Capítulo 5 CAPÍTULO 05

Negão narrando

Salve mulherada, sou o Gustavo e sou conhecido como negão. Tenho 32 anos e 1,83 de altura.

As paradas pra mim nunca foram fáceis. Desde moleque, tudo que eu consegui foi na marra, e quase sempre na bala. Mas depois de perder minha filha por causa do filho da puta do tenente, eu jurei pra mim mesmo: no dia que eu conseguir sair dessa desgraça, vai ser o último dia de vida dele.

Já faz dois anos que eu tô preso. O pior de tudo nem foi eles terem conseguido me pegar… foi terem me pegado na covardia, e ainda por cima matarem a minha menina no processo.

Minha filha era inocente. Não merecia nada disso. Eu sei que o maior pecado de tudo é meu, pela vida que eu escolhi, mas isso não muda o fato: ela era minha filha… e eu amava ela mais do que qualquer coisa.

Eu sou o Chefe do comando e moro na Vidigal. Quer dizer… morava. Hoje quem tá no comando das ruas por mim é meu braço direito, que segura a responsa e resolve todas as paradas no meu lugar enquanto eu tô aqui.

Desde que me jogaram nesse buraco, eu tô tentando de tudo: advogado, juiz, qualquer um que me dê uma brecha pra sair. Mas tá foda. Ninguém aceita ser comprado, e olha que eu já ofereci uma grana que daria pra mudar a vida de qualquer um.

Minha única sorte é que, pelo menos, minha fiel não me abandonou. Só que eu venho reparando que ela anda estranha nos últimos dias. Já passei a visão pro Red ficar de olho nela, porque tem alguma coisa errada. E eu não vou ser igual corno, o último a descobrir.

Hoje é dia de visita, e o Red já me confirmou que ela está vindo me ver. Espero que ela traga boas notícias, porque sinceramente… tá foda. Se eu passar mais um ano aqui, acho que vou enlouquecer… ou pior, vou acabar fazendo merda e matando geral.

Eu estava pedalando no pátio, tentando matar o tempo até a visita, quando o Gaguinho encostou na minha direção.

— Tua fiel tá na gaiola esperando por você, Chefe. — avisou, e já senti que tinha alguma coisa estranha só pelo jeito dele falar.

Fui andando até lá, e assim que vi a Paloma, percebi. A cara dela não era de quem estava feliz por estar ali. Tava fria, distante… como se tivesse vindo só por obrigação. Peguei a sacola da mão dela e, quando tentei beijar, ela desviou o rosto.

— Bora lá pra cela pra gente trocar um papo. — falei seco.

Entramos, e antes de eu puxar assunto, ela foi logo falando:

— O Red pediu pra avisar que conseguiu uma advogada pra você. Ela é recém-formada… eu acho que vai acabar fazendo merda, mas ele disse que como tá começando e a carreira dela depende disso, ela vai dar a vida se precisar pra te tirar daqui.

— Fala pra ele já deixar avisado que, se ela não acelerar o processo e me tirar logo daqui, vou começar a matar geral da família dela… começando pelos que ela mais ama. — respondi, olhando firme.

— Pode deixar. — ela disse, passando a mão no rosto suado. Peguei um copo e coloquei água pra ela, usando a que ela tinha trazido.

Foi aí que ela soltou:

— Sinceramente, eu não tô mais aguentando essa vida. Não quero mais passar por essa humilhação de ter que ficar vindo aqui. Agora que a Ketlin morreu, eu só quero seguir a minha vida longe de tudo isso.

Eu fiquei olhando pra ela, sem acreditar. Eu… trancado aqui dentro, parecendo um animal, e ela me solta uma dessas?

— Eu vou sair daqui, Paloma. Só tenha um pouco mais de paciência, que logo eu vou estar na rua.

— Dois anos, Gustavo! — ela se exaltou. — Você sabe o que é ficar sozinha durante dois anos? Sentindo falta das pessoas que você ama… e toda vez que olha pros lados, só vê vazio? A minha filha se foi, e se eu não largar toda essa vida pra trás, eu nunca vou conseguir superar. — falou, levantando e saindo da cela sem nem olhar pra trás.

Saí atrás dela, mas ela correu até a gaiola e pediu pra ir embora. Nem tive chance de chegar perto pra gente conversar direito sobre isso.

Fiquei parado, sentindo aquela mistura de raiva e vazio. No fundo, eu sabia… essa conversa ainda não tinha acabado.

Entrei na minha cela de volta, ainda com o sangue fervendo. Peguei o celular que eu tinha escondido no fundo do colchão, minha linha direta com o mundo lá fora e disquei pro Red. Ele atendeu rápido, como sempre.

Ligação on

— Fala, chefe. Achei que tu tava na sua visita só 32 minutos.

— Quero saber qual é a dessa advogada. Nome, cara, histórico… tudo. — falei sem enrolar.

— Já tô levantando as paradas. Ela é novinha, tá começando agora, mas pelo que falaram é sangue no olho. Vai querer se provar.

— Pois então ela vai se provar comigo. Fala pra ela que agora é questão de honra eu sair dessa porra. Quanto mais rápido ela correr, mais rápido eu volto pra minha vida… e mais rápido eu vou atrás do arrombad.o que tirou a minha filha de mim.

O Red ficou em silêncio por um segundo, e eu senti que ele entendeu o recado.

— Pode deixar, Chefe. Já vou marcar com ela e te passo a visão.

Desliguei e fiquei sentado no canto da cela, com a cabeça a mil por hora. Cada dia que eu passo aqui é um dia a mais que aquele filho da put.a respira. E eu juro… quando eu botar o pé lá fora, não vai ter lei, polícia, nem Deus que me segure.

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