Capítulo 3 Cap 2 Júlia - Medo
Em pouco tempo, estávamos parados em frente a uma barraquinha de fast-food que fica ao lado do hospital. Fomos observados pelo atendente enquanto o doutor me perguntava:
— Então, Júlia, o que vai querer?
Eu não queria me aproveitar e, para piorar, estava cheia de vergonha. Por isso, escolhi o lanche mais barato que encontrei no cardápio.
— Tem certeza de que quer esse? Acho que devia experimentar o que eu gosto, ele é muito mais saboroso. Quer saber? Me dá dois números sete com bastante molho verde e dois sucos de laranja com bastante gelo, por favor.
O doutor fez o nosso pedido e, em seguida, conduziu-me para sentar em uma das mesinhas. Ele ficou de frente para mim, o que me deixou bem tímida. Logo depois, começou uma conversa para me deixar à vontade:
— Então, Júlia, o que você faz quando não está visitando a sua mãe?
— Não tenho feito nada, senhor.
— Como assim, nada? Não estuda, não faz um curso?
— Não — respondi envergonhada, abaixando a cabeça, tensa com o que ele pensaria de mim.
— Mas por quê?
— Não tive um responsável para renovar a minha matrícula na escola e não temos dinheiro para cursos extracurriculares no momento.
Ele olhou-me como se começasse a entender a situação, mas continuou perguntando:
— E, por acaso, deseja retornar de onde parou quando puder?
— Com certeza! Fiquei muito triste por não poder eu mesma fazer a matrícula, mas assim que minha mãe sair do hospital, ou assim que eu tiver a idade, irei retornar aos estudos — respondi esperançosa, recebendo dele um olhar diferente, que eu não soube identificar. Em seguida, veio mais uma pergunta curiosa:
— E quem fica contigo em casa?
Sua pergunta deixou-me em conflito. Eu nunca conversava sobre isso com ninguém, sob orientação expressa da minha mãe, mas, por algum motivo que eu não sabia explicar, senti-me segura o suficiente para dividir a verdade com ele.
— Ninguém. Eu fico sozinha desde que minha mãe precisou ser internada.
— E quem faz as compras, paga as contas, faz a comida?
— Eu… — respondi sem graça. Afinal, eu sabia que, teoricamente, aquilo não deveria acontecer. Minha mãe havia me alertado para que eu não divulgasse essa situação a ninguém, pois poderiam facilmente chamar o Conselho Tutelar para me levar para algum abrigo.
— Está dizendo que, desde que sua mãe ficou internada, você está vivendo sozinha e cuidando de tudo?
— Sim, senhor…
Senti que ele ficou chocado, mas não teve tempo de falar. O atendente chegou com os nossos pedidos, fazendo a minha fome aumentar e o meu estômago roncar alto ao sentir o cheiro gostoso que exalava do sanduíche. O doutor escutou. Eu fiquei, mais uma vez, mortificada de vergonha, mas ele se compadeceu de mim e brincou:
— Acho melhor a gente começar a comer logo, antes que seu estômago queira comer o meu sanduíche também.
Nem acreditei quando dei a primeira mordida e senti o sabor do sanduíche se espalhando na minha língua. Fazia tempo que eu não comia algo tão saboroso e daquele tipo. Fechei os olhos enquanto mastigava para apreciar o momento, tentando guardar na memória aquela sensação, pois não fazia ideia de quando teria outra oportunidade. Ao engolir, abri os olhos e encontrei o doutor me encarando com um sorriso singelo nos lábios, o que me fez perguntar:
— O que foi?
— Você sujou o canto da boca.
Mais do que depressa, peguei o guardanapo e me limpei, voltando a perguntar:
— E agora?
— Está limpa. Mas me diga, você sabe cozinhar?
Nós embarcamos em uma conversa leve na qual ele me fazia algumas perguntas, mostrando curiosidade sobre a nossa vida, até que seu celular tocou, interrompendo o assunto:
— Um momento, Júlia.
Foquei em terminar o melhor lanche que eu comia em muito tempo enquanto via o semblante dele mudar diante dos meus olhos.
📞 Ligação
— Pois não…
— O quê?
— Estou indo agora…
Fim da ligação
Em segundos, seu rosto sereno e calmo transformou-se em uma expressão preocupada e aflita enquanto ouvia o que era dito do outro lado da linha, deixando-me saber que algo muito sério acontecia.
Assim que encerrou a chamada, ele focou sua atenção em mim, anunciando o meu maior medo:
— Temos que voltar… É a sua mãe.
No mesmo momento, meu cérebro ficou em alerta, mas meu corpo congelou. Eu já tinha presenciado uma crise naquele dia e não queria ver outra. Vê-la sofrendo daquele jeito doía demais em mim e só me fazia perceber o quanto eu era impotente para ajudá-la.
Inerte, eu ainda olhava para ele, que prontamente se pôs de pé, segurou a minha mão e me puxou para correr. Juntos, deixamos tudo para trás e corremos, sabendo que a vida da minha mãe dependia daquilo. Passamos pelas pessoas de forma afoita, esbarrando em algumas pelo caminho. Cruzamos corredores que pareciam maiores e sem fim. A sensação que eu tive era a de que chegaríamos do outro lado do mundo, mas não alcançaríamos o quarto dela.
Quando chegamos enfim à porta, ele parou, segurou meus braços perto dos ombros e falou, olhando dentro dos meus olhos:
— Espera aqui fora, Júlia. Eu vou entrar e vou fazer o que for possível para ajudá-la. Prometo!
Seu rosto estava sério e mostrava toda a preocupação e a urgência com que deveria agir. Tudo o que eu pude fazer foi me apegar à sua promessa, crendo que, mais uma vez, ele saberia o que fazer e que nos ajudaria. Concordei com a cabeça porque não tive forças para pronunciar as palavras.
E assim ele se foi, entrou no quarto e deixou-me no corredor, imóvel e sem saber o que fazer, enquanto eu ouvia os gritos da minha mãe, o falatório, a movimentação dos enfermeiros e a voz do doutor, que já entrava querendo saber o que tinham feito.
Angustiada, com medo e sem rumo, fiz a única coisa que era possível. Levantei meus olhos para o alto e clamei a Deus, o único que poderia me ouvir e com quem eu realmente podia contar:
“Senhor, tenha misericórdia de nós! Abençoa as mãos do doutor Mário e preserva a vida da minha mãe. Ela é tudo o que me resta. Por favor, não me deixe sozinha neste mundo!”
