí do quarto rumo à sala de jantar, que encontrei perfeitamente arrumada, bem como a minha amada Sônia gostava. Automaticamente parei ainda no batente, sentindo uma pontada no peito e uma tristeza profunda por lembrar que, mais uma vez, não havia sido ela a arrumar o ambiente. Ela foi o grande amor da minha vida, uma mulher linda e com um coração enorme que conheci na faculdade de medicina. Chegou mudando tudo na minha vida, ajudando-me a ver o mundo com mais leveza e cor. Fez meus dias ficarem alegres e me deu o melhor presente que uma mulher pode dar a um homem: um lar feliz.
“Pena que não durou tempo suficiente.”
Com um bolo na garganta, uma saudade enorme no peito e várias lembranças rondando minha cabeça, terminei de entrar no cômodo, tentando deixar de lado a sensação de dor e vazio que sempre sinto ao pensar nela.
Sentei-me em meu lugar, olhei para o lugar dela, que agora sempre fica vago, e desejei ardentemente que nossa separação fosse apenas uma ilusão. Mas a entrada de Vânia, minha governanta, fez-me lembrar que não é.
Antes da partida de Sônia, apenas nós dois e nosso filho, Miguel, morávamos aqui. Ela administrava e mantinha tudo como queria; não aceitava ajuda profissional contínua, permitindo alguém apenas uma vez na semana, pois dizia que prezava pela nossa privacidade. E, como eu a amava mais que tudo, simplesmente aceitava o que ela queria. Mas agora isso mudou. Depois que ela se foi, precisei contratar alguém permanente para me auxiliar, pois, além de não ter tempo, não entendo nada de afazeres domésticos e de crianças, o que me deixou bem perdido nos primeiros dias.
“Foi um alívio contar com a ajuda da dona Vânia desde então.”
Ela não conseguiu fazer a dor diminuir, mas, em contrapartida, segura o peso da organização da casa e me ajuda com o Miguel. Ele é uma criança maravilhosa, parecido com a mãe não só no físico, mas na bondade também, o que, de certa forma, dificulta a nossa aproximação. Cada vez que olho para ele, vejo a minha Sônia. Mesmo com essa dificuldade, amo meu filho. É por ele que não abandonei tudo para sumir no mundo; é por ele que vivo um dia de cada vez, suportando a dor que a ausência da sua mãe me traz.
Eu ainda pensava nela quando ouvi seus passos apressados perto do cômodo, avisando-me que ele estava correndo mais uma vez, enquanto era seguido pela senhora que chamava a sua atenção:
— Desse jeito vai se machucar, Miguel!
— Vou não, vovó Vânia! Eu sou veloz igual ao Flash, ó!
Como imaginei, ele entrou correndo como um foguete, levando um susto quando me viu, o que o fez parar no lugar.
— Pai…
— Oi, campeão. Quer dizer que você é o mais novo Flash?
— Sou! Viu como sou rápido?
— Vi, é muito rápido mesmo. Mas a senhora Vânia tem razão, correr desse jeito é perigoso. Por que não deixa para fazer isso lá fora quando chegar da escola?
— Ah, pai…
Ele veio para o seu lugar, sentando-se ao meu lado esquerdo, como foi ensinado a fazer, enquanto falava como uma matraca. Já a senhora entrou no ambiente em seguida e ficou sem jeito quando me encontrou, começando a se explicar:
— Desculpa, senhor, ele largou minha mão e…
— Tudo bem. Conheço bem essa carinha.
Ela abaixou a cabeça e aguardou o fim da nossa conversa.
— Pai, o senhor vai me levar para a escola hoje?
— Não, tenho que estar na clínica em poucos minutos. Falando nisso, senhora Vânia, pode servir o desjejum.
(...)
Após o café, saí correndo de casa, pois minha agenda estava lotada. Como médico, fiz questão de abrir minhas próprias clínicas, porque quero garantir o melhor tratamento para os pacientes que me procuram. Infelizmente, nem sempre isso é possível para os profissionais nas instituições públicas de saúde.
A primeira clínica a que fui é a que fica no centro da cidade. Precisava resolver algumas questões burocráticas junto com minha equipe e, por isso, tínhamos uma reunião. Passamos horas resolvendo os mais variados problemas. Eu já começava a ficar cansado enquanto minha secretária falava sobre os donativos arrecadados, quando meu celular tocou, chamando a minha atenção.
Atendi apressadamente porque era do hospital público onde presto assistência como voluntário, e a informação que recebi não foi nada boa. Para minha tristeza, uma das minhas pacientes em estágio final estava tendo uma crise forte e eu fui chamado. Dona Joana está em seus últimos dias, o que me deixa muito mal, já que sei que não existe nada que possa fazer para ajudá-la, a não ser administrar medicações para diminuir a sua dor. Infelizmente, seu caso é irreversível e não seria possível dar mais dias de vida a ela, mesmo que eu a trouxesse para a minha clínica. Baseado nisso, passei algumas instruções pelo telefone depois de entender o que se passava para ajudá-la o quanto antes e, em seguida, encerrei a reunião, pois precisava vê-la pessoalmente, mesmo não sendo o dia do meu plantão.
O caso dela mexe particularmente comigo e, por mais que eu lute diariamente para manter uma conduta estritamente profissional, sinto-me a cada dia mais envolvido. Ela é uma senhora viúva, de 58 anos, e que tem uma filha de 17 anos — que completará 18 em breve — que vai ficar sozinha no mundo quando ela partir. Isso me deixa profundamente tocado porque, mesmo que ela não seja uma criança, também não é uma adulta e não tem mais nenhum suporte na vida.
💭 Lembranças…
Em uma das minhas visitas, Joana estava sentindo muitas dores e sangrava fortemente. Eu já tinha feito o que podia e estávamos esperando a medicação e o procedimento realizado fazerem efeito, quando me aproximei dela avisando o que esperávamos que acontecesse. Nunca vou esquecer o seu olhar triste e sua pergunta preocupada ao segurar a minha mão:
— Doutor, acha que eu ainda tenho alguns meses de vida?
Eu queria dizer que sim, mas não podia mentir. Então, procurei ser o mais amável possível:
— Estou fazendo o que posso para que tenha.
Ela entendeu no mesmo momento que eu não podia me comprometer e, muito menos, garantir algo desse porte. Então, respondeu mais para si mesma, deixando as lágrimas rolarem:
— Só peço a Deus que cuide da minha menina quando essa hora chegar.
Eu sabia que ela queria falar muito mais que isso, mas se conteve. Então, eu respondi ao lembrar de um dos versículos bíblicos que Sônia costumava recitar:
— Não se preocupe com isso, dona Joana. Se Ele cuida dos pássaros e das flores, certamente cuidará da sua princesa.
— É verdade! Obrigada por me lembrar, doutor — respondeu com um pequeno sorriso nos lábios.
Fim das lembranças…
Saí da clínica o mais rápido que pude e só parei quando entrei em seu quarto e a encontrei medicada e estabilizada. Ao seu lado estava a sua fiel escudeira, Júlia. Uma adolescente gentil, mas sofrida, que carrega o peso que somente um acompanhante de uma doença terminal conhece. Sozinha, ela não possui uma pessoa sequer para dividir seus medos e inseguranças, o que me toca ainda mais.
Tentei tranquilizá-la o máximo que podia, mas, mesmo assim, sinto que falhei. Pensei em me retirar para ver outros pacientes, mas, em uma olhada rápida no relógio, vi que passava das 15 horas. Ao olhar para ela, soube que ainda não tinha sequer se alimentado. Então, sendo levado pela misericórdia ensinada pela minha amada Sônia, eu a levei para comer, porque sei perfeitamente que, dificilmente, ela faria isso hoje.
