Capítulo 1 CAPÍTULO 01

HELANA NARRANDO:

(3 anos atrás)

Eu cresci ouvindo dos meus pais que, para vencer na vida, é preciso ter a ganância de correr atrás do que se quer e a maldade para fazer o que for preciso para alcançar.

E talvez por isso eu tenha aprendido cedo que, nesse jogo, não existe espaço para fraqueza.

Minha infância foi um desfile de privilégios: colégios caros, viagens internacionais, roupas importadas antes mesmo de chegar às vitrines brasileiras. Cresci cercada por um mundo que girava em torno de cifras, títulos e sobrenomes. E, naquela época, eu acreditava que esse era o único caminho.

O que eu não sabia, ou fingia não saber, é que tudo aquilo tinha um preço. E um dia, eu pagaria caro.

Era meu último ano na faculdade de Direito. Sábado à noite, e enquanto metade dos meus colegas de turma provavelmente estava em algum bar, boate ou viagem, eu estava no meu quarto, sentada à mesa, com o rosto mergulhado entre códigos e anotações. Quarta-feira eu teria uma das provas mais importantes do semestre e não havia espaço para distrações.

A tela do notebook refletia o texto sublinhado no meu caderno, quando o celular vibrou sobre a mesa. Um simples alerta de mensagem poderia passar despercebido, mas, naquela noite, eu estava cansada demais para ignorar.

Peguei o aparelho e vi que era uma notificação do grupo da turma no WhatsApp.

— Festa hoje na cobertura da Camila! Só último ano, galera!

Camila sempre foi a rainha das festas, e não era à toa. Filha de um empresário bilionário, ela tinha uma cobertura em Ipanema com vista de tirar o fôlego. A lista de convidados era sempre seletiva, e naquela noite, aparentemente, apenas os colegas da nossa sala foram chamados.

Fazia meses que eu não saía para nada. A rotina de estudos e estágios consumia todo o meu tempo, e minha vida social tinha se resumido a mensagens rápidas e encontros ocasionais. Talvez, por ser um grupo pequeno, eu pudesse me permitir um pouco de distração.

Suspirei, fechando o notebook, e comecei a guardar meus cadernos em pilhas organizadas. Uma noite não iria me tirar do foco. Ou pelo menos era o que eu pensava.

Me levantei e fui até o banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água quente cair sobre meu corpo, como se pudesse lavar junto o cansaço acumulado. Lavei o cabelo, massageando o couro cabeludo lentamente, e depois o sequei com o secador, deixando ele solto e levemente ondulado.

Me sentei diante do espelho da penteadeira e comecei uma maquiagem leve, mas bem-feita: base fina, corretivo nos pontos certos, um esfumado marrom nos olhos e um batom vermelho discreto, só para marcar.

Escolhi um vestido preto justo, de tecido liso e elegante, que terminava um pouco acima do joelho, combinando com um salto alto que afinava minhas pernas.

Quando saí do quarto, o som distante da noite carioca entrava pela varanda. Na frente da mansão, vi Gael, o motorista que trabalhava para minha família desde que eu era criança, encostado no carro, limpando o capô com um pano.

— Boa noite, Gael — cumprimentei, sorrindo.

Ele levantou os olhos e, ao me ver pronta, ergueu a sobrancelha, curioso.

— Boa noite, dona Helena. Onde vai toda arrumada?

— Cobertura da Camila. Está tendo uma festa lá hoje — respondi com educação.

Ele abriu a porta traseira para mim.

— Entendido. Vamos lá.

Assim que o carro entrou na rua, as luzes da cidade começaram a desfilar pelas janelas, refletindo no vidro. No meio do trajeto, Gael olhou pelo retrovisor.

— Quer que eu a busque no final da festa? — perguntou.

— Não vou ficar muito tempo — garanti.

— Em três horas você pode voltar para me pegar.

— Certo — ele assentiu, e o silêncio confortável voltou a preencher o carro.

Poucos minutos depois, paramos diante do luxuoso condomínio de Camila. O porteiro, de uniforme impecável, já estava de prontidão.

— Boa noite, nome, por favor? — pediu, educadamente.

— Helena Andrade.

Ele consultou uma prancheta e confirmou.

— Pode subir, senhorita. Elevador social, cobertura.

O elevador subiu rápido, e, quando as portas se abriram, fui recebida por um cenário que nada tinha a ver com a “festa pequena” que eu imaginava. O ambiente estava lotado. Música alta, luzes coloridas refletindo no vidro das janelas, e uma mistura de perfumes caros e álcool no ar.

Camila me avistou quase imediatamente e veio até mim, radiante, com um sorriso de quem sabia exatamente como ser o centro das atenções.

— Helena! Você veio! — exclamou, me abraçando.

Antes mesmo que eu respondesse, ela colocou um copo na minha mão.

— Bebe, vai te ajudar a relaxar.

Sorri de leve, aceitando. Levei o copo aos lábios enquanto caminhava pela festa, cumprimentando conhecidos com um aceno, trocando palavras rápidas aqui e ali.

Mas, conforme os minutos passavam, uma estranha sensação começou a crescer dentro de mim. Primeiro, uma leve tontura. Depois, o som das conversas e da música parecendo mais distante, como se eu estivesse ouvindo tudo debaixo d’água.

Respirei fundo, tentando disfarçar. Talvez fosse apenas cansaço, ou o fato de ter bebido rápido demais de estômago vazio.

Resolvi me afastar um pouco da multidão. Cruzei o salão e encontrei a cozinha, silenciosa, com a porta de serviço entreaberta.

Atrás dela, a saída para a escada de emergência. Empurrei a porta, deixando o ar frio da noite entrar. Apoiei a mão no corrimão, tentando me equilibrar.

Foi então que meus olhos começaram a pesar de um jeito incomum, como se meu corpo estivesse desligando contra a minha vontade.

O último pensamento que consegui formular foi que havia algo muito errado.

E então, tudo ficou escuro.

Próximo Capítulo