Capítulo 4 Cap 3 – Mário – Inesperado
Tentei alimentá-la com o melhor lanche que tem por perto enquanto aproveito para saber mais sobre a vida delas. Confesso que acabei ficando ainda mais preocupado conforme ela vai falando sobre as dificuldades que enfrenta para ter as coisas que deveriam ser simples e fáceis na vida de qualquer pessoa. Isso só aumentou ainda mais a minha empatia por elas.
Enquanto ela respondia às coisas que eu perguntava, meu cérebro ficava pensando:
‘Por que existe tanto sofrimento no mundo? Por que tantas pessoas boas precisam passar por essas coisas?’
Claramente uma vive pela outra, mas estão prestes a se separar. Isso é tão triste que até a pessoa com o coração mais frio deve se compadecer diante dessa situação.
Conforme íamos conversando, minha convicção em me empenhar ainda mais para prolongar os dias da dona Joana, dando-lhe o máximo de conforto, só aumentou.
‘Preciso me empenhar mais, nem tanto pela senhora, mas por essa adolescente que sofrerá profundamente em várias esferas diferentes ao perder a única pessoa que possui.’
Eu pensava nisso enquanto ouvia sua explicação, quando ouvi meu celular tocar. Como médico, não posso simplesmente desligá-lo ou ignorá-lo, então tive que atender. E que bom que eu fiz isso, porque a notícia não era nada boa. Nem acreditei quando ouvi o nome da dona Joana sendo proferido do outro lado da linha.
Meu coração parou enquanto olhava o rosto meigo da sua filha à minha frente, e tudo o que pensei foi:
‘Preciso correr, preciso ajudá-la o quanto antes.’
Sem tempo para explicações calmas, revelei parcialmente o que acontecia, limitando-me apenas a voltar o quanto antes para o interior do hospital, trazendo-a comigo. Para a nossa sorte, não tínhamos nos afastado demais e, após uma breve corrida, ambos estávamos diante da porta do quarto.
Parado diante da Júlia, vi em seus olhos o medo da perda. Reconhecendo esse sentimento por experiência própria, prometi fazer o meu melhor, ainda sem saber o que acontecia dentro do quarto, porque não quero que ela descubra o quão dolorosa é a dor que a morte gera em quem fica. Minha vontade era confortá-la com um abraço, deixar uma palavra de esperança, mas, neste momento, eu seria muito mais útil cuidando da sua mãe do que sendo um amigo.
Então entrei apressadamente no quarto, já vendo a equipe se movimentando com agilidade para reanimá-la, administrando as medicações necessárias, e o médico auxiliar com o carrinho de parada próximo ao leito, usando o desfibrilador em seu peito com a intenção de ressuscitá-la.
— O que houve? Ela estava bem há 20 minutos.
— Ela entrou em PCR.
Mais do que depressa me aproximei, perguntando o que já tinham feito, ouvindo uma técnica começar a mencionar todo o passo a passo realizado, ao mesmo tempo que outra enfia em minhas mãos luvas estéreis.
— Fizemos a manobra manual, mas ela não apresentou melhora, então administramos a adrenalina e entramos com o desfibrilador.
(...)
Tudo aconteceu muito rápido. Olhei para a senhora deitada à minha frente e vi seu corpo mole, sem vida, enquanto o monitor apita sem parar, anunciando que estamos perdendo a dona Joana devido a uma parada cardiorrespiratória.
Assim que foi possível, assumi a manobra, tirando o desfibrilador das mãos do assistente enquanto peço:
— Injeta mais uma adrenalina…
Enquanto a enfermeira fazia o que pedi, olhei mais uma vez para a senhora e implorei:
— Vamos, dona Joana, eu preciso da sua ajuda. Volta para a gente, volte para a Júlia. Ela precisa da senhora!
Assim fizeram e, em seguida, eu avisei antes de descarregar sobre seu peito:
— 1, 2, 3, AFASTA…
Todos se afastaram do leito e eu apertei o botão, torcendo para que a manobra funcionasse. Em seguida, olhei para o monitor buscando algum sinal de resposta, mas ele não veio. Ainda tentei mais uma vez, ouvindo a informação que eu não queria em seguida:
— Última tentativa de RCP sem sucesso, doutor.
Olhei em choque e sem acreditar para meu assistente, que faz sinal de negativo com a cabeça, confirmando-me o que eu mais quis evitar. Seu olhar me diz que eu devia anunciar uma das falas que eu mais detesto na minha profissão e que me faz sentir um bolo enorme na garganta.
Como sempre acontece nessas horas, todos param em seus lugares, respirando profundamente, com dificuldade de acreditar que nossa luta foi em vão, que perdemos mais uma batalha.
Então, sem opção, desviei o olhar, olhei para o relógio, voltei a olhar nos olhos do assistente e anunciei, contra a minha vontade:
— Hora do óbito: 16h12.
A agitação e a adrenalina dão lugar à sensação de impotência e frustração, e aos poucos todos começam a se mover devagar para afastar os instrumentos e equipamentos usados.
Mas eu não! Nesse primeiro momento, senti como se o chão tivesse saído dos meus pés enquanto olho para o corpo imóvel da dona Joana em cima do leito diante de mim, fazendo-me pensar no rosto meigo da Júlia, que eu teria que enfrentar em instantes.
‘O que eu vou dizer a essa adolescente? Como vou dizer que não consegui ajudar a sua mãe?’
E o que veio depois foi ainda pior. O nervosismo que sinto é tanto que a bile subiu e eu me vi obrigado a correr à procura da pia para vomitar. Coloquei tudo para fora assim que fiquei diante dela, sentindo a adrenalina fazer meu corpo tremer por alguns instantes.
Quando enfim parei de vomitar, tentei estabilizar a respiração olhando para o meu reflexo diante do vidro escuro, lembrando-me de que fazia anos que esse tipo de coisa não acontecia, e isso só serviu para me alertar:
‘Estou emocionalmente envolvido nesse caso.’
Uma enfermeira parou do meu lado perguntando se eu precisava de ajuda, mas, sem olhar para ela, respondi que não. Então ela se afastou e eu lavei minha boca, pensando que ainda tenho que cumprir a segunda pior parte da profissão, e desta vez ela teria um peso ainda maior.
Olhando o meu reflexo fixamente, me recompus da melhor forma possível, criando coragem para fazer o que precisava. Quando me senti minimamente pronto, segui à procura da mais nova órfã do mundo.
Cada passo teve um peso diferente, e entrar no corredor não foi fácil. Meus olhos procuraram, contra a vontade, por Júlia, que, assim que me notou, veio ao meu encontro perguntando esperançosa, segurando os meus braços assim que ficamos próximos:
— E então, doutor, ela está bem? Posso ver a minha mãe agora?
